Usina solar ou ferrovia? Na Suíça, são as duas
Na Suíça, uma ferrovia virou também uma usina solar. A empresa Sun-Ways instalou painéis solares entre os trilhos em Buttes, no início de um projeto-piloto que une transporte e geração de energia limpa. A iniciativa, em parceria com a operadora local TransN, começou em abril do ano passado e já demonstrou viabilidade técnica.
O teste cobriu um trecho equivalente ao comprimento de um campo de futebol. Apesar do tamanho reduzido, a estimativa da Sun-Ways é ambiciosa: se a tecnologia fosse adotada em toda a malha ferroviária suíça, seria possível suprir até 30% da demanda energética do transporte público do país. A Suíça tem a rede ferroviária mais densa da Europa, com mais de 5 mil quilômetros de trilhos.
A ideia não é totalmente nova. Joseph Scuderi, fundador da Sun-Ways, explica que ela já apareceu em mais de uma dúzia de patentes. A diferença agora é a praticidade: os painéis, fixados por pistões que pressionam os trilhos de aço, podem ser removidos rapidamente para manutenção. Um único trabalhador consegue retirar os módulos em cerca de dez minutos.
O interesse se espalhou. Em fevereiro, a SNCF, companhia ferroviária nacional da França, firmou parceria com a Sun-Ways para avaliar a tecnologia em sua rede, que se estende por cerca de 29 mil quilômetros. "Queremos nos tornar um enorme produtor de energia solar", afirmou Nicolas Phan-Trong, responsável pelos projetos de energia e descarbonização da SNCF. A empresa francesa testa pelo menos dez modelos diferentes de instalações solares e planeja uma operação em escala maior. Um benefício adicional, segundo Phan-Trong, é que os painéis impedem o crescimento de vegetação entre os trilhos, reduzindo custos de manutenção.
O sistema também chegou à Coreia do Sul, onde o governo aprovou em setembro passado um projeto-piloto de dois anos no Instituto Coreano de Pesquisa Ferroviária. Na Itália, um projeto piloto está previsto para o próximo ano, com licença negociada pelo engenheiro Giuseppe Fulco. Ele calcula que, se 20% da malha ferroviária italiana fosse equipada, seriam adicionados cerca de 1 gigawatt de capacidade, suficiente para abastecer até 1 milhão de residências.
Há desafios. Grande parte da energia poderia ser usada pelos próprios trens elétricos, mas o excedente precisa ser transportado sem perdas. Julien Pouget, pesquisador da Universidade de Ciências Aplicadas da Suíça Ocidental, trabalha em uma arquitetura elétrica específica para minimizar essas perdas. O custo também está em avaliação. Valerio Tamellini, gerente de projetos da TransN, acredita que a viabilidade econômica ficará mais clara até o fim do piloto em Buttes, previsto para 2028. "Se o preço fizer sentido, por que não implementar isso em todos os lugares?", questionou.