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O que lasers e DNA revelam sobre povos antigos da Amazônia?

Um estudo publicado pela revista Nature em meados deste ano estima que os aquiry, antiga civilização do sudoeste da Amazônia, onde hoje fica o Acre, podem ter alcançado três milhões de habitantes e erguido 30 mil geoglifos há cerca de 2 mil anos. A descoberta, porém, não é um caso isolado: nas últimas duas décadas, pesquisas vêm revolucionando as estimativas populacionais da região antes da chegada dos europeus.

A tecnologia por trás desses números é o LiDAR, um radar que usa pulsos de laser para mapear o relevo e "enxergar" através da copa das árvores. O estudo na Nature, liderado pelo finlandês Martti Pärssinen e com participação do brasileiro Alceu Ranzi, pioneiro no mapeamento de geoglifos, foi a empreitada que mais rendeu frutos com laser até agora. O projeto Amazônia Revelada, coordenado pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, da USP, também usa LiDAR em parceria com povos indígenas. "Essa tecnologia é para a arqueologia atual o que o carbono-14 foi há uns 60 anos", diz Neves. "Com o LiDAR, em uma manhã de trabalho de campo você faz algo que antes levava um mês."

O Amazônia Revelada já encontrou estruturas escondidas na mata, incluindo uma vila colonial portuguesa na fronteira com a Bolívia e uma parede de pedra na Serra da Muralha, em Rondônia. Os geoglifos, porém, indicam que as ocupações tinham escala e complexidade surpreendentes. "Hoje, fala-se muito em urbanismo antigo na Amazônia", afirma Neves. Estimativas tradicionais apontam que a população da região antes dos portugueses ficava entre oito milhões e dez milhões de habitantes; se os aquiry realmente atingiram três milhões, essas cifras podem ser revistas.

A noção de uma Amazônia densamente povoada não é nova. O arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, trabalhou no Alto Xingu e propôs o conceito de "cidades-jardim", com núcleos de habitação intercalados por mata e lavouras. Seu projeto, hoje dirigido por Helena Lima, do Museu Paraense Emilio Goeldi, começa a usar LiDAR. Enquanto isso, a análise de DNA antigo e de grãos microscópicos de vegetais revela que a agricultura indígena era variada: há indícios de domesticação de milho, abóboras, inhame, cacau, cupuaçu e arroz. Segundo José Iriarte, da Universidade de Exeter, a domesticação do arroz ocorreu de forma independente três vezes na História, e uma delas foi na Amazônia, há cerca de 4 mil anos. arqueologia amazônica tecnologia LiDAR

Na primeira fase do Amazônia Revelada, foram mapeados 1.600 km² de floresta; na segunda, iniciada no meio deste ano, o projeto pretende cobrir 60 mil km². A expectativa de novas descobertas é grande, mas a técnica não substitui o trabalho de campo: as escavações é que podem recontar as histórias dos povos antigos.

Caetano Vidal
Analista de criptoativos
Analista de criptoativos.
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