Economia

Tokenização em bancos: só 8% prontos para 2026, diz IBM

ResumoA tokenização em bancos brasileiros enfrenta barreira crítica de interoperabilidade, conforme levantamento da IBM. Apenas 8% dos executivos possuem iniciativas prontas para 2026, indicando baixa maturidade operacional. A pesquisa revela avanço parcial na adoção, com desafios técnicos e regulatórios limitando a expansão. A IBM destaca necessidade de padronização para viabilizar escala no setor financeiro nacional.

Levantamento da IBM mostra que a tokenização avança nos bancos, mas apenas 8% dos executivos têm iniciativas prontas para 2026. Interoperabilidade é a principal barreira no Brasil.

Rubens Athayde
Rubens Athayde Economista de mercado · 27 de agosto de 2026
Tokenização em bancos: só 8% prontos para 2026, diz IBM

A tokenização entrou no radar estratégico dos bancos brasileiros, mas a implementação ainda engatinha. Segundo levantamento da IBM, 23% dos executivos do setor consideram a tecnologia central para seus planos de negócios, enquanto apenas 8% dizem ter iniciativas prontas para lançamento em 2026. O cenário ocorre em meio ao avanço de stablecoins, moedas digitais e inteligência artificial, que prometem criar novas receitas, mas também ameaçam fontes tradicionais de ganhos do sistema financeiro.

Os dados fazem parte do estudo 2026 Global Outlook for Banking and Financial Markets, realizado pelo IBM Institute for Business Value em parceria com a Oxford Economics. A pesquisa ouviu 500 executivos dos setores bancário e de pagamentos em mais de 25 países, incluindo 26 executivos brasileiros.

A tokenização consiste na representação digital de dinheiro, ativos financeiros e ativos do mundo real, como imóveis e recebíveis, em redes baseadas em blockchain. Segundo a IBM, o movimento deve ganhar força nos próximos anos, impulsionado pela evolução das stablecoins, das moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs) e da inteligência artificial agêntica.

"O dado reflete exatamente o momento de transição em que o mercado se encontra. A urgência existe, mas a infraestrutura tradicional dos bancos não foi projetada para interagir nativamente com blockchains", disse Rodrigo Benin, diretor executivo para a indústria financeira da IBM, em entrevista ao InfoMoney.

Interoperabilidade é a principal barreira no Brasil

O estudo mostra que a principal barreira para o avanço dos ativos digitais no Brasil é a interoperabilidade. O problema foi apontado por 65% dos executivos brasileiros, percentual superior à média global de 59%. Segundo Benin, o desafio passa por três frentes: a integração dos sistemas bancários legados com tecnologias de registros distribuídos (DLTs), as exigências de privacidade e sigilo bancário em iniciativas como o Drex e a falta de padrões universais que permitam a comunicação entre diferentes redes de tokenização.

"Não acho que o gargalo seja falta de interesse do mercado, mas sim a complexidade natural de plugar uma infraestrutura on-chain em sistemas que operam há décadas de forma centralizada", diz o executivo.

Stablecoins e CBDCs: o que esperam os executivos brasileiros

Os executivos brasileiros estão mais atentos ao avanço das stablecoins do que seus pares globais. Segundo o levantamento, 58% dos entrevistados no Brasil esperam uma adoção forte ou transformacional dessas moedas digitais por grandes empresas até 2030. No mundo, esse percentual é de 42%. Para Benin, a diferença pode ser explicada pelo grau de digitalização do sistema financeiro brasileiro e pelo potencial de uso das stablecoins em operações internacionais.

"O uso de stablecoins no comércio exterior e em liquidações transfronteiriças pode tornar essas operações mais rápidas e baratas, contornando parte do modelo tradicional de câmbio e correspondência bancária", afirma.

Os executivos brasileiros também demonstram maior confiança no potencial das CBDCs. De acordo com o estudo, 38% acreditam que as moedas digitais poderão substituir os arranjos tradicionais de cartões, ante 35% na média global. Na avaliação da IBM, o Drex tende a funcionar como uma vantagem competitiva para o Brasil nesse processo. "Vejo o Drex fundamentalmente como um acelerador. O Brasil está criando um trilho público, regulado e interoperável, o que traz segurança jurídica para a liquidação de ativos tokenizados", afirma Benin.

IA e tokenização: a próxima fronteira

O levantamento indica uma forte associação entre inteligência artificial e tokenização. Entre os executivos brasileiros, 58% acreditam que a tokenização terá impacto relevante na interoperabilidade entre diferentes plataformas de IA. Outros 46% esperam efeitos significativos da IA agêntica sobre canais programáveis de liquidação financeira.

Segundo Benin, uma das aplicações mais prováveis para os próximos anos envolve agentes de IA capazes de monitorar liquidez, movimentar garantias tokenizadas e executar operações financeiras de forma autônoma. "Não é algo futurístico. São arquiteturas técnicas que já existem e que estão evoluindo para incorporar agentes de IA em processos de liquidez, garantias e pagamentos programáveis", afirma.

Riscos e oportunidades para o sistema financeiro

A principal transformação apontada pela IBM não é tecnológica, mas econômica. Embora a tokenização prometa reduzir custos, acelerar liquidações e simplificar processos, ela também ameaça algumas das principais fontes de receita do setor financeiro atual. Executivos ouvidos pela pesquisa apontam como riscos prioritários a canibalização de receitas tradicionais, a compressão de margens e tarifas, a migração de depósitos para stablecoins e a perda de relevância nos meios de pagamento.

Globalmente, 42% dos executivos consideram provável que grandes empresas emitam suas próprias moedas digitais nos próximos anos. No Brasil, 58% esperam uma adoção forte ou transformacional desses ativos por grandes corporações até 2030. Na avaliação de Benin, áreas como câmbio, pagamentos internacionais e serviços tradicionais de intermediação tendem a sofrer maior pressão.

Por outro lado, a IBM avalia que a receita não desaparece necessariamente, mas muda de lugar. O estudo aponta a custódia digital como uma das principais oportunidades da nova economia. Globalmente, 61% dos executivos planejam investir em soluções de custódia, enquanto 74% dos gestores de patrimônio enxergam essa atividade como seu principal papel no futuro da tokenização. Entre os bancos de varejo, 65% apontam a custódia como estratégia prioritária.

A lógica é semelhante à da disputa pela adquirência na década passada ou pelo Pix e Open Finance nos últimos anos: quem controlar a guarda dos ativos digitais tende a ocupar uma posição central no relacionamento com o cliente. Além da custódia, a IBM identifica potencial de crescimento em serviços de tokenização.

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