Atrito institucional e agenda econômica em segundo plano, diz analista
O Brasil caminha para um ambiente de atrito institucional entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, independentemente de quem será o presidente da República em 2027. Com isso, reformas econômicas e marcos regulatórios para atrair investimentos externos devem ser deixados de lado, ficando em segundo ou terceiro planos no próximo mandato, segundo Mário Braga, analista de geopolítica para América Latina na RANE. A avaliação foi apresentada na sétima edição do Radar das Eleições, do Money Times Radar das Eleições Money Times.
Na visão do representante da empresa de análises de risco, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL), que caminham para a disputa de um segundo turno nas eleições 2026, terão problemas a enfrentar caso sejam eleitos. O atrito tem como foco principal a relação de ambos com as diferentes correntes do Judiciário, turbinada pela escalada da crise dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). Passa ainda pela liberação de emendas impositivas investigadas pela Corte, bem como a autorização para que senadores promovam o impeachment de ministros do STF.
Segundo Braga, em um cenário de Lula reeleito, o conflito com o Legislativo viria do seu indicado Flávio Dino, que comanda o processo de investigação sobre as emendas parlamentares. "Esse litígio entre Executivo, usando o Supremo para se opor à questão do controle do orçamento pelo Congresso, é uma fonte de atrito", afirmou. Se Flávio Bolsonaro for eleito, o atrito muda de lado e surge uma aliança "mais natural" da Presidência com o Congresso para a remoção, muito provavelmente, do ministro Alexandre de Moraes do STF.
"Qualquer que seja o cenário, será um cenário em que uma instabilidade institucional tem grande potencial de acontecer. E qual é a implicação disso? Se a gente tem um cenário de crise institucional, a agenda econômica, muito provavelmente, vai ficar em segundo ou terceiro planos", disse Braga. Reformas fiscais e estruturantes, marcos regulatórios para atrair investimentos serão preteridos pelo governo federal diante do cenário de atrito. "Nesse cenário de enfrentamento muito agudo, isso tudo deixa de ser prioridade".
No cenário externo, a rivalidade e os extremos políticos entre Lula e Flávio Bolsonaro também trarão impactos nas relações bilaterais, principalmente com Estados Unidos, União Europeia e China. Com a reeleição de Lula, as relações Brasil-EUA seguiriam "voláteis", dependentes de eventuais contatos entre o líder brasileiro e o presidente Donald Trump e de pressões internas no governo estadunidense. "As coisas se acalmam por algum momento, até que algum outro grupo dentro do governo americano é pressionado. E a gente teria, talvez tarifas, talvez sanções, talvez pressão sobre a operação de segurança e aí isso se deterioraria".
No cenário de Flávio Bolsonaro eleito, a guinada diplomática com viés ideológico seria mais forte, com alinhamento grande entre o governo brasileiro e o de Donald Trump. A relação com União Europeia, China e BRICs é favorável em um governo Lula, defensor do multilateralismo. Já com Flávio Bolsonaro, acordos passariam por maior escrutínio em relação à participação de empresas ou interesses chineses em ativos estratégicos, como minerais críticos ou portos. "Dificilmente o governo de Flávio Bolsonaro estaria disposto a rasgar contrato ou fazer expropriação, porque isso mandaria uma mensagem muito ruim para o mercado. Mas você pode ter uma pressão maior sobre interesses chineses", avaliou.
Mesmo sob atrito institucional, em algum momento o futuro presidente terá de fazer um ajuste fiscal, com diferentes níveis dependendo do eleito. Se Lula conquistar o quarto mandato, os "ajustes serão os mínimos possíveis pra garantir a possibilidade de executar o orçamento ou algo que previna a eclosão de uma crise muito forte no lado fiscal". Com Flávio Bolsonaro, haverá uma "disciplina fiscal maior e medidas de austeridade um pouco mais sérias, que ajudem a reduzir a trajetória da dívida".