Cúpula de Xi, Putin e Irã testa força de bloco anti-EUA
A cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) reúne Xi, Putin e Pezeshkian pela primeira vez desde a guerra contra o Irã, testando a força do bloco criado para rivalizar com os EUA.
A campanha econômica cada vez mais agressiva do presidente Donald Trump contra o Irã está testando os limites do grupo de segurança que Xi Jinping e Vladimir Putin passaram anos expandindo como contraponto à influência dos Estados Unidos.
Os presidentes da China e da Rússia se reunirão com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pela primeira vez desde o início da guerra travada por EUA e Israel contra a República Islâmica, durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), que começa nesta segunda-feira no Quirguistão. O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, também participará, ao lado de líderes de países da Ásia Central, além de Paquistão e Belarus.
"A mensagem fica mais clara e mais forte a cada ano: está surgindo um novo bloco de segurança", afirmou Henry Wang Huiyao, fundador do centro de pesquisas Center for China and Globalization, em Pequim. Segundo ele, o mundo unipolar dominado pelos EUA "acabou".
No entanto, com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ameaçando um "Dia D econômico" com medidas para punir o Irã e seus apoiadores, o confronto entre Teerã e Trump pode expor a incapacidade da SCO de agir de forma coordenada ao completar 25 anos de existência.
Embora o bloco tenha se expandido significativamente nos últimos anos, rivalidades entre os países-membros impediram que essa ambição geopolítica se transformasse em mecanismos concretos de atuação global. Isso deve levar os líderes reunidos em Bishkek a oferecer apenas apoio simbólico ao Irã. Nem Xi nem Putin demonstraram disposição para apoiar militarmente Teerã, enquanto o suporte econômico tem sido limitado.
"Podemos esperar condenações retóricas dos EUA, em linha com a propaganda chinesa habitual", afirmou Jeremy Chan, analista sênior para China e Nordeste Asiático da Eurasia Group. "Mas Pequim também pode hesitar em destacar o quanto a SCO se mostrou ineficaz na proteção da segurança de um de seus países-membros."
Fundada em 2001 por China, Rússia e os países da Ásia Central Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, a SCO passou a incluir Índia, Paquistão, Irã e Belarus como membros plenos. Afeganistão e Mongólia possuem status de observadores, enquanto outros 15 países, entre eles Arábia Saudita, Turquia, Egito e Emirados Árabes Unidos, participam como parceiros de diálogo. Segundo dados do Banco Mundial, os integrantes da organização representam mais de 40% da população mundial e cerca de um quarto do PIB global.
Para Xi, a cúpula marca o início de uma agenda diplomática intensa. Após a visita ao Quirguistão, ele seguirá para o Egito e deverá participar da reunião dos Brics, em meados de setembro, em Nova Délhi, antes de viajar a Washington para uma cúpula planejada com Trump.
Xi e Putin devem realizar conversas paralelas à cúpula. Os dois líderes já se encontraram cerca de dez vezes desde que a Rússia iniciou a guerra na Ucrânia, há quatro anos e meio. Já Modi também se reunirá com Putin durante o encontro.
"Os líderes da SCO tentarão fazer desta cúpula algo grandioso para que Donald Trump entenda que existe poder do outro lado da ordem global", afirmou Temur Umarov, pesquisador do Carnegie Russia Eurasia Center. Ainda assim, segundo ele, o Ocidente atribui à SCO capacidades que "na verdade não existem".