Mercado Valor 🔍
Mercado Valor
Editorias
Institucional
Economia

Dragagem do Tapajós: risco de travar grãos e impacto de R$ 850 mi

A não realização da dragagem de manutenção do rio Tapajós pode comprometer o transporte de aproximadamente 5 milhões de toneladas de cargas com grãos e provocar um impacto econômico de até R$ 850 milhões, segundo estimativas da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa). Por se tratar de hidrovia federal, a dragagem depende de autorização e coordenação do governo federal. O alerta foi feito ao Money Times pelo presidente da Fiepa, Alex Carvalho.

A dragagem é a retirada de areia, sedimentos e outros materiais acumulados no fundo do rio, mantendo a profundidade para a navegação segura. No Tapajós, a operação é essencial durante a estiagem, quando o nível da água cai e bancos de areia limitam a passagem. Sem a intervenção, as barcaças precisam reduzir a carga para diminuir o calado, a parte submersa da embarcação, ou até parar nos trechos mais rasos.

"Se não fizermos a dragagem, a informação que tenho é de que, a partir de meados de setembro, já haverá uma redução significativa das cargas e, a partir de outubro, uma provável interrupção da navegabilidade", afirmou Carvalho. Segundo ele, o Tapajós não passa por uma intervenção desse tipo há cerca de 12 anos.

O problema não se limita ao escoamento de soja e milho. A hidrovia também abastece combustíveis e integra o fluxo de fertilizantes para propriedades rurais. Com a restrição, parte dessas cargas migraria para as rodovias, elevando custos logísticos e pressionando preços. Segundo a FPA, a interrupção poderia gerar custos adicionais de R$ 150 a R$ 250 por tonelada e emissão extra de aproximadamente 55 mil toneladas de carbono.

A paralisação também afetaria a arrecadação. Em 2025, com seca menos intensa, o impacto foi de R$ 45,5 milhões, sendo R$ 35 milhões ligados a combustíveis, incluindo R$ 30 milhões em ICMS estadual e R$ 7,6 milhões para quatro municípios. Para Carvalho, a perda pode comprometer o equilíbrio financeiro de localidades com orçamentos apertados, afetando o 13º salário e serviços de saúde e educação.

A alternativa de desviar cargas para rodovias é considerada inviável pela Fiepa. A BR-163, principal ligação ao Pará, já enfrenta congestionamentos, e o trecho final a Miritituba é um gargalo. "Para chegar a Miritituba já é um caos", disse. Novos terminais em Santarenzinho, a montante de Santarém, também dependem da navegabilidade do rio.

Carvalho afirma que ainda há janela para dragar, com equipamentos no Amazonas a cerca de um dia e meio de distância. "Está tudo pronto para operar. Bastaria uma autorização da Presidência da República", disse. Ele atribui a suspensão a riscos de conflitos com comunidades e ao ambiente pré-eleitoral, ressalvando ser sua interpretação pessoal. A Fiepa reconhece falta de diálogo, mas contesta alegações de dispersão de mercúrio, citando seminário da Marinha com garimpo mais próximo a 135 quilômetros do trecho.

Rubens Athayde
Economista de mercado
Economista de mercado.
Ver todos os artigos →