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Como a arquitetura aproximou previdência de multimercados

A arquitetura de produtos aproximou a previdência dos multimercados ao ponto de um fundo previdenciário replicar quase integralmente a estratégia de um fundo convencional. O K10 Prev XP Seg, da Kapitalo Investimentos, acumulou rentabilidade de 96,33% até 30 de julho de 2026, ante 96,01% do K10 FIC MM, usado como referência. No período, a correlação entre os retornos diários dos dois veículos chegou a 0,9953, índice em que valores próximos de 1 indicam alta semelhança entre os movimentos.

A aproximação chama atenção porque os Fundos de Investimento Especialmente Constituídos (FIEs), que recebem recursos de planos PGBL e VGBL, operam sob limitações específicas. Entre elas estão margem requerida limitada a 15% da posição em ativos aceitos por câmara, prêmios de opções restritos a 5% dessa posição, vedação à alavancagem e limites de exposição cambial. Essas regras normalmente exigem adaptações e, em alguns casos, a redução das estratégias originalmente desenvolvidas para multimercados.

"A pergunta não era quanto da estratégia daria para levar, era como não deixar nada para trás", pontua Rodrigo Cavenaghi, sócio-executivo da Kapitalo e responsável pela arquitetura de produtos da gestora. "A resposta não estava na carteira, estava na arquitetura do produto."

Para medir o resultado, Cavenaghi comparou as cotas diárias do K10 Prev XP Seg e do K10 FIC MM entre 23 de junho de 2021 e 30 de julho de 2026. A análise reuniu 1.283 observações extraídas da plataforma Comdinheiro. Além da correlação de 0,9953, o levantamento encontrou um tracking error anualizado de 0,65%, indicador que mede o desvio do fundo em relação à estratégia de referência. Em 45% dos dias, a diferença entre os retornos ficou abaixo de 0,01 ponto percentual; em 86%, foi inferior a 0,05 ponto.

A razão entre as volatilidades dos fundos ficou em 97,7%, ou seja, a volatilidade do produto previdenciário ficou 2,3% abaixo da apresentada pela estratégia original. No período completo, a diferença máxima entre as trajetórias de rentabilidade acumulada foi de 1,16 ponto percentual, enquanto a diferença média ficou em 0,23 ponto. Os fundos, contudo, possuem estruturas de taxas distintas.

O resultado contribuiu para que o K10 Prev fosse eleito o Melhor Fundo de Previdência Multimercado na edição de 2026 da Premiação Outliers InfoMoney. A terceira edição será realizada no dia 28 de janeiro, no Teatro B32, na Faria Lima, em São Paulo (SP).

A proximidade da rentabilidade bruta não é o único ponto relevante para o investidor. Em uma simulação feita separadamente, Cavenaghi e Kauê Andrade Mamed, coordenador jurídico da Kapitalo, compararam o efeito da tributação sobre os dois tipos de veículo. Mantida a mesma rentabilidade bruta durante 20 anos, o FIE terminou a simulação com cerca de 33% mais patrimônio líquido do que um multimercado comum sujeito ao come-cotas.

A diferença decorre da forma de recolhimento do Imposto de Renda. Nos fundos submetidos ao come-cotas, há uma antecipação semestral do tributo, que reduz o dinheiro aplicado e, consequentemente, a base sobre a qual incidem os juros compostos. No FIE, o imposto é diferido para o resgate. Caso o investidor escolha a tabela regressiva, a alíquota pode chegar a 10% para cada aporte mantido por mais de dez anos.

"Quando olhamos apenas para a rentabilidade bruta, podemos imaginar que dois investimentos com o mesmo desempenho terão necessariamente o mesmo resultado final. Mas a tributação interfere diretamente na formação do patrimônio. No longo prazo, deixar o imposto para o momento do resgate permite que uma parcela maior dos recursos continue trabalhando e se beneficie dos juros compostos", explica Cavenaghi.

A vantagem tributária, entretanto, não garante que todo fundo previdenciário terá desempenho bruto superior ao de um multimercado convencional. Os FIEs continuam sujeitos a restrições que podem limitar o uso de derivativos, as exigências de margem e a exposição a ativos no exterior.

O K10 é um fundo macro lançado em 2018 e liderado por Bruno Cordeiro. Para transportar essa estratégia à previdência, o K10 Prev foi montado por meio de uma combinação de fundos masters. Em uma estrutura convencional, cada fundo feeder, o veículo que recebe o dinheiro do investidor, aplica em um único master. No modelo desenvolvido pela Kapitalo, os feeders podem adquirir cotas de diferentes masters, e a exposição de cada produto é determinada pela composição dessas cotas. Segundo a gestora, esse desenho reduz a necessidade de ratear ordens de negociação entre diferentes carteiras, uma possível fonte de erros e divergências entre fundos que deveriam seguir estratégias semelhantes.

Os dados fazem parte de um estudo assinado por Cavenaghi e Mamed, ainda em processo de submissão para publicação. O trabalho também reconstrói as mudanças regulatórias dos fundos destinados à previdência complementar aberta, da Resolução CMN nº 3.308/2005 à Resolução CMN nº 4.993/2022, atualmente em vigor. Ao longo desse período, as regras passaram por flexibilizações relacionadas a risco, derivativos e investimentos no exterior. A Resolução CMN nº 4.444/2015, por exemplo, dividiu os recursos em quatro segmentos e elevou de 49% para 70% o limite de renda variável para PGBL e VGBL. A norma também estabeleceu o parâmetro de 15% de margem requerida, mantido praticamente inalterado no regramento atual.

O estudo defende ainda uma revisão na regra que impede os FIEs de adquirir determinados ativos de empresas coligadas à seguradora responsável pela distribuição do plano. A medida busca evitar conflitos de interesse, mas, segundo os autores, também pode alcançar gestoras independentes sem vínculo societário ou econômico com a seguradora. A proposta é manter a proteção ao investidor, mas permitir maior flexibilidade quando houver independência efetiva da gestão, mecanismos de controle, políticas de melhor execução e governança adequada.

"A questão não é eliminar a proteção regulatória, mas avaliar se a mesma restrição deve ser aplicada indistintamente a estruturas com riscos de conflito muito diferentes. Uma regulação baseada em governança pode permitir maior eficiência sem abrir mão da proteção ao participante", afirma Cavenaghi.

Otávio Bandeira
Analista de mercado de capitais
Analista de mercado de capitais.
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