El Niño deve custar caro ao PIB do Brasil com choques
A instabilidade do clima deixou de ser apenas uma pauta ambiental. O aumento da temperatura e a frequência de eventos climáticos extremos atingem de forma direta a produção do agronegócio, o setor elétrico, o mercado imobiliário e os custos do setor financeiro. Para o Brasil, o impacto pode ser ainda mais severo, com reflexos diretos no PIB.
O que o El Niño pode custar ao PIB do Brasil?
Segundo Paulo Artaxo, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o modelo econômico global vigente se tornou insustentável até no curto prazo. Em entrevista ao videocast O Clima na Faria Lima, do InfoMoney, apresentado por Marina Cançado, o pesquisador explicou que a ciência e o Fórum Econômico Mundial de Davos reconhecem o risco: nos últimos cinco relatórios, entre os dez maiores riscos para o sistema econômico global, até cinco estão associados à questão climática ou ambiental.
Por que o Brasil é mais vulnerável ao clima?
A localização geográfica tropical acentua o impacto econômico das transformações ambientais. Enquanto a média global de aquecimento se aproxima de 1,45 °C, a elevação em território nacional pode atingir patamares entre 3,5 °C e 4 °C. Isso afeta diretamente a produtividade do campo e a geração de energia.
A desregulamentação do regime de chuvas compromete a agricultura irrigada e de sequeiro no Brasil Central, que depende da umidade trazida pela Amazônia. Com o aumento do desmatamento ilegal, esse fluxo hídrico é alterado, criando prejuízos acumulados para os produtores rurais. Além disso, as exportações ficam expostas a exigências internacionais mais rígidas de rastreabilidade socioambiental.
Como o agro sente os choques climáticos?
Para monitorar as áreas e garantir o cumprimento da lei, o país conta com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e com a rede MapBiomas, que mapeiam o histórico do uso da terra e ajudam a identificar infrações na cadeia produtiva do agronegócio. Mas os prejuízos já são bilionários.
Artaxo pontua que há outra camada de pressão para determinados setores: com perdas causadas por secas e inundações históricas, seguradoras e instituições bancárias vão precisar recalcular o custo do crédito e a concessão de apólices rurais. A inação gera custos muito maiores do que os investimentos necessários para a adaptação.
Energia: renováveis como saída financeira
Para além da mitigação de danos, a transição para fontes renováveis apresenta viabilidade e eficiência financeira. A geração de energia por fontes solar e eólica já opera com custos inferiores aos da energia fóssil, oferecendo ao Brasil a oportunidade de consolidar uma matriz elétrica barata e competitiva.
Isso importa em um cenário em que o setor elétrico é um dos mais expostos aos choques climáticos. A dependência de hidrelétricas, combinada a secas prolongadas, eleva o custo da energia e pressiona a inflação.
O que o mercado financeiro já está fazendo?
Com possibilidade de risco de desvalorização em ativos ligados ao petróleo e a atividades intensivas em carbono, o mercado financeiro e as corporações começam a redirecionar o capital para projetos sustentáveis. Para o especialista, negligenciar essas mudanças compromete a estabilidade das organizações.
O custo do crédito rural tende a subir, e as apólices de seguro para o campo devem ficar mais caras ou mais restritas. Quem depende do financiamento agrícola precisa se preparar para um cenário de maior escrutínio e de prêmios de risco mais altos.
Infraestrutura litorânea: portos na mira
Para que haja adaptação econômica, Artaxo menciona que também é preciso rever o planejamento de infraestrutura de longo prazo em áreas litorâneas. Com 8.500 km de costa, a exposição ao aumento do nível dos oceanos reflete perigos para portos fundamentais para a balança comercial, como o porto de Santos, em São Paulo.
Se o nível do mar subir, a logística de exportação pode sofrer interrupções, com impacto direto no PIB. A adaptação de portos e zonas costeiras precisa entrar na agenda de longo prazo.
O que isso significa para o seu bolso?
O custo do crédito, o preço da energia e o valor dos alimentos são canais de transmissão diretos. Quando o agro perde produtividade, a comida fica mais cara. Quando a energia fica mais escassa, a conta sobe. E quando seguradoras e bancos elevam o prêmio de risco, o crédito para o produtor encarece.
Para o consumidor final, a mensagem é de cautela: os efeitos do El Niño não ficam restritos ao campo. como o clima afeta o preço dos alimentos
Perguntas Frequentes
O El Niño pode realmente afetar o PIB do Brasil?
Sim. Segundo o professor Paulo Artaxo, da USP, o impacto econômico é direto na produção do agronegócio e na geração de energia, setores que pesam no PIB. A elevação da temperatura no país pode chegar a entre 3,5 °C e 4 °C, acima da média global.
Quais setores são mais atingidos?
Agronegócio, setor elétrico, mercado imobiliário e setor financeiro. As perdas no campo já são bilionárias, e seguradoras e bancos precisarão recalcular custos de crédito e apólices rurais.
Por que o Brasil é mais vulnerável que outros países?
Pela localização tropical e pela dependência da umidade da Amazônia para a agricultura no Brasil Central. O desmatamento ilegal altera o fluxo hídrico e amplia os prejuízos.
Energia renovável pode ajudar?
Sim. A geração solar e eólica já opera com custos inferiores aos da energia fóssil, o que pode tornar a matriz elétrica brasileira mais barata e competitiva.
O que o mercado financeiro está fazendo?
Redirecionando capital para projetos sustentáveis, diante do risco de desvalorização de ativos ligados ao petróleo e a atividades intensivas em carbono. investimentos sustentáveis no Brasil