Economia

Lula all in no fiscal: avalia Ivo Chermont, da Quantitas Asset

ResumoIvo Chermont, da Quantitas Asset, avalia que o governo Lula adotou uma postura de "all in" no fiscal, expandindo gastos sem considerar consequências macroeconômicas. O mercado não dará mais benefício da dúvida ao presidente. A Selic pode encerrar 2026 em 14%.

Ivo Chermont, da Quantitas, afirma que o governo Lula adotou uma postura de all in no fiscal, expandindo gastos sem se preocupar com as consequências macroeconômicas. A avaliação é que o mercado não dará mais o benefício da dúvida ao presidente, e a Selic pode encerrar 2026 em 14

Rubens Athayde
Rubens Athayde Economista de mercado · 23 de julho de 2026
Lula all in no fiscal: avalia Ivo Chermont, da Quantitas Asset

O mercado financeiro brasileiro acompanha com atenção a trajetória dos gastos fiscais do governo, que sinalizam continuidade da expansão em caso de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em outubro deste ano. A avaliação é de Ivo Chermont, sócio e economista-chefe da gestora Quantitas Asset, em entrevista ao InfoMoney durante a Expert XP, na quinta-feira (23), em São Paulo. Para Chermont, a inflação deve seguir alta, com juros em patamares elevados, o que representa crédito mais caro para empresas e famílias.

Ivo Chermont, da Quantitas, avalia que o governo Lula adotou uma postura de all in no fiscal, expandindo gastos sem se preocupar com as consequências macroeconômicas. O desequilíbrio das contas públicas é o principal motor por trás da manutenção da Selic em patamares restritivos, com juro real de 9,67%.

All in fiscal: o que significa a aposta do governo Lula

O atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é marcado por uma aposta forte na expansão dos gastos públicos e na ausência de disposição para ajustar as contas, segundo Chermont. Para ele, o governo adotou uma postura de ir para o "all in" do lado fiscal, expandindo gastos sem parecer se preocupar com as consequências macroeconômicas, que são os juros altos e a inflação fora da meta.

"O Lula 3 trouxe uma concepção muito clara de ele tá indo para um 'all in' do lado fiscal, ele não está na disposição de fazer corte. E quando o fiscal não é ajustado ou, pelo menos minimamente, assegurado, o risco para o monetário, que tem que fazer o trabalho [de segurar a inflação com juros altos]", afirma Chermont.

Selic em 14%: a projeção da Quantitas para o fim de 2026

Para o fim deste ano, a projeção da Quantitas é de que a taxa Selic encerre em 14%, embora Chermont pontue que o patamar de 13,75% também ganha força como um cenário provável, a depender dos próximos dados de inflação e atividade. Atualmente, o Brasil convive com uma taxa de juro real de 9,67%, sustentada por uma dívida pública que não para de subir e gastos que continuam crescendo a "uma taxa absurda", segundo Chermont, mesmo sob a vigência do novo arcabouço fiscal.

O papel do cenário externo e o risco do Fed

A complacência do mercado em relação ao desequilíbrio brasileiro tem sido, em grande parte, permitida pelo cenário externo, avalia Chermont. No entanto, ele alerta para o risco geopolítico e, principalmente, para a trajetória dos juros nos Estados Unidos. A moeda brasileira reage fundamentalmente a duas variáveis: o prêmio de risco do país e o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA.

Caso o Federal Reserve (Fed) decida voltar a elevar os juros americanos, diminuindo essa diferença, o capital estrangeiro pode deixar o país. "Se o Fed começa a apertar juros de verdade, aí o jogo muda muito", alerta. Nesse cenário de aperto externo combinado com risco fiscal interno crescente, o Banco Central brasileiro seria forçado a realizar ajustes ainda mais duros.

Mercado não dará benefício da dúvida a Lula

Projetando o cenário político e seus impactos econômicos, Chermont avalia que, desta vez, o mercado não dará novamente o "benefício da dúvida" a Lula. Ao contrário de 2022, quando havia a esperança de um presidente mais pragmático, o mercado agora exigirá a execução clara de medidas de responsabilidade fiscal para reduzir o prêmio de risco.

Caso alguma candidatura da oposição embarque em uma agenda econômica considerada liberal pelo mercado, ela poderia, em um primeiro momento, ganhar esse benefício da dúvida, o que ajudaria a derrubar a curva de juros, fortalecer a moeda e criar um ambiente financeiro mais favorável.

Juro real alto há três anos: o limite da política monetária

Para Chermont, a grande pergunta que fica é "Qual é o limite" dos juros altos no país. "Para mim, é esta a pergunta, e eu não sei responder", diz. Ele cita o período do segundo governo de Dilma, que descreve como "caos macroeconômico". "No Dilma 2, a equipe fez tudo errado, e ficou caótico, o juro real chegou a bater os níveis de hoje, mas subiu rápido e depois desceu rápido. Hoje, a gente convive com juro real alto há três anos. É insustentável. Até quando? Não tenho a menor ideia", afirma.

Estratégia da Quantitas: cautela em meio à neblina eleitoral

Diante desse nível de incerteza sobre quem ocupará o Planalto e os ministérios no futuro, fazer projeções econômicas de longo prazo tornou-se inviável, segundo Chermont. Até mesmo a projeção da taxa de juros para 2027 torna-se uma peça de ficção. "Eu não tenho a menor ideia de qual será a taxa de juro no ano que vem".

Diante desse cenário nebuloso, a estratégia da gestora nos próximos meses será a cautela. "Tem vezes que o trabalho de gestão é ficar parado, ter sangue frio e esperar a oportunidade", diz Chermont, indicando que muitos investidores preferem rentabilizar o caixa em taxas seguras a tomar riscos desnecessários antes que a neblina eleitoral se dissipe.

Perguntas Frequentes

O que significa all in no fiscal?

All in no fiscal é uma expressão usada por Ivo Chermont, da Quantitas, para descrever a postura do governo Lula de expandir gastos públicos sem se preocupar com as consequências macroeconômicas, como juros altos e inflação fora da meta.

Qual a projeção da Quantitas para a Selic em 2026?

A projeção da Quantitas é de que a taxa Selic encerre 2026 em 14%, com o patamar de 13,75% também ganhando força como cenário provável, a depender dos próximos dados de inflação e atividade.

Por que o mercado não dará benefício da dúvida a Lula?

Segundo Chermont, ao contrário de 2022, o mercado agora exigirá a execução clara de medidas de responsabilidade fiscal para reduzir o prêmio de risco, sem dar o benefício da dúvida ao presidente.

Qual o impacto do Fed na economia brasileira?

Caso o Federal Reserve volte a elevar os juros americanos, diminuindo o diferencial de juros entre Brasil e EUA, o capital estrangeiro pode deixar o país, forçando o Banco Central brasileiro a realizar ajustes ainda mais duros.

Qual a estratégia da Quantitas para o curto prazo?

A estratégia da gestora é de cautela, priorizando rentabilizar o caixa em taxas seguras e esperar a oportunidade, sem tomar riscos desnecessários antes que o cenário eleitoral se dissipe.

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