Economia

Guerra política com EUA trava ajuste fiscal, dizem especialistas

ResumoEspecialistas apontam que a sobretaxa de 25% imposta pelos EUA ao Brasil configura uma guerra política, não comercial. A polarização eleitoral e o populismo de direita e esquerda no Brasil impedem a implementação de um ajuste fiscal necessário, travando reformas econômicas e agravando a instabilidade fiscal.

Especialistas veem sobretaxa de 25% dos EUA como guerra política, não comercial. Para eles, polarização eleitoral e populismo de direita e esquerda impedem ajuste fiscal no Brasil.

Bianca Solano
Bianca Solano Repórter de finanças pessoais · 23 de julho de 2026
Guerra política com EUA trava ajuste fiscal, dizem especialistas

Especialistas veem guerra política com EUA e não creem em grande ajuste fiscal devido a populismo de direita e de esquerda

Entrou em vigor nesta semana a sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre uma série de produtos importados do Brasil. Especialistas do mercado financeiro avaliam que a medida não representa uma guerra comercial, mas sim uma guerra política. Eles também apontam que a polarização eleitoral e o populismo de direita e de esquerda inviabilizam um ajuste fiscal significativo no país.

A análise foi feita durante o painel "Macroeconomia em transição: Os vetores que guiam os mercados em 2026", na Expert XP, evento do mercado financeiro que acontece até sábado (25) em São Paulo.

Sobretaxa de 25% dos EUA: guerra política, não comercial

Na visão do chefe de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro, Jeferson Bittencourt, a sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros tem motivação política, não comercial. Segundo ele, os EUA não querem se prejudicar no âmbito comercial, e o Brasil está relativamente protegido contra o novo tarifaço por ser um país mais fechado no comércio global.

"É preciso olhar mais à frente para tirar um pouco da instabilidade e volatilidade do petróleo. Ainda acreditamos em um arrefecimento da tensão geopolítica", afirma Bittencourt.

Petróleo: volatilidade e projeções para 2026 e 2027

Bittencourt destacou como um "desafio enorme" a tentativa de projetar as variáveis macroeconômicas diante da volatilidade gigante de curto prazo dos preços do petróleo. Ele aponta que não dá para acreditar de fato que os players envolvidos na guerra querem encerrá-la em breve, fora a recente entrada de novos países no conflito.

Na mesma linha, Luiz Parreiras, gestor de estratégia multimercado e previdência da Verde Asset, afirma que há incertezas nas projeções de petróleo, uma vez que a entrada dos houthis do Iêmen, aliados do Irã, na guerra traz novas variáveis para as estimativas da commodity. Para Parreiras, a previsão hoje para o petróleo é de US$ 85 o barril ao final de 2026 e US$ 75 para 2027, considerando a precificação de um estresse localizado.

Polarização política trava ajuste fiscal

Para Bittencourt, do ASA, a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições para a Presidência em 2026 reduz o espaço para discutir um ajuste fiscal. "Ninguém ousa falar sobre isso porque sabe que vai ser penalizado pela campanha adversária. Não vai ter discussão de campanha sobre fiscal", afirma.

"Em que cenário vamos fazer uma reforma fiscal? Quando tiver uma crise", complementa. "Tinha um ex-secretário do Tesouro que falava que o Brasil não troca o telhado quando tem sol; troca quando tem tempestade."

Bittencourt avalia que o Brasil está mais frágil diante de um contexto de juros mais elevados no mundo e caso os demais países realizem um ajuste fiscal.

Populismo de direita e esquerda como barreira

Já Parreiras, da Verde Asset, avalia que o mercado pode ficar menos pessimista quanto a um ajuste fiscal caso a direita ganhe as eleições, com a implementação de ações como a desindexação da saúde e educação. No entanto, ele pondera: "Não acho que vai ser um ajuste necessário ou profundo que destrave os juros, porque temos populismo de direita e de esquerda, são tons da mesma coisa, e não temos um governo comprometido com disciplina fiscal", diz.

O gestor da Verde Asset considera que o Brasil deverá passar por uma "ressaca" no fiscal em 2027, após a "orgia de estímulos fiscais" com a atual gestão Lula.

O que esperar do cenário macroeconômico em 2026?

Os especialistas indicam que o cenário macroeconômico para 2026 será marcado por volatilidade geopolítica, incertezas sobre o preço do petróleo e um ambiente fiscal doméstico travado pela polarização eleitoral e pelo populismo de ambos os lados. A combinação de guerra política com os EUA e falta de compromisso com disciplina fiscal cria um horizonte desafiador para investidores e formuladores de política.

Perguntas Frequentes

O que é a sobretaxa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros?

É uma tarifa adicional de 25% que entrou em vigor nesta semana sobre uma série de produtos importados do Brasil pelos Estados Unidos.

Por que especialistas chamam de guerra política e não comercial?

Porque avaliam que os EUA não querem se prejudicar no âmbito comercial e que o Brasil está relativamente protegido por ser mais fechado no comércio global.

Qual a previsão para o preço do petróleo em 2026 e 2027?

Segundo Luiz Parreiras, da Verde Asset, a previsão é de US$ 85 o barril ao final de 2026 e US$ 75 para 2027.

O que impede um ajuste fiscal no Brasil?

A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026 e o populismo de direita e de esquerda, segundo os especialistas.

O que pode mudar com a eleição de 2026 para o ajuste fiscal?

Caso a direita vença, o mercado pode ficar menos pessimista, com ações como desindexação da saúde e educação, mas o ajuste profundo ainda é improvável.

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