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Vanguard: "A renda fixa, que antigamente protegia, precisa ser reavaliada"

ResumoA Vanguard, representada pelo economista sênior Thiago Ferreira na Expert XP 2026, alerta que a renda fixa precisa ser reavaliada como ativo de proteção. O ciclo de juros baixos e inflação controlada encerrou-se, exigindo que investidores brasileiros reconsiderem estratégias tradicionais de alocação em renda fixa para preservar poder de compra.

A renda fixa, que por mais de uma década foi sinônimo de proteção, precisa ser reavaliada. Em painel na Expert XP 2026, Thiago Ferreira, economista sênior da Vanguard, explicou que o ciclo de juros baixos e inflação comportada acabou. Saiba o que muda para o investidor brasileiro

Bianca Solano
Bianca Solano Repórter de finanças pessoais · 24 de julho de 2026
Vanguard: "A renda fixa, que antigamente protegia, precisa ser reavaliada"

Vanguard: "A renda fixa, que antigamente protegia, precisa ser reavaliada"

O ciclo de inflação comportada e juros baixos que sustentou os portfólios entre 2009 e 2020 acabou. A renda fixa, que naquele período funcionava como escudo, precisa ser reavaliada no papel de proteção. A avaliação é de Thiago Ferreira, economista sênior da Vanguard, em painel da Expert XP 2026 nesta quinta-feira (23).

A renda fixa, que protegia portfólios entre 2009 e 2020 com juros baixos e inflação controlada, precisa ser reavaliada. Thiago Ferreira, economista sênior da Vanguard, afirma que choques de oferta, como guerras, pandemia e tarifas, elevam a inflação e travam cortes de juros, exigindo novas estratégias de alocação.

Por que a renda fixa parou de proteger como antes?

Segundo Ferreira, a mudança está na origem dos choques. Reorganização das cadeias globais, disputas geopolíticas, tarifas comerciais, pandemia e conflitos internacionais passaram a provocar choques de oferta. Isso altera de forma relevante o comportamento da inflação e a resposta da política monetária.

"Quando essas coisas acontecem, a inflação vai pra cima. E o que acontece é que o Banco Central fica ali no meio, naquele dilema: se ele corta juros para ajudar a economia, ele vai acelerar a inflação. Nesse momento, a renda fixa, que antigamente protegia, precisa ser reavaliada", afirmou.

O ponto rompe com a lógica que funcionou por mais de uma década. No período entre 2009 e 2020, que Ferreira classifica como exceção histórica, cada desaceleração da economia vinha acompanhada de recuo da inflação, o que abria espaço para corte de juros.

Inflação volta a corroer o patrimônio

Cesar Florido, head de Gestão da XP Asset US, tratou do mesmo problema pela ótica do retorno real. Ele lembrou que a inflação deixou de ser questão secundária na virada da década e voltou a rodar perto de 4% ao ano em termos anualizados.

"De 2009 a 2020, você não teve a inflação como um problema, e, de 2020 para frente, ela está em quase 4%, anualizada. Se você não tiver investimentos que te protejam, seu patrimônio vai corroer. É preciso gerar retorno real", disse.

Para Florido, a volatilidade continuará sendo variável relevante na montagem das carteiras. Mesmo o investidor que já tem exposição internacional, na avaliação dele, precisa considerar ajustes no portfólio diante de um cenário influenciado por guerras, oscilações no preço do petróleo e desafios fiscais.

Diversificação internacional: saída ou armadilha?

Apesar das taxas ainda atrativas no mercado local, os dois defenderam que a alocação fora do Brasil é cada vez mais importante para preservar e expandir o patrimônio, além de dar acesso a um universo maior de teses. Ferreira citou segmentos ligados a inteligência artificial (IA), data centers e semicondutores entre os que concentram as transformações mais relevantes.

O alerta veio junto. Muitos ativos já operam com valuations esticados, e o exercício, segundo o economista, é identificar onde estará a próxima onda de crescimento, não perseguir o tema da vez. Na leitura dele, o desenvolvimento da IA tende a avançar em direção ao usuário final, chegando a hospitais, sistemas de saúde e serviços financeiros com soluções mais eficientes e personalizadas.

A IA, aliás, não configura para Ferreira um choque clássico de produtividade, mas muda de forma relevante a dinâmica dos mercados, o que por si só justifica revisão de portfólio. O economista também chamou atenção para a transição demográfica, com mais idosos e menos jovens no mercado de trabalho.

E o dólar? A moeda americana ainda é soberana

Diante das discussões sobre enfraquecimento da moeda americana, Florido foi direto ao dizer que o dólar não tem substituto claro no curto prazo e continua sendo o que sempre foi. Ele ponderou, porém, que a dinâmica muda conforme o investidor. Para o americano, é natural manter boa parte dos ativos dolarizada. Para o brasileiro, cuja geração futura de caixa segue em real, o quadro é diferente, o que não elimina a importância da moeda na estratégia de diversificação.

Ferreira acrescentou que a força dos Estados Unidos não se resume à moeda, apoiada também na robustez do mercado corporativo e na profundidade da liquidez local.

O que muda na prática para os próximos 10 anos?

Questionados sobre os ajustes práticos para os próximos dez anos, os dois separaram o que é tático do que é permanente.

Na renda variável, Ferreira defendeu ampliar a participação nas novas fontes globais de crescimento sem abandonar o método. "O que eu não mudaria seria a disciplina. A disciplina vem do que você consegue controlar: diversificar, manter custos baixos, ter horizonte de tempo e uma estratégia firme, sem cair em narrativas de curto prazo", afirmou.

Na renda fixa internacional, Florido apontou que a classe voltou a oferecer retornos atrativos, o que amplia seu papel nas carteiras, com a contrapartida de exigir mais seletividade.

"Antes, você pagava para investir, com juros negativos na Europa, como nos papéis alemães de 10 anos. Hoje, por conta desses novos riscos, ela voltou a pagar renda de verdade. Mas é nessa hora que você precisa ser seletivo para extrair renda de onde há qualidade", destacou.

Perguntas Frequentes

O que mudou na renda fixa para ela não proteger mais?

O ciclo de inflação baixa e juros em queda que vigorou entre 2009 e 2020 acabou. Agora, choques de oferta, como guerras, pandemia e tarifas, elevam a inflação e impedem cortes de juros, o que reduz o poder de proteção da renda fixa.

Quem fez o alerta sobre a renda fixa?

Thiago Ferreira, economista sênior da Vanguard, em painel da Expert XP 2026. Ele foi acompanhado por Cesar Florido, head de Gestão da XP Asset US.

O investidor brasileiro deve migrar para o exterior?

Os dois especialistas defenderam que a alocação fora do Brasil é cada vez mais importante para preservar e expandir o patrimônio, mas sem abandonar a disciplina e a seletividade.

A inflação atual está em quanto?

Segundo Florido, a inflação anualizada roda perto de 4% desde 2020.

O dólar ainda é a melhor opção?

Florido afirmou que o dólar não tem substituto claro no curto prazo, mas que a estratégia muda conforme o perfil do investidor, para o brasileiro, a geração de caixa em real exige ponderação.

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