Queda nas vendas no varejo restrito mostra esgotamento da demanda
Retração de 0,8% no varejo restrito em julho reforça leitura de esgotamento da demanda. Economistas apontam peso do endividamento e efeitos defasados dos juros altos sobre o consumo das famílias.
A retração de 0,8% no volume de vendas do comércio varejista restrito em julho aponta para esgotamento da demanda e sinaliza desaceleração da economia no terceiro trimestre. O dado, segundo economistas, reforça a avaliação do Comitê de Política Econômica (Copom) de uma decisão de corte de juros, esperada para a reunião desta terça (15) e quarta-feira (16).
O resultado se soma a outros sinais de perda de fôlego. O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre registrou recuo de 0,4% no consumo das famílias, e o varejo ampliado avançou apenas 0,4%, puxado por veículos e material de construção.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, destaca que a queda ocorreu em um período com fatores benignos para o comércio: recuo na inflação de alimentos, expansão de crédito na margem e crescimento da massa de rendimentos. Para ele, o recuo do consumo nesse contexto sinaliza o peso do endividamento, indicando que mesmo com preços mais baixos não houve impulso na economia.
As atividades sensíveis ao crédito caíram 0,5% na margem, deixando carrego negativo de 1,0% para o terceiro trimestre, segundo Alexandre Maluf, economista da XP. Já os setores sensíveis à renda recuaram 0,2%, com carrego de -0,1%.
"A diferença entre os dois grupos é consistente com os efeitos defasados da política monetária contracionista sobre o crédito, mesmo com a renda do trabalho continuando a amortecer a queda do consumo", afirma Maluf.
Os únicos avanços no índice restrito vieram de bens essenciais e de forma tímida, enquanto a demanda discricionária sofreu recuos consideráveis, como em móveis e eletrodomésticos (-4,9%) e vestuário (-3,2%).
"O dado de varejo reafirma os indícios de uma demanda enfraquecida na economia brasileira, com esgotamento tanto da renda quanto do crédito", diz André Valério, economista sênior do banco Inter.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, essa dinâmica confirma o enfraquecimento em categorias de consumo discricionário, sustentando uma leitura de "desaceleração gradual da economia".
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o índice evidencia o peso das compras a prazo. Móveis e eletrodomésticos recuaram 4,9% no mês, a maior queda do grupo desde dezembro de 2023, e foram a principal pressão negativa no resultado de julho. "Parte do comércio é altamente dependente de financiamento e o custo do parcelamento ajuda a explicar a queda nas vendas", explica o economista da CNC João Vitor Gonçalves.
Mesmo os dados positivos exigem cautela. O varejo ampliado subiu 0,4%, puxado por material de construção (0,7%) e veículos (0,3%), mas o avanço reflete apenas um respiro após fortes quedas em junho, sem reverter as perdas acumuladas. O Bradesco alerta para o setor de supermercados, que recuou 0,2% e mantém alternância entre resultados positivos e negativos no mesmo patamar desde fevereiro.
Pizzani afirma ainda que o resultado de julho contou com impulsos sazonais efêmeros, como o clima de inverno e a renovação de frotas, projetando desempenho prospectivo mais fraco após a dissipação desses efeitos.
Diante de uma retração considerada disseminada pela XP, com quatro dos oito segmentos do índice restrito em contração anual, as instituições projetam dados fracos para o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Tanto a XP quanto o Inter estimam retração de 0,2% para o indicador em julho.
O impacto atinge as projeções de atividade para o ano. A XP projeta carrego estatístico negativo de 0,6% do varejo restrito para o terceiro trimestre, calculando o tracking do PIB do período em -0,02%. O Bradesco vê viés de baixa para o consumo das famílias, estimando alta de 0,4% no trimestre, enquanto o ASA fixa a projeção do PIB trimestral em 0,2%.
Na visão de Pizzani, mais essa evidência de desaceleração pode influenciar a decisão de calibragem dos juros do Copom, que deve manter o aperto monetário até uma Selic terminal projetada em 13,5% para 2026. Atualmente, a taxa está em 14%. A reunião do Copom para a decisão sobre juros ocorre nesta terça (15) e quarta-feira (16).