BRICS com Irã à mesa: petróleo em alta e o que muda
A cúpula do BRICS em Nova Délhi, neste fim de semana, coloca China, Índia e Rússia frente a frente com o Irã em meio à disparada dos preços globais da energia. É um lugar à mesa que os Estados Unidos não têm, enquanto os conflitos no Oriente Médio se intensificam.
O encontro reúne o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, anfitrião do bloco, o presidente russo Vladimir Putin, o presidente chinês Xi Jinping e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, além de colegas dos outros oito membros. O BRICS foi concebido como contrapeso ao Ocidente e se expandiu para incluir Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
A capital indiana foi praticamente paralisada. Soldados em uniformes cáqui com fuzis patrulhavam ruas, barricadas de aço bloqueavam o centro e as rodovias do aeroporto exibiam cartazes com a imagem de Modi e o slogan "Juntos construímos, juntos nos erguemos".
Esse discurso de unidade contrasta com o atrito global gerado pelas tarifas da administração Trump e pela guerra EUA-Israel contra o Irã, que interrompeu corredores globais de energia. As expectativas, porém, são baixas de que o bloco, pouco coeso, preencha a lacuna de liderança ou medeie uma saída diplomática.
O que travou o consenso do BRICS
As tensões entre Irã e Emirados Árabes Unidos, parceiro de segurança dos EUA alvo de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones iranianos desde o início da guerra em fevereiro, dividiram o grupo. As divergências impediram uma declaração conjunta em maio, após reunião dos ministros das Relações Exteriores. Os Emirados enviaram o xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi, que chegou na sexta-feira.
"O mundo está se fragmentando muito rapidamente e, em teoria, é exatamente isso que os BRICS vêm dizendo o tempo todo", afirmou Alexander Gabuev, diretor do Centro Carnegie Rússia-Eurásia em Berlim. "Mas o desempenho deles está muito aquém do esperado."
Gabuev acrescentou que é difícil manter um clube tão extenso de países unidos pela animosidade à hegemonia ocidental, mas com interesses muito diferentes, por vezes opostos, por vezes em guerra entre si.
Pezeshkian pressiona, Modi cobra navegação
Putin e Pezeshkian, cujos países estão mergulhados em guerras e sob sanções ocidentais, agiram rápido na sexta-feira para pressionar por suas agendas antes do início da cúpula. Pezeshkian criticou o poder dos EUA e pediu ferramentas financeiras alternativas contra a pressão ocidental. "Quem disse que os EUA devem decidir pelo mundo inteiro, que os outros não têm direitos e que todos os outros têm que obedecer a tudo o que eles querem?", questionou. "Isso é algo que não aceitaremos."
Modi usou uma reunião com Pezeshkian na sexta-feira para cobrar a salvaguarda da "liberdade de navegação e comércio", referência aos bloqueios no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho que ameaçam as importações de combustível da Índia. A mensagem reflete o tipo de liderança global que Modi quer exibir, distante da oposição ao Ocidente de Putin e Pezeshkian e alinhada à preferência indiana pelo não alinhamento. O rival da Índia por influência no grupo é a China, que busca usar o BRICS para suplantar o poder dos EUA.
A cúpula serve a Modi para reforçar credenciais de estadista em um momento de enfraquecimento político interno e de economia indiana atrás da chinesa. Xi era esperado no sábado, mas as autoridades não informaram se ele se reuniria com Pezeshkian. O Irã é o parceiro estratégico mais próximo da China no Oriente Médio, mas Pequim mantém laços econômicos com os estados do Golfo Pérsico alvo de ataques iranianos.
Em recente reunião de segurança regional no Quirguistão, Xi e Pezeshkian se encontraram brevemente à margem do evento, não em bilateral separada, o que alimentou especulações sobre insatisfação chinesa com a guerra e o fechamento do Estreito de Ormuz. Xi também pode ter se distanciado do Irã para não provocar Trump, com quem tem encontro marcado em Washington ainda este mês.
"Uma reunião bilateral substancial em Nova Délhi teria, portanto, um significado que vai muito além do protocolo", disse Hamidreza Azizi, analista sênior do Irã no International Crisis Group. "Isso poderia ajudar a esclarecer se a China ainda vê o Irã como um parceiro estratégico no qual vale a pena investir capital político em um momento de forte pressão, ou se Pequim está cada vez mais mantendo Teerã à distância", afirmou Azizi.
A visita de Xi é a primeira à Índia em sete anos e sinaliza estabilização das relações, que atingiram ponto baixo em 2020 após confronto entre forças indianas e chinesas em região fronteiriça disputada.
África do Sul foca no econômico
O presidente sul-africano Cyril Ramaphosa compartilha da preferência de Modi por usar o BRICS para construir relações globais, mas a coalizão criou dores de cabeça diplomáticas para Pretória. Em janeiro, a África do Sul foi criticada pelo governo Trump por permitir a participação do Irã em exercícios navais do BRICS na costa sul-africana, quando o governo iraniano enfrentava acusações de reprimir violentamente protestos de rua. Ramaphosa afirmou que a China conduzia os exercícios e que as águas sul-africanas foram escolhidas pela localização conveniente.
Autoridades sul-africanas se mostraram desapontadas com a falta de consenso do bloco sobre conflitos controversos como as guerras no Irã e na Faixa de Gaza, disse David Africa, analista de relações internacionais baseado na Cidade do Cabo. "A África do Sul bateu a cabeça e percebeu que não conseguirá muito diplomaticamente nas questões que lhe preocupam", afirmou Africa. É provável que o país se concentre em temas econômicos como comércio, negócios e desenvolvimento na cúpula.