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Multimercados fecham portas e migram para bancos; entenda

O gestor Arminio Fraga, um dos nomes mais conhecidos dos multimercados no Brasil, anunciou no início do mês a transferência da gestão de seus fundos para o quarto maior banco do país. Com juros de dois dígitos, os retornos elevados dificultam atrair clientes suficientes para manter um fundo independente, admitiu o ex-presidente do Banco Central. A venda para a gestora de recursos do Bradesco escancara um movimento que ganha força: gestores de multimercados, sobretudo os que fazem grandes apostas macroeconômicas, estão fechando suas casas e buscando bancos para assumir a gestão de seus fundos.

"Estamos passando por um momento cíclico ruim para os multimercados, com juros extremamente altos e concorrência forte de produtos com vantagens tributárias", disse Fraga, que fundou a Gávea Investimentos no Rio de Janeiro há duas décadas. "Os multimercados em geral não têm ido bem recentemente."

A tendência não é isolada. A Itaú Asset Management, braço do maior banco do país, contratou Luiz Eduardo Portella, um dos fundadores da Novus Capital, para montar uma estrutura de pods de investimento. A gestora também incorporou a Solana Capital, especializada em renda variável, e trouxe Eduardo Zilberman, ex-SPX Capital, para chefiar a pesquisa econômica.

A reversão marca o fim de um êxodo iniciado há cerca de uma década, quando dezenas de gestores deixaram os grandes bancos para abrir gestoras próprias. Naquele período, a Selic chegou ao piso histórico de 2% na pandemia, forçando investidores a buscar alternativas. "Abrir uma gestora costumava ser 'três amigos e um Terminal'", afirmou Guilherme Zaczac, do UBS Global Wealth Management. "Mas não é assim que esse negócio funciona."

Com o Banco Central elevando os juros a dois dígitos em 2022, os investidores fugiram do risco. O patrimônio de sete das maiores gestoras independentes em estratégias macro caiu quase pela metade desde 2022, para cerca de R$ 89 bilhões (US$ 17 bilhões), segundo a Anbima. O número de fundos macro recuou 20% desde o pico de 2021, para 743 em julho. A indústria caminha para o quinto ano de saídas, com resgates de R$ 672 bilhões desde 2022.

Enquanto isso, as gestoras ligadas a grandes bancos mostraram resiliência: o patrimônio em fundos macro dessas casas quase dobrou desde 2019, para R$ 542 bilhões em junho, segundo dados compilados pela Bloomberg. "Essa solução é importante para os grandes bancos atraírem executivos que não conseguem construir um negócio sozinhos", disse Pedro Rudge, diretor da Anbima e fundador da Leblon Equities.

O choque do petróleo provocado pela guerra no Irã derrubou as apostas em cortes de juros, e março foi o pior mês do setor desde 2020. Investidores esperam Selic acima de 13% até o fim do ano que vem. Para Fraga, os juros altos revelam um problema maior: um governo tomando somas enormes para financiar um déficit fiscal que explodiu. "Os sinais não são meramente cíclicos", disse. "O problema aqui é mais profundo e mais preocupante."

Rubens Athayde
Economista de mercado
Economista de mercado.
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