Vendaval turbinado no RJ e SP: a "ponta do dedo" do El Niño
Os fortes ventos que atingiram São Paulo e Rio de Janeiro são a vanguarda de um sistema de tempestades raro no inverno e sinal da influência do El Niño. Meteorologistas explicam o fenômeno da frente de rajada e alertam para o que pode vir na primavera.
Vendaval turbinado que atingiu RJ e SP é a "ponta do dedo do longo braço" do El Niño
O vendaval turbinado que atingiu RJ e SP é a "ponta do dedo do longo braço" do El Niño. Os fortes ventos que atingiram os estados de São Paulo e Rio de Janeiro eram a vanguarda de um sistema de tempestades, o mesmo que afetou no fim de semana o Rio Grande do Sul. A meteorologia chama esse tipo de fenômeno de frente de rajada, um vendaval turbinado, raro no inverno e considerado um sinal da influência do El Niño no clima da América do Sul.
O que é a frente de rajada e por que ela é rara no inverno
A frente de rajada é um fenômeno que deriva de uma linha de instabilidade, uma faixa contínua de nuvens de tormentas, alinhadas lado a lado como soldados em marcha. A frente de rajada é a dianteira dela e avança mais depressa ainda. Ela se deslocou do Sul, atravessou São Paulo e chegou ao Rio de Janeiro, com ventos poderosos. No interior de São Paulo, rajadas de 124,9 km/h superaram a velocidade mínima de furacões (119 km/h). No Rio, o vento alcançou 81 km/h. Só não causaram maiores estragos porque, diferentemente de furacões, tratam-se de rajadas, de pulsos de ventos muito fortes e não de ventania contínua.
Essas frentes de rajadas são mais difíceis de se formar no inverno porque a estação é a mais seca e não costuma ter umidade suficiente para alimentar as tempestades das quais derivam os ventos. Sinal da falta de umidade é que as tempestades já estão "murchando" no Sudeste. Porém, quando as frentes de rajada se formam no inverno, costumam ser mais violentas. Uma frente de rajada pode chegar a mais de 100 quilômetros de extensão e literalmente varre seu caminho.
Como o El Niño turbina os ventos
O El Niño se caracteriza pelo aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial. A água mais quente evapora, aquece a atmosfera e muda o padrão de ventos em boa parte do planeta. O El Niño altera os jatos, os poderosos canais de vento que viajam nos altos níveis da atmosfera. Com isso, influencia os ventos pelo continente sul-americano e a distribuição da umidade. O El Niño aumenta a diferença de temperatura entre o equador (quente) e o polo (frio), gerando ventos mais poderosos, o vento é o ar em movimento em função da diferença de temperatura.
Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o El Niño está associado à frente fria estacionária que gerou as fortes chuvas no Rio Grande do Sul. As fortes chuvas no Sul, na faixa de 300 mm em cinco dias, estão relacionadas com o El Niño. O Niño tem alterado e aumentado os ventos em parte da América do Sul. Resultado disso, por exemplo, é a frente estacionária que passou dias fazendo chover no Rio Grande do Sul.
O que esperar para a primavera
"Se já está chovendo tanto em julho, que é um mês seco, o que vai acontecer na primavera, quando o El Niño ficará mais intenso? Não sabemos, mas não parece estar começando bem", acrescenta Seluchi. Cientistas salientam, no entanto, que não há previsão de repetição do fenômeno ou de que se tornará mais frequente.
O professor de meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Wallace Menezes explica que não há previsão de chuva significativa pela passagem dessa frente e o tempo deve voltar a abrir no fim de semana.
O fenômeno acoplado: Sul, Chile e Andes
Nos últimos dias, ao mesmo tempo que chovia muito no Rio Grande do Sul, também houve nevascas violentas nos Andes e chuvas fortes no Chile. A ocorrência desses fenômenos acoplados é uma característica do El Niño.
Dificuldade de previsão e riscos
Seluchi observa que, por serem fenômenos menores que as frentes frias, as frentes de rajada são difíceis de prever com precisão porque nenhum modelo as reproduz bem. Havia previsão de vento forte, mas a intensidade e os locais mais afetados são difíceis de precisar com antecedência. As frentes de rajadas são como "detalhes" de uma situação maior, no caso, a frente fria.
Mortes ocorreram em Santa Teresa, na Rua Itapiru, próximo ao túnel da Rua Alice, em decorrência do vendaval.
Perguntas Frequentes
O que é uma frente de rajada?
É um vendaval turbinado que deriva de uma linha de instabilidade. É a dianteira dela e avança mais depressa que as tempestades e que as frentes frias, com ventos poderosos.
Por que o vendaval no RJ e SP é raro no inverno?
Porque o inverno é a estação mais seca, sem umidade suficiente para alimentar as tempestades das quais derivam as frentes de rajada. Quando se formam no inverno, costumam ser mais violentas.
Como o El Niño influencia os ventos?
O El Niño aquece o Oceano Pacífico Equatorial, altera os jatos de vento nos altos níveis da atmosfera e aumenta a diferença de temperatura entre equador e polo, gerando ventos mais poderosos.
Há previsão de mais vendavais como esse?
Cientistas salientam que não há previsão de repetição do fenômeno ou de que se tornará mais frequente, embora o El Niño deva se intensificar na primavera.
O que esperar para os próximos dias no RJ e SP?
Segundo o professor Wallace Menezes (UFRJ), não há previsão de chuva significativa e o tempo deve voltar a abrir no fim de semana.
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