Crise em 2027: Brasil precisa de reformas, alerta UBS
Crise em 2027: Brasil precisa de reformas, alerta UBS
O Brasil caminha para uma "crise contratada" em 2027, dado o alto nível de juros, que só deixará de acontecer caso haja um esforço para uma ampla reforma fiscal. Se mantidas as condições atuais, a projeção é de que a dívida alcance o patamar de 95% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2030, o que vai comprometer a credibilidade econômica do país, resultando em mais inflação, aumento de juros, forte depreciação cambial e desaquecimento da economia. A análise é de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, em entrevista ao InfoMoney.
Para evitar a crise, seria necessário cortar o equivalente a 4% do PIB em gastos, o que dificilmente aconteceria em um ano, mas poderia ser um parâmetro do caminho a ser percorrido para a estabilização da dívida. Esse é o cenário que o UBS desenha para os próximos anos, e que pode impactar diretamente sua vida financeira.
Por que a crise fiscal de 2027 é um risco real para o Brasil
A economista Solange Srour é categórica: "As regras fiscais estão completamente desacreditadas. Mais importante do que mudar o arcabouço é trazer políticas que façam o arcabouço ser factível, ser cumprido, sem precisar de nenhum tipo de exceção". Em outras palavras, o problema não é apenas o tamanho do gasto, mas a falta de credibilidade das regras que deveriam controlá-lo.
O Brasil vive uma situação que Srour descreve como "totalmente insustentável". Ela aponta que não é possível continuar crescendo em torno de 2% e manter a inflação controlada com um juro real de 8% para todos os prazos. A dívida brasileira está muito acima da média dos emergentes, e o objetivo deveria ser "voltar a ser um país investment grade [grau de investimento]".
O que significa a dívida em 95% do PIB
Quando a dívida pública chega a 95% do PIB, o país perde credibilidade no mercado internacional. Isso se traduz em juros mais altos para o governo, mas também para você: financiamentos, cartões e empréstimos ficam mais caros. A inflação tende a subir, corroendo o poder de compra, e o câmbio se deprecia, encarecendo produtos importados e viagens.
O corte de 4% do PIB: o tamanho do desafio
Para estabilizar a relação dívida/PIB e evitar a crise, o Brasil precisaria cortar o equivalente a 4% do PIB em gastos. Srour avalia que, embora este seja um percentual politicamente inviável para ser executado em um único ano de governo, ele serve como métrica para saber qual objetivo perseguir.
Esse corte é grande. Para se ter uma ideia, representa uma parcela significativa do orçamento anual. Mas a economista ressalta que é um parâmetro, não uma meta imediata. O importante é sinalizar que a dívida vai se estabilizar.
O que acontece se o Brasil não fizer a reforma fiscal
Se não houver uma sinalização clara de que a dívida se estabilizará, o juro real, já considerado alto, não recuará. Pode até subir, caso a expectativa de ajuste seja zero. A consequência é o desaquecimento da economia e uma retração no crédito, asfixiando empresas e consumidores que já estão com alto nível de endividamento.
Na prática, isso significa menos investimento, menos empregos e mais dificuldade para pagar contas. O crédito fica escasso e caro, e o consumo encolhe. É um ciclo vicioso que afeta diretamente o bolso do cidadão.
As reformas que o UBS defende para evitar a crise
A saída para evitar o colapso passa por enfrentar o orçamento engessado, o que inclui debater pautas altamente impopulares. A agenda prioritária defendida por Srour inclui:
- Desvinculação do salário mínimo dos benefícios previdenciários e assistenciais: hoje, o aumento do mínimo puxa automaticamente as despesas com aposentadorias e benefícios.
- Revisão do Benefício de Prestação Continuada (BPC): o benefício assistencial ao idoso e à pessoa com deficiência de baixa renda precisa ser revisto para garantir eficiência.
- Corte drástico nos gastos tributários: são os subsídios e incentivos fiscais que reduzem a arrecadação.
Desindexação dos pisos de saúde e educação
Outro pilar da reforma seria a desindexação dos pisos de saúde e educação. Hoje, a União é obrigada a aplicar 15% da Receita Corrente Líquida (RCL) na saúde e 18% da receita de impostos na educação. Essa mecânica, segundo a economista, torna os gastos pró-cíclicos: as despesas sobem obrigatoriamente quando a economia vai bem, e não recuam quando enfraquece, esgotando o espaço para despesas discricionárias e ameaçando a paralisação da máquina pública.
A alternativa proposta é atrelar esses limites mínimos à inflação. O argumento do UBS é que o alto volume de dinheiro direcionado a essas áreas hoje não resulta em eficiência real ou redução de pobreza na velocidade necessária.
"Esse gasto social não está sendo efetivo. A redução da pobreza no Brasil está sendo muito mais lenta do que deveria, dado o volume que a gente tá gastando", avalia Srour.
Ela lembra ainda que a transição demográfica, com a redução do número de jovens no país, exigirá a readequação natural dos gastos em educação. "Não podemos continuar aumentando o gasto sem melhorar a qualidade da educação em um mundo com tantas transformações, como a IA [Inteligência Artificial]", diz. "Se houver a necessidade de aumentar o gasto, o governante vai precisar encontrar espaço no orçamento."
O desafio político: PEC, Congresso e emendas parlamentares
A execução desse plano depende da aprovação da reforma via Proposta de Emenda à Constituição (PEC), o que inclui barganhar com o Congresso. Para Srour, o próximo presidente eleito precisará gastar todo o capital político de seu primeiro ano de mandato (2027), que geralmente está mais alto, para aprovar a desvinculação, que é totalmente impopular. Se a tentativa for adiada para 2028, a economia já estará deteriorada e com o desemprego em alta, inviabilizando o processo.
O principal obstáculo legislativo, no entanto, são as emendas parlamentares impositivas. Ao garantir o repasse obrigatório aos parlamentares, o mecanismo retira do Executivo seu poder de barganha, deixando o Congresso no controle da fatia discricionária do orçamento. Além disso, as emendas não estão conectadas a políticas públicas eficientes e os parlamentares demonstram pouco interesse no ajuste macroeconômico, focando apenas em "formar bancadas, eleger deputados e controlar o orçamento".
Por que Brasília não reage: o otimismo ilusório do câmbio
Se o cenário é tão grave, por que Brasília não reage? A resposta está fora do Brasil. Srour explica que a atual dinâmica internacional tem favorecido a estabilidade do dólar, o que cria um "otimismo ilusório" no meio político e mascara a forte piora na relação dívida/PIB.
"É muito difícil dizer pro meio político que a situação é tão perigosa quando o câmbio tá perto de R$ 5. Eles não entendem que isso é majoritariamente resultado do cenário internacional porque, a gente, está fazendo um grande esforço para piorar o fiscal", critica, lembrando que a dívida cresceu 10 pontos ao longo dos últimos quatro anos.
O que pode mudar o jogo: o Fed e o risco de fuga de capitais
O maior risco no radar, agora, é uma pressão inflacionária contínua nos Estados Unidos, que force o Federal Reserve (Fed) a elevar os juros americanos. Se isso ocorrer, o diferencial de juros brasileiro será reduzido. A consequência imediata seria fuga de capitais e disparada do dólar, forçando o Brasil a, finalmente, encarar seu abismo fiscal e a contração econômica imposta pela própria crise, e não por escolha política.
Para o cidadão comum, isso pode significar um aperto ainda maior: dólar alto pressiona a inflação, juros sobem e o crédito fica mais caro. A janela para evitar esse cenário é estreita e depende de decisões políticas que, até agora, não saíram do papel.
Perguntas Frequentes
O que é a crise contratada de 2027?
É um cenário previsto pelo UBS em que o Brasil enfrentará uma crise econômica em 2027, devido ao alto nível de juros e à trajetória insustentável da dívida pública, caso não haja reformas fiscais.
Quanto a dívida pública pode chegar em 2030?
Se as condições atuais forem mantidas, a dívida pública pode alcançar 95% do PIB em 2030, comprometendo a credibilidade econômica do país.
O que seria necessário para evitar a crise?
Seria necessário cortar o equivalente a 4% do PIB em gastos, um valor politicamente difícil de ser executado em um único ano, mas que serve como meta para estabilizar a dívida.
Quais reformas o UBS defende?
O UBS defende a desvinculação do salário mínimo dos benefícios, a revisão do BPC, o corte de gastos tributários e a desindexação dos pisos de saúde e educação, atrelando-os à inflação.
Como a crise fiscal pode afetar o cidadão comum?
A crise pode levar a juros mais altos, inflação elevada, depreciação cambial, desaquecimento da economia e retração do crédito, dificultando o pagamento de contas e o acesso a financiamentos.
Por que o governo não age para evitar a crise?
Segundo o UBS, o câmbio estável cria um "otimismo ilusório" no meio político, que não percebe a gravidade da situação fiscal, além do obstáculo das emendas parlamentares impositivas, que reduzem o poder de barganha do Executivo.
como a alta dos juros afeta seus investimentos entenda a relação entre câmbio e inflação o que é investment grade e por que importa