Tráfico e milícias do Rio: monopólio de alimentos e impacto na economia
Tráfico e milícias no Rio de Janeiro avançam sobre a economia formal, impondo monopólio de alimentos e materiais de construção. Estudo da Firjan aponta prejuízo de R$ 21,4 bilhões por ano. Entenda o impacto.
O tráfico e as milícias do Rio de Janeiro expandiram seu domínio para além das barricadas e do controle territorial. Agora, grupos armados comandam a distribuição de alimentos como arroz e trigo, itens de limpeza e materiais de construção, forçando comerciantes a comprar de fornecedores indicados por eles. A prática transforma mercadorias básicas em fonte de financiamento das facções, afasta empresas formais e distorce o mercado.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), esse domínio custa cerca de R$ 21,4 bilhões por ano à economia formal fluminense, um dos maiores valores absolutos do país. Samuel Rivero, especialista em Segurança Pública da Firjan, explica que o prejuízo inclui o impacto de mercados ilícitos sobre a produção, circulação e comercialização de bens. "A ilegalidade representa um custo relevante para o ambiente de negócios, ampliando a concorrência desleal, elevando riscos operacionais e pressionando gastos com logística, segurança e gestão de risco", afirma.
Como o monopólio criminoso opera no Rio
O promotor de Justiça Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), do Ministério Público do Rio, classifica o avanço como a "terceira onda" de atuação do crime organizado. A primeira foi o comércio varejista de drogas; a segunda, a exploração de serviços como TV clandestina, internet e transporte alternativo. Agora, os grupos migram para setores da economia formal.
"Eles estão passando a controlar o fornecimento de matérias-primas e produtos essenciais. Se antes extorquiam dinheiro de construtoras e comerciantes, hoje atuam de outra forma: abrem os próprios negócios ou impõem que apenas os produtos indicados pela facção sejam comercializados, pelos preços que eles determinam", explica o promotor.
Facções envolvidas: CV, TCP e milícias
Investigações mostram que a prática não é restrita a uma única organização criminosa. Facções como o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), além de grupos milicianos, operam como um cartel territorial, ampliando o controle sobre o consumo das famílias.
Impacto no dia a dia: do ovo ao pão
Em um bairro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, um supermercado deixou de vender ovos após os proprietários serem pressionados a comprar o produto de fornecedores indicados pelo tráfico. Uma funcionária, que pediu anonimato, contou que a cartela com 20 unidades era adquirida legalmente por valores entre R$ 8,99 e R$ 10,50, mas passou a ser oferecida pelos criminosos por R$ 14.
"Nós paramos de vender ovos na loja. O produto não conseguia mais se pagar. Era comprar para estragar. No caso do pão, já somos obrigados a comprar a farinha com eles, mas tivemos que repassar todos os custos para o cliente. O produto se paga, mas não dá lucro algum, e a qualidade caiu muito", relatou a funcionária. Segundo ela, o preço do pão subiu cerca de 200% na região, e os criminosos começaram a impor a compra da farinha no início deste ano.
A "taxa da farinha" e o assassinato de um comerciante
Em março do ano passado, Rafael da Silva Braga, de 43 anos, foi morto a tiros em frente a uma de suas padarias, em Paciência, na Zona Oeste do Rio. A Delegacia de Homicídios da Capital apurou que o crime teria sido motivado pela recusa do comerciante em aderir à "taxa da farinha", mecanismo que impõe o fornecedor do trigo e determina o preço de venda do pão, que passou de R$ 0,30 para R$ 0,60 a unidade. Rafael, que havia inaugurado a padaria quatro meses antes, já pagava a "taxa de segurança".
Após o crime, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) identificou pelo menos três empresas ligadas ao crime organizado que monopolizavam a distribuição de trigo na Zona Oeste. Segundo o delegado Jefferson Ferreira, o controle exercido por milicianos e pelo TCP chegou ao ponto em que a demanda superou a capacidade dos fornecedores ligados ao grupo.
"Eles pegaram um fornecedor pequeno e deram a ele o monopólio da distribuição. Só que começou a faltar matéria-prima, porque a demanda era muito grande. Quando os produtos acabavam, eles até permitiam que os comerciantes comprassem de outro fornecedor. O problema é que, quando os caminhões chegavam para fazer a entrega, eram assaltados e, as cargas, roubadas", explicou o delegado.
Consequências econômicas: produtividade e investimentos
Daniel Cerqueira, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a infiltração do crime organizado no mercado formal tem impacto direto sobre a produtividade.
"Quando o crime se apropria da distribuição de produtos e do controle de empresas, elas deixam de operar pela lógica normal do mercado, que busca aumentar os lucros por meio da eficiência e da competitividade. Em vez disso, passam a funcionar puxando a produtividade da economia para baixo", afirma Cerqueira.
Segundo a Firjan, empresas que atuam no Rio têm um gasto adicional de cerca de R$ 9,7 bilhões por ano, equivalente a 0,7% do PIB do estado, com segurança, seguro, logística e gestão de risco, além de perdas de produtividade e de atratividade para novos investimentos.
Setores atingidos: da cesta básica ao material de construção
O controle, que já atinge há mais tempo a venda de botijões de gás e água mineral, também está chegando à cesta básica, ao arroz, ao cigarro e às bebidas. Em uma denúncia anônima encaminhada ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) no fim do ano passado, um morador conta que comerciantes de uma área da Zona Oeste são obrigados a comprar exclusivamente de empresas ligadas à milícia.
Perguntas Frequentes
O que é a "taxa da farinha"?
É um mecanismo imposto por grupos criminosos que determina o fornecedor do trigo e o preço de venda do pão, forçando comerciantes a comprar de empresas indicadas pela facção.
Quanto o crime organizado custa à economia do Rio?
Segundo a Firjan, o domínio de mercados ilícitos custa cerca de R$ 21,4 bilhões por ano à economia formal fluminense.
Quais facções estão envolvidas no monopólio?
Investigações apontam o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e grupos milicianos operando como cartel territorial.
Como o monopólio criminoso afeta o consumidor?
Os preços de produtos como pão e ovos sobem, a qualidade cai e a oferta se reduz, já que comerciantes são obrigados a comprar de fornecedores indicados pelo crime.
O que é a "terceira onda" do crime organizado?
Segundo o promotor Fábio Corrêa, a primeira onda foi o tráfico de drogas; a segunda, a exploração de serviços; a terceira é o controle de setores da economia formal.
