Economia

Uber autônomo no Brasil: por que a conta não fecha

ResumoA Uber não deve lançar carros autônomos no Brasil em curto prazo. O baixo custo da mão de obra humana no país torna a operação autônoma economicamente inviável, pois a substituição de motoristas não gera economia suficiente para cobrir o alto investimento em tecnologia e infraestrutura. A conta atual favorece o modelo tradicional com motoristas.

A Uber não deve trazer carros autônomos ao Brasil tão cedo. O motivo? O baixo custo da mão de obra humana no país, que torna o autônomo inviável economicamente. Entenda a conta.

Rubens Athayde
Rubens Athayde Economista de mercado · 27 de agosto de 2026
Uber autônomo no Brasil: por que a conta não fecha

A Uber não deve trazer carros autônomos ao Brasil tão cedo. O motivo é econômico: o baixo custo da mão de obra humana encontrado pela plataforma no país torna a tecnologia autônoma inviável financeiramente. Em março de 2026, a Uber anunciou parceria com a desenvolvedora de veículos elétricos Rivian para colocar em operação 50 mil veículos autônomos até 2030, com investimento de US$ 1,25 bilhão. Mas, no primeiro momento, 10 mil desses carros começam a operar em São Francisco e Miami em 2028, e até 2031 o número total será distribuído em 25 cidades nos Estados Unidos, Canadá e Europa, sem o Brasil.

Quem explica essa ausência é o próprio presidente e COO da Uber, Andrew Macdonald. Em entrevista ao podcast 20VC na última semana, o executivo disse que, no Brasil, a tarifa média de uma corrida da Uber ronda entre US$ 3,5 e US$ 4. Na Índia, outro dos três principais mercados em volume, os preços médios vão de US$ 2,5 a US$ 3. "Levará décadas até que o custo do autônomo comprima ao ponto de competir com esse custo de trabalho humano", afirmou Macdonald.

Em 2024, a Uber estimava que corridas realizadas por humanos nos Estados Unidos geravam um custo de cerca de US$ 2 por milha (1,6 km) à plataforma. Apenas os valores relacionados a hardware, operação e gerenciamento de frota de carros autônomos extrapolariam esse patamar, sem contar gastos com marketing, incentivos, pagamentos e jurídico. Atualmente, apenas cerca de 0,1% das corridas da Uber nos 75 países em que atua são feitas por veículos autônomos, percentual que não deve crescer agressivamente no curto prazo.

Mesmo que o volume de corridas autônomas suba, a representação percentual tende a continuar baixa, porque o número total de corridas, majoritariamente conduzidas por humanos, segue crescendo. De acordo com dados de 2025, a divisão de mobilidade da Uber gera um volume cerca de 50 vezes maior que o total do segmento de veículos autônomos.

A empresa, porém, é otimista. Em Austin e Atlanta, praças que receberam os primeiros testes, a média de viagens por veículo ao dia é 30% superior em comparação a outros mercados. A Uber defende que a chegada de modalidades sem condutores aumenta a demanda por corridas em todas as categorias. Apenas nos EUA, a companhia projeta mercado endereçável de US$ 1 trilhão, desde que os preços fiquem abaixo de US$ 1 por milha.

A plataforma tem destinado bilhões de dólares ao ano para compra de participações, compromissos de frota, infraestrutura e coleta de dados. "É o maior investimento individual que fazemos", disse Macdonald. Isso para tentar alcançar concorrentes como a Waymo. Há mais de uma década, a Uber iniciou o projeto secreto ATG, vendido durante a pandemia, quando a companhia perdeu 84% da receita bruta em três semanas. Agora, a Uber retoma o passo: até o final de 2026, espera intermediar corridas autônomas em até 15 cidades. Na última semana, iniciou corridas sem motoristas em Zagreb, na Croácia, com a Verne e a Pony AI. O Brasil deve continuar de fora da lista.

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