Juros altos por período longo penalizam empresas, diz ARX
A persistência de taxas de juros elevadas no Brasil por um período prolongado tem penalizado corporações que definiram seus planos de expansão em um cenário de custo de capital significativamente menor. A avaliação é de Pierre Jadoul, diretor-executivo e gestor responsável pela estratégia de crédito privado da ARX Investimentos.
A ARX avalia que a duração prolongada dos juros elevados, e não apenas o patamar, penaliza empresas que definiram planos de expansão com custo de capital menor. Pierre Jadoul afirma que a volatilidade da taxa causa mais dano ao setor produtivo do que um juro alto e previsível.
A análise foi feita em conversa com Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers. Para Jadoul, dizer apenas que juro alto aumenta despesa financeira é uma leitura incompleta da dinâmica do mercado.
O problema atual, segundo ele, tem raízes no ciclo iniciado no pós-pandemia, quando a taxa longa ao redor de 7% estimulou estratégias agressivas de crescimento orgânico e de fusões e aquisições em empresas de alta qualidade de crédito, as chamadas high grade. A guinada na política monetária a partir da segunda metade de 2021 escalou rapidamente a taxa básica e dobrou o custo de capital das companhias.
Duração do ciclo restritivo é a diferença
Para o gestor da ARX, a principal diferença do ciclo atual em relação a apertos anteriores está na duração do período de juros restritivos.
"A gente está indo para o quinto ou sexto ano de juros extremamente altos e, principalmente, saindo de uma base muito baixa. Então, é aqui que as empresas se machucaram", disse Jadoul.
O ambiente corporativo se dividiu. Há companhias que conseguiram promover reajustes de margem e venda de ativos secundários. Outras operam na luz amarela, gerando caixa apenas para honrar o pagamento de juros. No extremo mais vulnerável estão as empresas cuja estrutura de capital não suporta o patamar atual.
"Por isso, acho que o problema não é só o juro ser alto. Para o empresário na ponta, é mais importante a volatilidade e a trajetória dos juros do que necessariamente o patamar", disse Jadoul.
Reprecificação do crédito desde 2023
A postura dos agentes de mercado em relação ao risco de crédito mudou desde o início de 2023. Antes, havia tolerância maior com empresas que queimavam caixa no curto prazo, sob a premissa de que a alta dos juros seria um choque temporário.
Eventos imprevisíveis, como os casos da Americanas e da Light (LIGT3), alteraram a percepção de risco e aceleraram a repreficação de ativos em todo o segmento high grade. Em reestruturações de dívida ou pedidos de recuperação judicial, a exemplo de casos envolvendo a Braskem (BRKM5) e a Auren (AURE3), o impacto nos preços das cotas dos fundos foi menor, já que os títulos negociavam com fortes deságios no secundário.
O mercado atual, diz Jadoul, opera no extremo oposto e não concede tolerância a desempenhos fracos. Balanços que frustram expectativas sofrem rebaixamentos rápidos, afetando cotações como as da Hapvida (HAPV3) e da Armac (ARML3).
"O mercado dá pouco 'benefício da dúvida' quando um resultado decepciona. O mercado está sendo super estrito nesse sentido: a empresa começa a ter um balanço que não gera caixa e não consegue se desalavancar, e rapidamente ela passa de um high grade para um high yield, e às vezes até para um distressed", destacou.
Sobre a tese de que o crédito estaria exageradamente caro, o executivo argumenta que a generalização é imprecisa. O encarecimento está restrito a papéis de emissores com balanços sólidos e capacidade comprovada de geração de caixa sob qualquer patamar de taxa. O fenômeno vem após migração em massa de investidores que deixaram ações e multimercados para buscar proteção na renda fixa pós-fixada. Com a demanda concentrada em segurança, esses ativos específicos subiram de preço. Empresas com balanços mais alavancados, margens espremidas ou atuação em setores cíclicos enfrentam condições opostas.
Conforme Pierre Jadoul, a evolução das contas públicas é o fator central para o comportamento futuro do mercado. A ausência de ajustes fiscais impede a redução das pressões inflacionárias e inviabiliza a queda sustentável da taxa básica. Nesse cenário, tentar capturar prêmio de risco com títulos high grade de empresas vulneráveis é estratégia inadequada.