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Onda de recuperações judiciais faz fundos mirarem até 30% ao ano

A onda de recuperações judiciais, marcada nas últimas semanas por Casas Bahia, Marabraz e Habib's, e o recorde de 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho, segundo a Serasa Experian, abrem uma nova leva de oportunidades para fundos de special situations, que miram ganhos de até 30% ao ano. Várias gestoras se preparam para lançar fundos e captar recursos, em geral multimercados fechados com prazos de cinco a dez anos.

Esses fundos, acessíveis a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão investido) e profissionais, ganham dinheiro de duas formas: compram dívidas de empresas em dificuldade por preço abaixo do valor de face, apostando que a renegociação ou a execução de garantias vai recuperar mais do que o valor investido, ou entram como credores novos, financiando a companhia a taxas elevadas em troca de garantias reforçadas. Em ambos os casos, o retorno depende de processos que levam anos.

"A nova onda de oportunidades é semelhante à que se seguiu ao governo Dilma e à pandemia de Covid-19", compara Flávio Aragão, sócio da 051 Capital. "A safra que vai ser montada vai ser espetacular, quem tiver paciência e prazo para esperar vai poder montar uma boa carteira de títulos estressados." O momento atual ajuda porque, com muitas inadimplências ao mesmo tempo, os credores serão pressionados a repactuar e aceitar descontos maiores, avalia Aragão. Ele lembra que há também a eleição presidencial, que atrapalha os negócios e reduz o apetite do investidor por risco.

A 051 prepara a captação de um multimercado fechado de cerca de R$ 500 milhões, o quarto fundo da gestora. A referência é o segundo veículo da casa, montado depois da pandemia. O potencial de retorno hoje é alto: "Negócios de crédito estruturado com juros de CDI mais 15%, 17% (cerca de 30% a 32% ao ano) eram raros, mas já voltaram à mesa", diz Aragão. Ele cita ainda fundos de recebíveis com retorno de CDI mais 14% ao ano, cuja cota sênior paga o equivalente a CDI mais 4%. Segmentos como o de energia elétrica também entraram no radar.

Renato Herkenhoff, sócio-fundador da Möbius Capital, afirma que há procura dos investidores por esses fundos, apesar do juro alto. A gestora tem R$ 1 bilhão sob gestão e estuda captar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão com um novo fundo ainda este ano. Os prazos costumam ser de oito anos, e um dos principais veículos da casa apresenta retorno de 32% ao ano, ou CDI mais 17%. Herkenhoff destaca que o investimento faz sentido para grandes investidores, institucionais e bancos, por ser uma classe descorrelacionada e de retorno de longo prazo.

Arnaldo Braga, sócio e gestor de crédito da Neo Investimentos, adota cautela: "Tem oportunidade, mas elas não estão aumentando tanto e tem muitos fundos com dinheiro para comprar, o que reduz os prêmios." Ele vê risco de empresas entrarem em "modo zumbi", sem crescer e sem investir, mas enxerga oportunidades no agronegócio, apesar das dificuldades com insegurança jurídica e execução de garantias. O investidor precisa de cuidado: "Tem de olhar com detalhe, dar um passo atrás, não pode ir com muita sede ao pote, se não vai ser atropelado pelo mercado."

Otávio Bandeira
Analista de mercado de capitais
Analista de mercado de capitais.
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