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Selic abaixo de 10%: Bradesco vê juros de um dígito só em 2028

Às vésperas de uma nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), os economistas-chefe Fernando Honorato, do Bradesco (BBDC4), e Diogo Guillen, do Itaú Unibanco (ITUB4), avaliaram na B3 Week, nesta terça-feira (15), que há espaço para a continuidade do ciclo de cortes da Selic. O ponto de atenção, segundo eles, é o fiscal. A taxa básica segue em 14,00% ao ano.

Guillen indicou que seu cenário contempla um novo corte da taxa básica nesta quarta-feira (16). Depois da decisão, a evolução do câmbio e das demais condições econômicas vai calibrar os próximos passos do Banco Central.

O que trava a queda da Selic

A discussão sobre juros rapidamente esbarrou nas contas públicas. Para Guillen, política monetária e política fiscal mantêm relação estreita, o que torna difícil analisar a trajetória da Selic sem olhar para o comportamento dos gastos e a credibilidade das contas públicas.

Ele destacou avanços institucionais conquistados pelo Brasil nos últimos anos, mas apontou a rigidez das despesas como um dos desafios do país. Uma melhora da credibilidade fiscal, segundo a avaliação apresentada no painel, poderia contribuir para condições financeiras mais favoráveis e abrir espaço para mais investimentos.

Honorato também vinculou diretamente a situação fiscal ao nível dos juros brasileiros. Ao discutir o patamar atual da Selic, rejeitou atribuir a responsabilidade exclusivamente à atuação do Banco Central.

"Eu não estou culpando meus colegas do Banco Central", disse. Na visão dele, questões estruturais ajudam a explicar por que o país convive com juros elevados. Sem avanço fiscal, esse cenário pode persistir por mais tempo.

O economista observou que as receitas cresceram nos últimos anos, enquanto a economia já dá sinais de perda de força em meio a condições monetárias restritivas. A correção do fiscal seria uma das condições para o Brasil sustentar taxas menores no futuro.

Um dígito só em 2028, e com ressalvas

Apesar de enxergar espaço para novos cortes, Honorato não espera queda abrupta. Se o real permanecer relativamente estável e a economia continuar fraca, o Banco Central teria espaço para avançar na flexibilização monetária. Ainda assim, a Selic deve retornar ao patamar de um dígito apenas em 2028.

O cenário externo explica parte da cautela. A inflação segue elevada em diferentes economias e as decisões do Federal Reserve continuam pesando sobre as condições financeiras brasileiras. Uma política monetária americana mais restritiva que o esperado poderia fortalecer o dólar, pressionar o real e dificultar o trabalho do Banco Central.

Para Guillen, separar completamente as duas políticas é tarefa difícil. Estímulos fiscais afetam demanda e inflação e, por consequência, a atuação do Banco Central. Na direção oposta, mais credibilidade sobre a trajetória das contas públicas melhora as condições financeiras e facilita a redução dos juros.

Com as eleições se aproximando, Honorato avaliou que o debate deveria mirar o período pós-pleito e as medidas necessárias para reconstruir a credibilidade das contas públicas. O próximo governo precisará sinalizar de forma mais consistente a trajetória fiscal e como pretende criar condições para uma redução estrutural dos juros.

Para quem investe em renda fixa, o recado é direto: enquanto o fiscal não der sinal claro de arrumação, prêmios maiores devem seguir disponíveis em títulos públicos e privados tesouro direto. O juro composto não perdoa quem entra no escuro.

Lia Hartmann
Especialista em renda fixa
Especialista em renda fixa.
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