Treasuries em alta: Japão e big techs pressionam Wall Street
Os rendimentos dos Treasuries dispararam, com o Treasury de 30 anos acima de 5,3%, maior nível desde 2002. Concorrência japonesa e emissão de dívida das big techs explicam a pressão.
Os mercados norte-americanos operam com volatilidade, e os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA, os Treasuries, voltaram a pressionar. Nas últimas duas semanas, o S&P 500 e o Dow Jones caíram 0,5%, enquanto o Nasdaq recuou mais de 1%. No último mês, o Treasury de 30 anos ultrapassou 5,3%, maior valor desde meados de 2002.
A alta vai além da questão fiscal, embora a dívida dos EUA tenha ultrapassado US$ 40 trilhões pela primeira vez. Especialistas apontam dois fatores: a concorrência com os títulos japoneses e a emissão de dívida por grandes empresas de tecnologia.
O economista-chefe da Nomos, Beto Saadia, explica que o aumento de juros no Japão tornou os rendimentos locais mais atrativos. O país enfrenta pressão inflacionária, e o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi acelera gastos, exigindo postura mais agressiva do banco central japonês.
Além disso, hyperscalers como Meta, Amazon e Alphabet, expostas à inteligência artificial, passaram a emitir dívida privada. Segundo dados do JP Morgan, a emissão dessas empresas saltou de US$ 93 bilhões, em 2025, para US$ 182 bilhões até julho de 2026, quase o dobro em menos de um ano. O valor equivale a 12% do total de emissão bruta de high grade nos EUA.
Para Saadia, são empresas de baixo risco e alta qualidade que competem com os títulos do governo, com taxas interessantes. "Elas sempre tiveram muito caixa líquido, mas estamos vendo pela primeira vez esse volume de emissão de dívidas por essas empresas."
O UBS GWM reforça que o investimento em IA transforma o mercado de títulos. Grandes empresas de tecnologia emitem cada vez mais dívida para financiar capex, criando competição adicional pelo capital dos investidores, justamente quando os governos já precisam de financiamento substancial. Se os investimentos em IA permanecerem elevados, a emissão corporativa pode continuar pressionando os rendimentos de longo prazo.
A sócia e co-CIO da Armor Capital, Paula Moreno, afirma que essa competição drena liquidez no mundo. Após a intervenção do secretário do Tesouro, Scott Bessent, que afirmou dobrar recompras de títulos de médio e longo prazo, o UBS avalia que a ação melhora o funcionamento do mercado, mas não resolve o desequilíbrio fiscal. Moreno lembra que, em fevereiro, o presidente Donald Trump sofreu revés na Suprema Corte, que derrubou tarifas externas. "Temos uma trajetória ruim do fiscal, emitindo mais títulos, e há competição entre dívida privada e pública."
A Armor projeta alta nos juros dos EUA, com petróleo incômodo e atividade precisando moderar. O cenário vai além da dívida pública: com Japão e big techs disputando capital, o Tesouro dos EUA divide espaço na parte longa da curva. Se a pressão fiscal continuar com demanda privada elevada, os juros longos podem permanecer altos, mantendo os Treasuries no centro das atenções.