Inflação ajuda Copom a cortar Selic a 14%; último corte do ano?
O Copom define nesta quarta-feira (5) o novo patamar da Selic, hoje em 14,25%. Mercado aposta em corte de 0,25 ponto, levando a taxa a 14%. Será o último corte do ano?
O Comitê de Política Monetária (Copom) define nesta quarta-feira (5) o novo patamar de juros do Brasil, atualmente em 14,25%. A aposta majoritária (89,5%) no mercado de Opções da B3 aponta para uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 14%. Pelas projeções do Boletim Focus, este seria o limite de juros para este ano.
Quem defende o corte de 0,25 na Selic avalia que os juros estão restritivos há bastante tempo, e que a inflação acumulada está convergindo para o teto da meta. Quem prefere a manutenção cita as incertezas da guerra no Oriente Médio, que elevam os preços, aliada à desancoragem das expectativas e do cenário fiscal brasileiro.
O que esperar da decisão do Copom nesta quarta-feira
A última decisão de juros trouxe incertezas para o mercado. A Warren Rena classificou o comunicado anterior como uma surpresa "dovish", pois o Banco Central justificou que focar a meta apenas no final de 2027 evitaria volatilidade excessiva, gerando dúvidas sobre o rigor da autarquia. Espera-se, segundo economistas, que a decisão desta vez não crie ruídos semelhantes.
Inflação corrente ajuda, mas riscos se acumulam
No curto prazo, a inflação tem colaborado. O IPCA-15 de julho veio abaixo do esperado, e bancos como JP Morgan e Itaú destacam que os núcleos sensíveis aos juros atingiram os menores patamares em 12 meses, puxados pela descompressão global. Em junho, o IPCA variou 0,16% (IBGE, IPCA mensal, jun/2026).
Contudo, há outras variáveis no cenário. A consultoria 4intelligence alerta que o El Niño, já em intensidade expressiva, pressionará os alimentos a partir de setembro, enquanto o mercado de trabalho segue sobreaquecido, blindando a inflação de serviços.
A piora fiscal agrava o quadro. O BTG Pactual projeta que a Dívida Bruta alcançará 81,6% do PIB em 2026, e alerta para o salto expressivo das emissões de títulos pós-fixados (LFTs), que já beiram o teto de 50% do Plano Anual de Financiamento.
Fed e câmbio: o canal que pode voltar a pressionar preços
O cenário se estreita ainda mais devido à política dos Estados Unidos. Na semana passada, o Federal Reserve manteve os juros em pausa. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, alerta que um tom mais firme do Fed pode fechar o diferencial de juros com o Brasil, afugentando o capital estrangeiro. Esse movimento pressionaria o câmbio, gerando inflação via produtos importados. O choque já é precificado no mercado corporativo. "O tarifaço entra como uma incerteza a mais, porque mesmo sendo um imposto pago dentro dos Estados Unidos (...) ele pressiona o câmbio, e o câmbio costuma ser justamente o canal que faz a inflação subir aqui", explica André Matos, CEO da MA7 Capital.
Fim do ciclo de cortes ganha força
Diante da instabilidade, o fim do ciclo de cortes ganha força. José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, aponta que a desancoragem das expectativas de longo prazo "exige que este seja o último corte". Felipe Rodrigo de Oliveira, da MAG Investimentos, endossa o pessimismo, projetando que o próprio Banco Central reconhecerá a inflação de longo prazo rompendo o teto da meta.
Na trincheira oposta, Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, defende que a atual política restritiva já drena a economia o suficiente. Ele projeta cortes até a Selic bater 13,75%. "O processo tende a reduzir gradualmente as pressões salariais e, consequentemente, a inflação de serviços, principal foco de preocupação do Banco Central", argumenta Lima, sinalizando que a queda no rendimento real dos trabalhadores ditará o ritmo das próximas reuniões.
Projeções divididas: de pausa em setembro a cortes consecutivos
A Warren Rena defende em sua análise que a "decisão ideal seria a manutenção da taxa Selic em 14,25%" para evitar ruídos e resgatar a ancoragem das expectativas, alertando que "uma condução mais leniente da política monetária em relação à inflação representaria um risco significativo para a percepção dos agentes econômicos". Ainda assim, a casa admite que o corte é o caminho mais provável.
O Morgan Stanley revisou sua posição, abandonando a previsão de manutenção para endossar o corte para 14% em agosto. No entanto, o banco norte-americano projeta uma pausa na reunião de setembro, relegando a possibilidade de novos cortes apenas para janeiro de 2027. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Fórum Investimentos, tem a mesma avaliação. "Para os próximos meses, minha expectativa é de pausa no ciclo de cortes, em vista de nova alta nos preços do petróleo e das incertezas no Irã". Para Edgar Araújo, CEO da Azumi investimentos, a continuidade do ciclo de cortes vai depender da evolução da inflação corrente, das expectativas, do câmbio e do cenário fiscal.
Para Leticia Moschioni, sócia da Finscale, ainda que o Copom opte pelo corte, ele continuaria mantendo uma postura cautelosa diante dos riscos.
O JP Morgan projeta reduções consecutivas, prevendo um corte em agosto e outro em setembro, ancorado na hipótese de que a fraqueza da atividade brasileira se aprofundará nos próximos meses. O Itaú, em linha com a estimativa do JP Morgan, estima a Selic encerrando 2026 em 13,75% e espera que o Copom adote no comunicado desta semana um tom de "serenidade e cautela" diante da desancoragem, mantendo as "portas abertas" sem fornecer "forward guidance" (sinalização explícita) sobre o ritmo ou extensão do ciclo.
"O que está em jogo agora é o tamanho do espaço que o Banco Central ainda tem para cortar juros, e esse espaço ficou mais estreito", afirma André Matos, CEO da MA7 Capital.
Perguntas Frequentes
O Copom vai cortar a Selic nesta quarta-feira?
A aposta majoritária (89,5%) no mercado de Opções da B3 é por redução de 0,25 ponto percentual, levando a taxa de 14,25% para 14%. O Boletim Focus indica que esse seria o limite para este ano.
Qual é a projeção para a Selic no fim de 2026?
As projeções divergem: o Itaú estima 13,75%, enquanto a Warren Rena defende a manutenção em 14,25%. O Morgan Stanley projeta pausa em setembro e novos cortes apenas em janeiro de 2027.
Por que a inflação ajuda no corte, mas gera cautela?
O IPCA-15 de julho veio abaixo do esperado e os núcleos sensíveis aos juros estão nos menores patamares em 12 meses. Por outro lado, El Niño, guerra no Oriente Médio e desancoragem das expectativas pressionam preços e limitam o espaço para novos cortes.