Gestores veem Brasil sem melhora fiscal no curto prazo, mas renda fixa brilha
O mercado financeiro trabalha com um cenário pouco animador para as contas públicas brasileiras, mas é esse pessimismo que cria oportunidades na renda fixa, segundo gestores reunidos no Macro Day 2026, evento do BTG Pactual nesta segunda-feira (31). Fabiano Rios, da Absolute Investimentos, Carlos Woelz, da Kapitalo, e Rodrigo Carvalho, da BTG Pactual Asset Management, concordam que a deterioração fiscal mantém juros elevados. A diferença está na expectativa sobre quando esse quadro muda.
Para Carvalho, há possibilidade razoável de que um eventual governo eleito em 2027 avance com reformas para reduzir despesas e abra espaço para cortes de juros. Já Woelz vê poucas chances de mudança sem troca de governo. "Esse ciclo se esgotou. O governo teria que aceitar que é o momento de desacelerar, não pedalar essa bicicleta para sempre. Mas não acredito nessa possibilidade, então prefiro ficar de fora", afirmou.
É a falta de expectativa de queda dos juros que chama a atenção de Rios. Segundo ele, o mercado já incorporou à curva um cenário ruim. Se houver qualquer melhora fiscal, mesmo pequena, os juros podem cair rapidamente e provocar valorização dos títulos. "Um ajuste fiscal pequeno já vai derrubar os juros de curto prazo. A economia está capengando e qualquer susto positivo vai causar uma reação mais forte. É uma grande oportunidade", disse.
A preferência está em títulos prefixados e indexados à inflação, mais sensíveis às mudanças na curva. Nesta segunda-feira, um prefixado do governo com vencimento em 2029 oferecia 14,13% ao ano. Para Rios, não é razoável esperar que a Selic permaneça em torno dos atuais 14% daqui a três anos. "Tem muito pouco precificado. E, em algum momento, vai ter correção desses preços."
A visão sobre a bolsa é menos otimista. Os gestores não abandonaram as ações, mas evitam empresas muito dependentes do crescimento da economia brasileira. Na Absolute, a preferência está em exportadoras e companhias que podem se beneficiar de eventual queda dos juros reais. O BTG Asset mantém exposição a setores defensivos e está comprado em dólar como proteção.
A cautela reflete também o ambiente global. Para Rios, as expectativas de crescimento econômico continuam elevadas mesmo com juros e inflação altos, o que pode indicar uma "exuberância irracional" semelhante à dos anos 1990. No Brasil, essa paciência pode significar esperar por uma mudança fiscal. Até lá, para os gestores, os juros altos que assustam o mercado também podem ser a fonte da oportunidade.