Recessão à vista? PIB desacelera e risco migra ao crédito
O crescimento do PIB recuou de 3,6% para 1,9% no acumulado de quatro trimestres. A demanda doméstica perdeu tração e o risco agora se concentra no crédito, com inadimplência em alta e endividamento recorde.
O crescimento do PIB brasileiro desacelerou de forma gradual ao longo de 2025. O acumulado em quatro trimestres caiu de 3,6% no início do ano para 1,9% no segundo trimestre. Na comparação anual, a alta foi de 2,0%. O movimento era esperado diante dos esforços do Banco Central para conter a inflação ainda elevada, mas os riscos associados a esse ambiente, em especial no mercado de crédito, concentram a atenção.
O que mudou na margem
No primeiro trimestre, a alta de 1,1% teve contribuição integral da demanda doméstica, formada por consumo das famílias, governo e investimentos. No segundo, a dinâmica se alterou: a contribuição da demanda doméstica foi nula e o crescimento de 0,5% refletiu basicamente recomposição de estoques.
Setorialmente, apenas a agropecuária teve ritmo expressivo, de 2,8%. Indústria e serviços ficaram levemente acima de zero. Os estímulos do governo, como isenção de IR, redução da fila do INSS e expansão de auxílio-gás e auxílio-energia, tiveram sua maior contribuição no último trimestre, mas não bastaram para impulsionar a demanda doméstica.
Onde o crescimento se concentrou
Na indústria, a única atividade a crescer foi a extrativa, beneficiada pela melhor produção de minérios e petróleo e pelas tensões no Oriente Médio, com alta de 12,2% em 12 meses. Nos serviços, o destaque foi Informação e Comunicação, que depende pouco do consumo das famílias e acumula 7,1% em 12 meses. Os demais setores tiveram desempenho bem abaixo.
O risco está no crédito
Números de julho e agosto sugerem um terceiro trimestre ainda mais fraco, mesmo com estímulos fiscais e parafiscais elevados. A dificuldade é que a desaceleração ocorre em um quadro de superendividamento de governos, empresas e famílias. O governo enfrenta restrições fiscais e trajetória de alta da dívida. As empresas lidam com crédito mais restrito e pressões de custos da reforma tributária. A inadimplência sobe, assim como os empréstimos nas faixas de maior risco. Os consumidores, com endividamento recorde, veem a renda comprometida subir enquanto o crescimento da renda descontada a inflação perde força. Se o espaço para cortes de juros seguir limitado pelos riscos inflacionários, cresce a chance de um quadro recessivo no próximo ano.