Shein estreia na Bolsa sem brilho e expõe desgaste do fast-fashion
A Shein chegou à Bolsa nesta terça-feira sem o brilho de outrora. As ações caíram até 10% na estreia antes de recuperação parcial e fecharam próximas ao preço da oferta. O início modesto contrasta com a avaliação atual, cerca de um quarto dos US$ 100 bilhões que a companhia já chegou a valer. O número conta a história: o mercado perdeu o apetite pelo modelo de fast-fashion.
A abertura de capital ocorreu após uma onda de listagens de empresas chinesas de IA em Hong Kong e Xangai, e anos depois de a Shein fracassar em Nova York e Londres, diante da oposição de autoridades e ativistas preocupados com as condições de trabalho. A queda na avaliação reflete dúvidas sobre a sustentabilidade do negócio, especialmente após Estados Unidos e Europa encerrarem benefícios tarifários sobre produtos de baixo valor, essenciais para os preços reduzidos.
Nas pequenas fábricas do polo industrial de Guangdong, no sudeste da China, não há robôs humanoides nem computadores quânticos. Há trabalhadores com jornadas de 10 a 14 horas por dia, em cenário que, segundo observadores, lembra a China de décadas atrás. "Ela representa a velha tecnologia, em contraste com a nova", afirmou Nirgunan Tiruchelvam, da Aletheia Capital. "A Shein teria despertado muito mais interesse em 2021."
Os números da oferta reforçam o ceticismo. Weiheng Chen, sócio da Wilson Sonsini em Hong Kong, observou que investidores institucionais absorveram pouco mais de 20% da oferta, bem abaixo dos cerca de 50% em listagens de sucesso. "É uma empresa de moda que já não está tão na moda entre os investidores de hoje", disse.
Um dos maiores desafios é reconquistar a Geração Z. Michael Gunther, da Consumer Edge, afirmou que a Shein perde participação nos EUA, especialmente entre 18 e 34 anos. Preocupações com sustentabilidade e até com acessibilidade dos preços podem estar por trás. Em maio de 2025, a companhia elevou preços nos EUA para compensar custos de importação.
Críticas trabalhistas também pesam. Relatório da ONG China Labor Watch, compartilhado com o New York Times, aponta funcionários de fornecedores com mais de 20 dias consecutivos sem folga, pausas de 10 minutos e remuneração entre US$ 850 e US$ 1.130 por mês. "Na Shein, trabalhar 100 horas por semana é totalmente possível", disse Li Qiang, diretor da ONG. A empresa rejeitou as alegações e contestou os dados salariais.
Desde 2021, a Shein foi citada como ré em 58 processos nos EUA por supostas violações de propriedade intelectual. A companhia afirma que ser processada não comprova a validade das alegações.
Winston Ma, ex-diretor da China Investment Corp., comparou o caso ao da Zoom, que disparou na pandemia e depois perdeu força. "Era um conceito promissor durante a Covid, mas agora foi ofuscado pela nova era da IA." IPO de empresas de tecnologia