Economia

Neto de Raúl Castro: de guarda-costas a homem forte em Cuba

ResumoRaúl G. Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, ascendeu de guarda-costas a interlocutor-chave nas negociações entre Cuba e Estados Unidos. Rodríguez Castro nunca ocupou cargo público formal, mas exerce influência decisiva no tabuleiro político e migratório regional. A trajetória de Rodríguez Castro reflete a concentração de poder familiar no regime cubano, impactando diretamente as relações bilaterais e os fluxos migratórios na América.

De segurança pessoal a figura central nas negociações com os EUA, o neto de Raúl Castro, Raúl G. Rodríguez Castro, nunca ocupou cargo público, mas acumulou influência. Entenda como isso afeta o tabuleiro político e migratório da região.

Rubens Athayde
Rubens Athayde Economista de mercado · 13 de agosto de 2026
Neto de Raúl Castro: de guarda-costas a homem forte em Cuba

De guarda-costas a homem forte: como o neto de Raúl Castro ganhou poder em Cuba

Uma década atrás, Raúl Castro desembarcava em Paris para uma visita oficial de Estado. Ao seu lado, um corpulento integrante da equipe de segurança chamava atenção. No tapete vermelho do Palácio do Eliseu, ele permanecia tão próximo do presidente cubano que um membro da guarda de honra francesa tentou afastá-lo. Até François Hollande, então presidente da França, fez um gesto para que recuasse. O segurança insistente não era um funcionário qualquer: era o neto de Castro, Raúl G. Rodríguez Castro, coronel do Ministério do Interior cubano.

Hoje, aquele segurança praticamente desconhecido se tornou peça importante nas negociações entre Cuba e os Estados Unidos, mesmo sem nunca ter ocupado cargo público. Seu nome chegou a ser citado como alguém que o governo Trump poderia aceitar como futuro líder da ilha. A trajetória revela como funciona a lógica de poder em Havana, cada vez mais comparada a uma empresa familiar.

Quem é Raúl Rodríguez Castro, o neto de Raúl Castro

Rodríguez Castro, de 42 anos, construiu sua influência longe dos holofotes oficiais. Coronel do Ministério do Interior, ele se reuniu com algumas das autoridades mais importantes do governo Trump. Para Tim Rieser, assessor de política externa do ex-senador Patrick Leahy, democrata de Vermont, a ascensão é sintomática: "Ele exemplifica como aquele governo funciona. É muito parecido com uma empresa familiar. Alguém que, há uma década, nos era descrito como o segurança do presidente Castro, por alguma razão e por algum meio, tornou-se algo muito maior do que isso."

A fala de Rieser, que se encontrou várias vezes com Rodríguez Castro, resume o mistério que cerca o neto do ex-presidente. Ele não ocupa cargo formal, mas transita pelos corredores do poder com naturalidade. Pessoas que conversaram com ele dizem que nunca escondeu a ambição de se tornar o próximo presidente de Cuba, embora não esteja claro se tem apoio interno suficiente para isso.

O papel de Rodríguez Castro nas negociações com os EUA

O protagonismo de Rodríguez Castro nas conversas com o governo Trump surpreendeu até funcionários cubanos, que o viam apenas como uma espécie de cuidador do avô. Ainda assim, um funcionário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba publicou nas redes sociais, no mês passado, que ele havia sido alvo de uma "campanha de difamação" na imprensa americana, com o objetivo de fazer o governo cubano parecer dividido.

A dupla função, de interlocutor e de homem de confiança da família Castro, coloca Rodríguez Castro em posição delicada. Enquanto ajuda o governo cubano a sobreviver e a administrar o impasse com os Estados Unidos, ele também enfrenta acusações graves, que vieram à tona em investigações judiciais americanas.

As acusações de envolvimento com rede de contrabando

Segundo entrevistas e documentos judiciais, Rodríguez Castro pode ter usado sua influência para proteger uma operação de contrabando em larga escala. A rede retirava pessoas de Cuba e levava produtos ilícitos para o país. Ele foi acusado de ajudar a introduzir na ilha mercadorias compradas com cartões de crédito roubados, receber itens de luxo como propina e permitir que criminosos procurados circulassem livremente por Cuba. Rodríguez Castro não foi acusado formalmente.

A organização era conhecida como Máfia Cubana de Quintana Roo, em referência ao estado do leste do México onde estava sediada. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA e integrantes do grupo que colaboraram com os promotores, a quadrilha usava barcos roubados da Flórida para retirar de Cuba pessoas que queriam chegar aos Estados Unidos. Os migrantes eram levados ao México, onde ficavam em casas usadas como esconderijos até pagar as taxas do tráfico. Aqueles que não pagavam eram torturados, segundo depoimentos em tribunal.

A investigação federal resultou na condenação de pelo menos 21 pessoas, com penas que somaram décadas de prisão. Entre os condenados estão José Miguel González Vidal, sentenciado a 25 anos, e Reynaldo Crespo Márquez, que cumpre 20 anos. Ambos se declararam culpados e apontaram Rodríguez Castro como colaborador da organização, segundo documentos judiciais e entrevistas.

O que dizem os documentos e as testemunhas

González Vidal afirmou que os homens que traficavam migrantes e mercadorias subornavam Rodríguez Castro para manter a guarda costeira e a alfândega cubanas afastadas. Em troca de permitir que mercadorias compradas no México com cartões de crédito roubados passassem pela alfândega, Rodríguez Castro teria recebido uma lancha de alta performance Fountain 38, um relógio Rolex, uma motocicleta Suzuki e roupas da Louis Vuitton. Os produtos teriam sido vendidos em lojas do governo cubano.

O relato de González Vidal foi corroborado por mensagens de texto e áudios de correio de voz extraídos pelo FBI dos celulares de integrantes da rede, segundo pessoas familiarizadas com o caso. Durante um julgamento em Miami, em setembro de 2023, um advogado de defesa questionou Crespo sobre uma reunião em que ele contou aos promotores que González Vidal e Rodríguez Castro haviam discutido o envio de um barco para ele em Cuba.

Rodríguez Castro teria organizado a passagem segura do grupo para dentro e para fora de Cuba, segundo afirmou um dos líderes da organização aos promotores americanos. O nome dele apareceu em um processo do Departamento de Justiça dos EUA de 2020 contra o grupo, segundo evidências reunidas pelos promotores.

A resposta cubana e a defesa de Rodríguez Castro

Rodríguez Castro não respondeu aos pedidos de entrevista enviados por canais diplomáticos formais e por meio de um conhecido em comum. Um alto funcionário cubano classificou as acusações como caluniosas. O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos R. Fernández de Cossío, foi além, em entrevista ao The New York Times em Havana: chamou as acusações de "calúnia" e negou qualquer ligação do governo cubano com o tráfico.

"Nós os alertamos. Reunião após reunião: 'Vocês tomaram alguma medida? O que fizeram?'", disse Fernández de Cossío, referindo-se às negociações migratórias com os EUA. "Não tenho a menor dúvida de que existem organizações no México, na América Central e em outras partes da América Latina que envolvem cubanos que vêm ganhando dinheiro e transformaram o tráfico de pessoas para os Estados Unidos em um negócio. Mas posso garantir que não há ligação com o governo cubano."

Em entrevista recente ao USA Today, Rodríguez Castro afirmou que não tinha riqueza própria. Segundo ele, "amigos ricos e admiradores" pagavam por roupas de grife, veículos estrangeiros de luxo e viagens caras ao exterior. A declaração foi considerada autopromocional por alguns críticos.

O que isso significa para o tabuleiro político e para você

A ascensão de Rodríguez Castro não é apenas uma curiosidade sobre a família Castro. Ela afeta diretamente as negociações migratórias entre Cuba e EUA, um tema que impacta milhares de cubanos que tentam chegar ao território americano. Se a influência dele for confirmada, o tráfico de pessoas na região pode ganhar novos contornos, com implicações para a segurança na Flórida e no México.

Para investidores e analistas, o caso reforça a percepção de que o poder em Cuba é centralizado e opaco, com decisões tomadas por um círculo restrito. A possibilidade de Rodríguez Castro vir a ser aceito como interlocutor pelo governo americano, mesmo sob suspeita, mostra que a realpolitik costuma falar mais alto que considerações éticas.

O Departamento de Justiça dos EUA se recusou a comentar se Rodríguez Castro é alvo da investigação em andamento. O advogado de González Vidal, Juan D. Berrios, também não quis comentar. O caso segue em aberto, e o ciclo, como sempre, pode virar.

Perguntas Frequentes

Raúl Rodríguez Castro é neto de Raúl Castro?

Sim. Raúl G. Rodríguez Castro é neto do ex-presidente cubano Raúl Castro e coronel do Ministério do Interior de Cuba.

Rodríguez Castro ocupa algum cargo público em Cuba?

Não. Ele nunca ocupou cargo público formal, mas exerce influência nas negociações entre Cuba e os Estados Unidos.

Quais são as acusações contra Rodríguez Castro?

Ele foi acusado, em entrevistas e documentos judiciais, de ajudar a rede de contrabando Máfia Cubana de Quintana Roo, recebendo propina em itens de luxo e facilitando a entrada de mercadorias ilegais em Cuba. Ele não foi acusado formalmente.

Rodríguez Castro foi condenado?

Não. Ele não foi acusado formalmente no caso. A investigação federal resultou na condenação de pelo menos 21 pessoas, incluindo González Vidal e Crespo Márquez.

O governo cubano respondeu às acusações?

Sim. O vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos R. Fernández de Cossío, classificou as acusações como "calúnia" e negou ligação do governo cubano com o tráfico de pessoas.

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