Mercado Valor 🔍
Mercado Valor
Editorias
Institucional
Economia

EUA imitam Brasil? Dívida americana e juros longos

Os Estados Unidos voltaram a conviver com inflação alta em 2021, num episódio que forçou o Federal Reserve a subir juros em ritmo acelerado. Cinco anos depois, Washington enfrenta outro desafio típico de economias emergentes: financiar a dívida em prazos longos a um custo aceitável. O rendimento do título americano de 30 anos atingiu em agosto o maior nível desde 2007.

Em resposta, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dobrou para pelo menos US$ 4 bilhões por operação o programa de recompra de papéis longos. Os papéis de 30 anos reagiram de imediato, mas devolveram os ganhos no dia seguinte. A próxima alavanca, segundo analistas, seria cortar a emissão de títulos com dez anos ou mais, com risco de redução nos leilões de 20 e 30 anos já em novembro. Na avaliação de Mark Cabana e Meghan Swiber, do Bank of America, o que está em jogo é o abandono do arcabouço "regular e previsível" que rege a gestão da dívida americana desde os anos 1980.

A pressão sobre as taxas longas torna mais atraente rolar a dívida na ponta curta, estratégia que tende a ganhar espaço. A necessidade é grande: os juros da dívida americana somaram perto de US$ 1,2 trilhão nos primeiros dez meses do ano fiscal, alta de 15% na comparação anual. O encurtamento da dívida é comum em países como o Brasil, onde metade da dívida pública federal está atrelada à Selic, e o Tesouro Nacional revisou o plano de financiamento para elevar a até 53% a fatia esperada desses títulos ao fim do ano. O mecanismo é diferente, mas o resultado converge: o governo perde a capacidade de travar o custo do endividamento por períodos longos.

As diferenças entre os dois casos permanecem grandes. Os EUA se financiam na moeda de reserva internacional e operam o mercado de títulos mais líquido do mundo, condições que o Brasil não tem. Além disso, o Merrill Lynch Wealth Management aponta que nem sempre o encurtamento é sinal de emergente: o Japão seguiu esse caminho ao tomar emprestado na ponta curta a juros próximos de zero e gastar para elevar o PIB nominal.

Mesmo que os EUA sigam com o plano, os ganhos são limitados. Um corte de cupons na escala do ciclo de 2021 e 2022 valeria cerca de 20 pontos-base no rendimento de dez anos até o fim de 2028, e o cenário extremo, com o fim dos papéis de 20 e 30 anos, chegaria a 53 pontos-base, segundo cálculos do BofA. O prazo médio da dívida americana cairia de 68,8 para 66,7 meses caso os leilões sejam reduzidos. Os precedentes históricos também sugerem cautela: o Tesouro descontinuou o papel de 20 anos em 1986 e suspendeu o de 30 anos em 2001, e o juro de dez anos não caiu de forma duradoura.

Cortar papel longo não reduz a necessidade de financiamento, com vencimentos de até US$ 323 bilhões já em 2028. O risco de prazo seria trocado por um risco de refinanciamento. Para o investidor, a lição é clara: a "imitação do Brasil" não é garantia de juros mais baixos, e a dívida americana segue um termômetro para os mercados globais.

Bianca Solano
Repórter de finanças pessoais
Repórter de finanças pessoais.
Ver todos os artigos →