Economia

Embrapa enfrenta risco de deterioração: crise afeta pesquisa agro

ResumoEmbrapa enfrenta risco de deterioração estrutural, conforme relatório da UFRJ e Unicamp. Orçamento de pesquisa encolheu 80% em uma década, laboratórios carecem de receita para manutenção e há dificuldade em atrair especialistas em inteligência artificial. A estatal, que transformou o Cerrado em potência agropecuária, sofre crise que compromete a pesquisa agropecuária brasileira.

Relatório coordenado por pesquisadores da UFRJ e Unicamp revela crise estrutural na Embrapa: orçamento de pesquisa encolheu 80% em uma década, laboratórios têm manutenção sem receita e há dificuldade em atrair especialistas em IA. A estatal, que transformou o Cerrado em potência

Bianca Solano
Bianca Solano Repórter de finanças pessoais · 20 de julho de 2026
Embrapa enfrenta risco de deterioração: crise afeta pesquisa agro

Ilha de excelência que impulsiona o agro, Embrapa enfrenta risco de deterioração

Relatório coordenado por pesquisadores da UFRJ e Unicamp revela crise estrutural na Embrapa: orçamento de pesquisa encolheu 80% em uma década, laboratórios têm manutenção sem receita e há dificuldade em atrair especialistas em IA. A estatal, que transformou o Cerrado em potência agrícola, enfrenta risco de deterioração silenciosa.

A Embrapa enfrenta risco de deterioração devido a cortes orçamentários e problemas de gestão. Segundo relatório do INCT/PPED, os recursos para pesquisa caíram de R$ 400 milhões (2010) para R$ 65 milhões (2024). Há laboratórios sem verba de manutenção, reagentes vencidos e dificuldade em atrair especialistas em IA, ameaçando o legado da estatal que transformou o agro brasileiro.

Crise estrutural atinge a maior estatal de pesquisa tropical do mundo

Um grupo de nove pesquisadores atribui à Embrapa um cenário de crise estrutural na produção científica. O relatório, chamado "Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias", foi coordenado por Ana Célia Castro (UFRJ/Cebri) e Antônio Márcio Buainai (Unicamp), e envolveu outros sete pesquisadores da Unicamp e UFRJ, além de especialistas da própria estatal. O estudo, realizado entre 2023 e 2024, foi revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo GLOBO.

Os pesquisadores colocam em xeque o futuro da empresa, apontando a "deterioração silenciosa das capacidades que sustentaram as contribuições da empresa por décadas" e avaliam que o risco é elevado.

Orçamento de pesquisa encolhe 80% em uma década

A verba destinada às pesquisas, em valores nominais, encolheu de R$ 400 milhões em 2010 para R$ 65 milhões em 2024, uma queda de 80%. O orçamento global de custeio (manutenção de laboratórios, campos experimentais e infraestrutura) caiu de R$ 633,8 milhões em 2011 para R$ 299,7 milhões em 2025.

Esse aperto orçamentário tem consequências diretas: construção de laboratórios sem previsão de receita para manutenção, causando depreciação e ociosidade dos prédios; reagentes laboratoriais para experimentos científicos vencidos devido à demora na tramitação das compras.

Carreira sem renovação e dificuldade para atrair talentos em IA

Segundo o documento, a maior parte dos pesquisadores está no topo da carreira, o que torna cara a folha de pagamentos, enquanto não há renovação dos quadros. O plano de cargos permite que muitos pesquisadores alcancem o topo salarial entre dez e 15 anos. Esse "teto precoce" gera uma estrutura rígida, sem progressão econômica, o que desincentiva a inovação.

O levantamento aponta dificuldade em atrair cientistas de dados e especialistas em IA, profissionais mais requisitados pelas empresas de ponta em tecnologia. O relatório diz que a Embrapa não tem estratégia clara para lidar com tecnologias disruptivas como IA e opera com um "mosaico" de plataformas de informática não integradas, gerando insegurança nos dados das pesquisas.

Dependência de recursos externos dita prioridades científicas

"Isso inverte a lógica institucional, fazendo com que as prioridades científicas sejam ditadas pela disponibilidade de recursos externos e não pela estratégia de Estado de longo prazo", escreveram os pesquisadores no relatório.

O legado que está em jogo

Apesar dos problemas, a importância da Embrapa é reconhecida por especialistas do agro. Foi através das pesquisas da estatal que o Brasil se tornou uma das maiores potências agrícolas do mundo. Com tecnologias de correção do solo e cultivares adaptados, a agricultura ocupou o Cerrado na década de 70, em áreas antes consideradas inférteis. Hoje, culturas como soja, milho, algodão e sorgo da região Centro-Oeste respondem por 60% de tudo que é cultivado no país.

Dos laboratórios da Embrapa saiu a técnica de fixação biológica de nitrogênio, que utiliza bactérias para substituir fertilizantes químicos, gerando bilhões de reais em economia aos produtores e reduzindo o impacto ambiental. A criação de centenas de variedades de soja e pastagens (como a braquiária) adaptadas aos diferentes microclimas aumentou a produtividade no campo em mais de 300% em três décadas.

"A Embrapa possui o maior banco de sementes da América Latina e um dos maiores do mundo", lembra Glaucia Maria Pastore, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.

Perguntas Frequentes

O que está causando a crise na Embrapa?

Segundo relatório do INCT/PPED, a crise é causada por cortes orçamentários, queda de 80% nos recursos para pesquisa entre 2010 e 2024, e problemas de gestão, como falta de renovação de quadros e dificuldade em atrair especialistas em IA.

Quanto caiu o orçamento de pesquisa da Embrapa?

A verba para pesquisa caiu de R$ 400 milhões em 2010 para R$ 65 milhões em 2024. O orçamento de custeio caiu de R$ 633,8 milhões (2011) para R$ 299,7 milhões (2025).

Quem fez o relatório sobre a Embrapa?

O relatório foi coordenado por Ana Célia Castro (UFRJ/Cebri) e Antônio Márcio Buainai (Unicamp), com outros sete pesquisadores da Unicamp e UFRJ, além de especialistas da própria Embrapa. O estudo foi feito pelo INCT/PPED entre 2023 e 2024.

Qual o impacto da crise para o agro brasileiro?

A crise ameaça a capacidade de inovação da Embrapa, que foi responsável por tecnologias que transformaram o Brasil em potência agrícola, como a correção do solo do Cerrado e a fixação biológica de nitrogênio.

A Embrapa ainda é relevante para a agricultura?

Sim. A Embrapa possui o maior banco de sementes da América Latina e suas pesquisas respondem por 60% da produção de grãos do Centro-Oeste. A produtividade no campo aumentou mais de 300% em três décadas graças às suas tecnologias.

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