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Ibovespa sobe ou corrige? Payroll define próximo movimento

O Ibovespa chega ao payroll dos Estados Unidos, principal relatório oficial de emprego do país, depois de testar uma região importante do gráfico. Na quinta-feira (3), o índice bateu 188.891 pontos na máxima, resistência relevante pela análise técnica e patamar não visto desde o início de maio. O fôlego, porém, diminuiu ao longo do pregão, e a bolsa fechou praticamente estável, aos 185.188 pontos, interrompendo uma sequência de 11 altas.

Nesta sexta-feira (4), o dado americano pode ajudar a definir se a Bolsa brasileira terá força para voltar a enfrentar a resistência ou se a recente valorização dará lugar a uma realização de lucros. O payroll de agosto será divulgado às 9h30, no horário de Brasília, com expectativa de criação de cerca de 55 mil vagas, após a queda inesperada em julho. A projeção para a taxa de desemprego é que permaneça em 4,1%.

Mais do que saber se a criação de empregos ficará acima ou abaixo da projeção, o mercado acompanhará os detalhes sobre desemprego e salários nos EUA. A combinação desses números ajudará a medir a temperatura da economia americana e a calibrar as apostas para os próximos passos do Federal Reserve (Fed). Para o investidor brasileiro, essa leitura pode chegar rapidamente aos juros americanos, ao dólar, ao fluxo para mercados emergentes e ao próprio Ibovespa.

O relatório ganhou importância extra após o diretor do Fed Christopher Waller afirmar, na quinta-feira, que estaria disposto a defender a manutenção dos juros caso a inflação continue avançando em direção à meta de 2%. Por outro lado, se as pressões inflacionárias voltarem a ganhar força, ele disse que consideraria uma alta. A taxa básica americana está entre 3,50% e 3,75%, e operadores reduziram apostas em elevação de 0,25 ponto percentual em setembro, deixando o mercado dividido.

Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, considera o payroll um dos principais testes para os mercados. Para ele, não basta olhar apenas para a criação de vagas: "Mais importante do que simplesmente o dado do payroll vir acima ou abaixo da expectativa é observar o conjunto dos números", diz, citando emprego, desemprego e salários. André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, destaca que a inflação tem peso especial na leitura. Um payroll abaixo das expectativas tende a ser melhor recebido pelas Bolsas, enquanto um número muito forte pode reforçar a percepção de que os juros precisarão subir novamente nos EUA.

Uarian explica que um payroll mais fraco, com salários moderados, tende a dar espaço para política monetária menos restritiva, derrubando rendimentos dos Treasuries e o dólar, o que favoreceria ativos de risco e entrada de capital estrangeiro no Brasil. Mas ele chama de "melhor dos mundos" um cenário intermediário: emprego desacelerando sem deterioração forte o suficiente para alimentar receios de recessão. Já Alison Correia, trader e sócio da Dom Investimentos, alerta que um payroll muito acima do esperado pode ser "a deixa para a correção" diante da forte valorização recente.

Um primeiro sinal apareceu na quarta-feira (2): o relatório da ADP mostrou criação de 38 mil vagas no setor privado em agosto, abaixo das 48 mil esperadas e das 46 mil de julho, após revisão. Rafael Perretti, economista e analista da Clear Corretora, lembra que a relação entre ADP e payroll perdeu força: "Nem sempre o ADP mais fraco significa que o payroll também virá mais fraco". Alexandre Wolwacz, o Stormer, trader e sócio-fundador da Liberta, afirma que parte dos operadores já embolsou ganhos na quinta, diminuindo posições antes da divulgação, à espera do resultado. O número de 55 mil vagas será referência, mas não contará toda a história. A resposta pode ajudar a dizer se os 200 mil pontos seguirão no radar dos investidores para o Ibovespa.

Otávio Bandeira
Analista de mercado de capitais
Analista de mercado de capitais.
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