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Rombo de R$ 1,5 bi/mês em estatais: Tesouro cobre a conta

Empresas públicas no radar do TCU geram R$ 1,5 bilhão de rombo mensal e Tesouro paga a conta

Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre dados de 2025, divulgada no relatório "Estatísticas Fiscais" do Banco Central (BC), apontou um déficit de R$ 1,5 bilhão mensal em ao menos uma dezena de empresas públicas federais. Um rombo bilionário que precisa ser coberto pelo caixa do Tesouro Nacional. A situação levanta um alerta direto para as contas públicas e, no fim, para o bolso do contribuinte.

Qual é o tamanho do problema? O déficit mensal de R$ 1,5 bilhão nas estatais federais significa que, todos os meses, o governo precisa desembolsar esse valor para cobrir as contas dessas empresas. Isso pressiona o orçamento e pode impactar investimentos em outras áreas, como saúde e educação.

Por que os Correios são o maior gatilho de incerteza fiscal?

Na avaliação da auditoria e de especialistas em finanças públicas, o maior gatilho de incerteza fiscal está concentrado na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Os indicadores compilados pelo TCU revelam a dimensão do colapso operacional da estatal postal.

A empresa encerrou o exercício de 2025 acumulando um prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões. Entre 2018 e 2025, a participação dos Correios no disputado mercado de encomendas caiu cerca de 30%, enquanto as despesas com pessoal subiram até ultrapassar 60% dos gastos totais da operação.

Como a estatal tenta se manter?

Para conseguir manter as atividades, a companhia contratou R$ 12 bilhões em empréstimos com garantia direta da União em dezembro de 2025. Essa dívida tem custo projetado de juros e encargos que atingirá R$ 34,2 bilhões até 2040.

O contrato aprovado exige ainda que a União faça um aporte direto de no mínimo R$ 6 bilhões até 2027. Em paralelo, a estatal já negocia a captação de uma nova linha de crédito no valor de R$ 8 bilhões para o exercício de 2026.

A reestruturação interna caminha a passos lentos. Até abril de 2026, o Plano de Desligamento Voluntário (PDV) contabilizava apenas 3.748 adesões, ante uma meta estipulada de 10 mil trabalhadores. O plano de alienação de imóveis arrecadou apenas R$ 11 milhões, valor insignificante diante da previsão inicial de R$ 1,5 bilhão.

O que diz o especialista sobre o status dos Correios?

O especialista em contas públicas Murilo Viana, em entrevista para a CNN Brasil, ressalta que a empresa, enquadrada na categoria de estatal não dependente, ainda não pressiona de forma direta o resultado primário oficial do governo.

"Hoje, ele não impacta diretamente o déficit primário do governo, propriamente dito, porque o Correios é considerado uma empresa não dependente. Existe o déficit das estatais, mas ele não entra naquela métrica que acompanha o resultado primário do governo", pontua Viana.

O analista alerta, no entanto, que os números da companhia tornam insustentável esse status regulatório. "Tem cara, cheiro e tudo de uma estatal que não dá conta de se sustentar por si só. Se passar de não dependente para dependente, vira um problema gravíssimo, porque terá que entrar no orçamento normal do governo, com todas as restrições e dificuldades de execução", adverte.

Eletronuclear e o complexo nuclear: o segundo gargalo

Após os Correios, o segundo gargalo financeiro de maior gravidade atinge o complexo nuclear brasileiro. A Eletronuclear fechou 2025 com prejuízo de R$ 142,1 milhões, pressionada pelos custos de operação das usinas Angra 1 e Angra 2 e pelas dívidas das obras de Angra 3.

O TCU aponta que o custo operacional da geradora supera o teto coberto pela tarifa regulada da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O colapso financeiro espalha-se para a holding Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar) e para a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que tem 99% de suas receitas vinculadas à venda de insumos para a Eletronuclear.

"O conjunto do aparato de energia nuclear é um sistema articulado. A situação da Eletronuclear afeta todas as outras empresas", analisa Murilo Viana à CNN.

Mapeamento de riscos: portos, moeda, crédito e aviação

O raio-x do TCU identifica vulnerabilidades em outras oito companhias estatais. Cada uma com seu calcanhar de aquiles específico:

  • PortosRio: apresenta patrimônio líquido negativo e frágil geração operacional. Em 2024, demandou R$ 1,14 bilhão em aportes do Tesouro, além de acumular R$ 435 milhões em provisões trabalhistas.
  • Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern): acumulou saldos negativos operacionais entre 2021 e 2024, dependendo de aportes extraordinários da União em 2025.
  • Docas do Ceará, Pará e Bahia: registram compressão por custos elevados e baixa capacidade de investimento.
  • Casa da Moeda: operou com déficits em 2022, 2024 e 2025, recorrendo ao rendimento financeiro de reservas antigas para fechar o balanço, prática classificada como insustentável pelo TCU.
  • Empresa Gestora de Ativos (Emgea): apresenta boa estrutura patrimonial, mas perderá em dezembro de 2026 sua receita primária com o encerramento da gestão dos créditos do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS).
  • Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero): apresenta baixo risco no curto prazo devido ao caixa de R$ 2 bilhões, mas projeta frustração de receita de R$ 983 milhões até 2030 devido às limitações impostas ao Aeroporto Santos Dumont.

O que isso significa para o contribuinte?

Quando uma estatal não se sustenta, o Tesouro Nacional entra com o dinheiro. Isso significa menos recursos para outras prioridades ou mais dívida pública. Acompanhar a saúde financeira dessas empresas é, na prática, acompanhar o destino do seu dinheiro.

Perguntas Frequentes

O que é uma empresa estatal não dependente?

É uma empresa pública que não depende de recursos do Tesouro para custeio, mas que pode ter déficits que não entram no resultado primário oficial do governo.

Qual o prejuízo dos Correios em 2025?

Os Correios encerraram 2025 com prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões.

Quais empresas nucleares estão em dificuldade?

Eletronuclear, ENBPar e INB formam um sistema articulado, e a situação da primeira afeta as demais.

O que o TCU aponta sobre a Casa da Moeda?

A Casa da Moeda operou com déficits em 2022, 2024 e 2025, usando rendimento de reservas antigas, prática considerada insustentável.

Até quando a Emgea terá sua receita primária?

A Emgea perderá em dezembro de 2026 sua receita com o fim da gestão dos créditos do FCVS.

Como o déficit das estatais afeta seus investimentos Entenda o resultado primário do governo O que é o Tesouro Nacional e como ele financia as contas públicas

Bianca Solano
Repórter de finanças pessoais
Repórter de finanças pessoais.
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