EUA e Brasil uniram forças no combate ao crime, mas crise afeta parceria
Departamento de Estado reteve vistos de dois agentes da Polícia Federal designados para Miami e Nova York. Em retaliação, o Brasil bloqueia visto de um agente americano que viria a Brasília, segundo autoridades dos dois países.
BRASÍLIA, Brasil. Uma crise diplomática está dificultando a cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil no combate conjunto ao crime organizado, segundo autoridades dos dois países. O tema foi colocado pelo governo Trump no centro de sua agenda no Hemisfério Ocidental.
O Departamento de Estado reteve vistos para dois agentes da Polícia Federal brasileira designados para postos nos Estados Unidos, onde trabalhariam com a Divisão de Investigações de Segurança Interna dos EUA e outras agências federais no combate ao crime transnacional, segundo um americano e três altos funcionários brasileiros que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a se pronunciar publicamente.
Em resposta, o Brasil também está bloqueando o visto de um agente da lei americano que deveria ser destacado para o país, de acordo com autoridades americanas e brasileiras. O governo dos EUA, alegando agenda lotada, também recusou um pedido de visita de agentes alfandegários e fiscais brasileiros que investigam lavagem de dinheiro e contrabando de armas por cartéis internacionais de drogas, segundo dois outros funcionários brasileiros.
O que mudou na cooperação entre os dois países
Brasil e Estados Unidos mantêm uma longa história de investigações conjuntas sobre crimes internacionais, como fraude e tráfico de pessoas, e de envio de agentes da lei para os respectivos países. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas. No passado, a ação conjunta ajudou as autoridades a desmantelar esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e quadrilhas de tráfico humano.
Esse tipo de cooperação estreita, segundo especialistas, está se tornando crucial para combater os cartéis de drogas da América Latina, que possuem mais recursos e maior alcance geográfico do que nunca.
"Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras", disse Edvandir Félix de Paiva, presidente da associação dos comissários da Polícia Federal do Brasil. "Por isso, precisamos trabalhar juntos."
As recentes rupturas na cooperação, que não haviam sido relatadas anteriormente, ocorrem em um contexto de relações tensas ao longo do último ano, decorrentes das tentativas do presidente Donald Trump de interferir nos assuntos internos do Brasil. Essa ruptura só se aprofundou nos últimos meses com a aparente disposição do governo Trump em ajudar Flávio Bolsonaro, o candidato de direita que desafia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, nas eleições brasileiras de outubro.
"A percepção é de que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil se tornou intrincada com a política interna", disse Robert Muggah, especialista em segurança e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, uma instituição de pesquisa com sede no Brasil. "Isso não levou a uma ruptura fundamental", acrescentou, "mas introduziu novas complexidades na relação e a impregnou com níveis de desconfiança."
Vistos retidos e medidas recíprocas
Os dois agentes da Polícia Federal brasileira que não receberam vistos deveriam assumir seus postos em Miami e Nova York no mês passado, segundo autoridades brasileiras. Eles já haviam sido selecionados e avaliados pelas autoridades americanas e brasileiras no início deste ano, como parte de uma troca de pessoal de rotina, disse uma das autoridades.
Um dos adidos da Polícia Federal substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, que foi expulso dos Estados Unidos em abril e acusado pelo governo Trump de uma "perseguição política" por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira. O chefe havia fugido para os Estados Unidos após ser condenado por conspirar para um golpe de Estado em seu país com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O patriarca Bolsonaro, aliado de Trump, cumpre pena de 27 anos por sua tentativa de se manter no poder. Em resposta à expulsão de Carvalho, o Brasil revogou as credenciais de um agente da lei americano que trabalhava em Brasília, a capital.
Em mais uma medida recíproca, o Brasil está retendo o visto para o sucessor do agente da lei americano até que seus próprios adidos policiais sejam autorizados a assumir seus cargos nos EUA, segundo dois altos funcionários brasileiros. As autoridades de ambos os países ainda estão negociando os vistos, disseram autoridades americanas e brasileiras.
Uma equipe de quase uma dúzia de agentes da Receita Federal brasileira também solicitou uma visita aos seus homólogos americanos em Washington, em junho, como parte de uma iniciativa recente para aumentar a cooperação no combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando transnacional. No entanto, as autoridades americanas negaram o pedido, alegando uma agenda lotada até novembro, disseram os dois funcionários brasileiros.
O que segue funcionando
Segundo um dos funcionários, um novo sistema de compartilhamento de informações implementado este ano permite que agentes alfandegários de cada país se alertem mutuamente sobre remessas de contêineres suspeitas, auxiliando as autoridades americanas e brasileiras na interceptação de cargas ilícitas, como armas.
Embora especialistas policiais e de inteligência afirmem que esse tipo de cooperação técnica entre o Brasil e os Estados Unidos continue, a falta de coordenação em alto nível pode frustrar planos mais ambiciosos.
Embora o Brasil não exporte quantidades significativas de drogas para os Estados Unidos, é uma importante rota de trânsito para a cocaína que segue para a Europa, África e outros lugares. Além disso, as gangues brasileiras estão cada vez mais formando alianças com gangues mexicanas e colombianas e encontrando novas maneiras de contrabandear drogas para fora da América Latina.
Especialistas afirmam que grupos criminosos organizados brasileiros utilizam o sistema bancário americano para lavar dinheiro proveniente de atividades ilícitas. Os Estados Unidos também são uma importante fonte de armas ilegais para esses grupos, contrabandeadas de estados americanos com leis permissivas em relação a armas. No mês passado, a polícia brasileira prendeu dois homens em conexão com peças de armas enviadas da Flórida.
Durante diversas reuniões e telefonemas ao longo do último ano, incluindo um tão recente quanto 21 de agosto, Lula defendeu com Trump uma cooperação mais estreita no combate ao crime organizado.
Em uma reunião na Casa Branca em maio, Lula apresentou uma proposta sobre como os dois países poderiam combater os cartéis de drogas em conjunto, visando o controle de suas armas e finanças, de acordo com um funcionário brasileiro. O governo Trump nunca respondeu à proposta.