Do rádio à TV: como os debates viraram regra do cronômetro
A transmissão de debates eleitorais ao vivo na televisão virou rotina no calendário político. Candidatos se enfrentam sob a pressão do relógio, e assessores correm nos intervalos para orientações. Essa dinâmica nos estúdios é fruto de um caminho que exigiu décadas de transformações políticas, tecnológicas e jurídicas.
Antes de a imagem e os segundos contados ditarem o ritmo dos embates, a busca pelo voto dependia das ondas do rádio, onde tudo começou, e de longos pronunciamentos individuais, sem confronto direto. Entre os anos 1930 e 1950, o rádio concentrava a atenção do eleitorado e moldava a comunicação pública. Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas utilizou transmissões oficiais, a exemplo do programa Hora do Brasil, para falar com a população em tom direto e paternal, sem a interferência de adversários.
Mesmo após a retomada das eleições em 1945, a dinâmica permaneceu focada em discursos individuais. Políticos como Luís Carlos Prestes falavam em transmissões a partir de estádios cheios, e cada liderança contava com o seu próprio espaço na grade das emissoras para expor propostas sem contraponto imediato. A população se reunia em salas e praças para ouvir oratórias longas, em que pausas e entonações pesavam mais do que respostas rápidas.
Essa liberdade de oratória no rádio foi suspensa durante a ditadura do regime militar. Em 1976, entrou em vigor a Lei Falcão, iniciativa do ministro da Justiça Armando Falcão para conter o avanço da oposição nas urnas. A regra barrou discursos, debates e exposições de ideias no rádio e na televisão. O espaço reservado às campanhas passou a exibir apenas uma foto fixa do candidato, acompanhada do número, do nome e de um breve resumo do currículo lido por um locutor, impedindo qualquer debate.
A transição para o formato de embate visual ganhou força no processo de reabertura política. Antes disso, a TV Gaúcha realizou um primeiro encontro, em 1974, colocando frente a frente Paulo Brossard e Nestor Jost. Anos depois, em 1982, o debate da TV Bandeirantes para o governo de São Paulo, com Franco Montoro, Luiz Inácio Lula da Silva, Jânio Quadros, Rogê Ferreira e Reynaldo de Barros, consolidou o potencial do debate direto diante das câmeras.
A eleição presidencial de 1989 estabeleceu o modelo definitivo das transmissões ao vivo. Nomes acostumados aos palanques e com discursos longos e prolixos, como Leonel Brizola, enfrentaram o desafio de resumir argumentos em 90 segundos. No primeiro debate presidencial da história da televisão, chamado de "1 o Encontro dos Presidenciáveis", também realizado pela Band, Brizola protagonizou momentos lembrados até hoje, como o embate com Paulo Maluf, no qual chamou o adversário de "filhote da ditadura" em resposta a fala do candidato de que ele era desequilibrado e não tinha condições de ser presidente.
Ainda em 1989, Luiz Inácio Lula da Silva e Ronaldo Caiado, que novamente são adversários em 2026, protagonizaram outro momento a ser lembrado. Ao cobrar de Lula que o escolhesse para fazer uma pergunta, Caiado ouviu do adversário: "Quando você crescer no porcentual, eu faço. Quando ele chegar a 1,5% eu faço", disse o atual presidente para risos da plateia. Naquele ano, Caiado obteve 0,72% dos votos, mas, nas eleições de 2026, quando os dois são novamente adversários, tem até 5% nas pesquisas. Com isso, Caiado conta com a mudança de opinião de Lula, que pode não participar dos debates presidenciais no primeiro turno, ou com um crescimento maior nas pesquisas para enfrentar o presidente no segundo turno e, 37 anos depois, poder ser indagado por ele.