El Niño vai provocar desligamentos mais longos, diz Abradee
O diretor de Regulação da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee), Ricardo Brandão, afirmou que a população brasileira deve se preparar para desligamentos de energia mais prolongados neste ano, causados pelo fenômeno climático El Niño. A avaliação vale tanto para redes aéreas quanto para redes enterradas. A expectativa é que os efeitos do fenômeno, que aquece as águas do Oceano Pacífico e influencia o clima global, comecem a ser percebidos com mais força a partir de outubro.
"Pouco mais de 99% da nossa rede (elétrica) é aérea, e é muito sujeita a efeitos climáticos. Então temos um desafio de tornar a nossa rede mais resiliente", disse em workshop para jornalistas.
Brandão informou que os efeitos do El Niño devem ter um impacto negativo de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul até 2050. "O Rio Grande do Sul mostrou isso em 2023, com dois ciclones, mas nada comparado com 2024, com regiões ficando até 31 dias debaixo d'água", destacou. Em Porto Alegre (RS), lembrou, apesar de a rede da cidade ser subterrânea, ela sofreu com o alagamento.
Os impactos, segundo ele, serão sentidos com mais força no Sul e Sudeste, por causa de enchentes e ventos. "Isso de fato cria para a gente um grande desafio, como os recentes ventos não previstos no Paraná e Rio de Janeiro". Já no Norte e Nordeste, a seca deve afetar tanto a geração de energia quanto o transporte por barcaças, levando a estoques de combustíveis e a desligamentos causados pela fumaça das queimadas.
Em um corte dos últimos dez anos, os desastres climáticos registrados no Brasil mais do que dobraram, informou o executivo.
As distribuidoras estão se preparando para enfrentar esses impactos. Segundo Brandão, estão previstos investimentos de R$ 260 bilhões entre 2026 e 2030, sendo 40% para modernização das redes. "Temos ações de tecnologia para minimizar esse impacto, mas não temos tecnologia que resista a uma árvore de 30 metros que cai", explicou.
O diretor também comentou a questão das árvores em áreas urbanas. "Todos querem uma cidade arborizada", afirmou, mas citou um estudo da Abradee feito após missões no Japão e nos Estados Unidos, onde as árvores possuem entre 3 a 5 metros, enquanto no Brasil é comum encontrar árvores de 25 a 30 metros. "Essas árvores deveriam ser substituídas. Primeiro porque são espécies exóticas, e segundo, depois que atingem um determinado porte, é necessário substituir por árvore menor, por questão de segurança, porque quando caem provocam estragos muito grandes", explicou, observando que isso aumenta o tempo de religamento das redes.