Calor e guerra impõem à Europa uma das piores quebras de safra em décadas
A Europa enfrenta uma das maiores quedas na produção de grãos em décadas, com safras de trigo, milho e girassol severamente impactadas por ondas de calor e pela guerra no Oriente Médio. A produção total da UE pode encolher mais de 9% em 2024, a maior retração anual em mais de 20
Calor e guerra impõem à Europa uma das piores quebras de safra em décadas
A Europa caminha para sofrer uma das quedas mais acentuadas de sua produção de grãos já registradas. Temperaturas escaldantes atingiram os rendimentos do trigo e devem reduzir a safra de milho da região ao menor nível em 19 anos. Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio elevou os custos de combustível e fertilizantes, reduzindo o plantio em todo o continente. A produção total de grãos da União Europeia pode encolher mais de 9% neste ano, segundo o grupo setorial Coceral, a maior queda anual em mais de duas décadas.
O que está causando a quebra de safra na Europa?
Dois fatores principais se combinam para pressionar os agricultores europeus. O primeiro é climático: ondas de calor consecutivas desde maio prejudicaram o desenvolvimento das lavouras. Só a onda de calor de junho deve custar aos agricultores europeus de grãos cerca de € 2 bilhões (US$ 2,3 bilhões) em perda de receita, segundo o think tank britânico Energy and Climate Intelligence Unit.
O segundo fator é geopolítico. O conflito no Oriente Médio elevou os custos de combustível e fertilizantes, reduzindo o plantio em todo o continente. A retomada das hostilidades no Golfo Pérsico pode manter os custos de insumos agrícolas elevados por mais tempo, enquanto o desenvolvimento de um fenômeno El Niño ameaça intensificar o estresse das lavouras até 2027.
Impacto nos números: produção e exportações
A estimativa da Coceral para a produção de grãos nos 27 países da UE e no Reino Unido foi reduzida para 286,6 milhões de toneladas, 9 milhões de toneladas a menos que a projeção anterior. Os dados foram divulgados em 10 de julho.
As exportações de trigo da União Europeia tiveram um começo lento desde o início da temporada, em julho. Os embarques caíram 46% nos primeiros 19 dias do mês, segundo dados oficiais. O trigo negociado em Paris subiu cerca de 20% neste mês, enquanto o milho avançou 10%.
Como cada país produtor está sendo afetado?
França: o epicentro do calor
O principal produtor agrícola da Europa esteve no epicentro de três ondas de calor desde o fim de maio. A produção de milho deve cair para o menor nível desde 1990, depois que o calor prejudicou a floração em um estágio crucial, segundo a consultoria Expana. O Ministério da Agricultura da França estima perdas no milho de até um terço da safra. O índice de saúde da vegetação derivado de satélite permaneceu no menor nível já registrado para esta época do ano em dados que remontam a 1987, informou o USDA.
Por outro lado, a qualidade do trigo francês parece muito boa, embora a safra deva ser cerca de 8% menor do que a do ano passado, disse a Argus. O teor mais elevado de proteína deve aumentar o apelo do produto para países importadores.
Alemanha e Polônia: trigo prejudicado
Na Alemanha, segundo maior produtor do bloco, temperaturas escaldantes amadureceram o grão cedo demais, resultando em grãos menores e menor rendimento. A produção de trigo de inverno deve cair 12% neste ano, informou o grupo agrícola DRV.
Na Polônia, terceiro maior produtor de grãos da Europa, os rendimentos do trigo devem cair até um quinto em relação aos níveis recordes do ano passado, embora ainda devam ficar em linha com a média de longo prazo, segundo a Infograin. As colheitas no sul do país apontam para altos níveis de proteína.
Romênia e Bulgária: exceções no leste
A Romênia, quarto maior produtor de grãos da Europa, está a caminho de ter o "melhor ano da história" para trigo, cevada e colza, depois que as chuvas dos últimos três meses ajudaram a manter os solos úmidos, disse Cezar Gheorghe, da consultoria Agricolumn. A safra de trigo da Bulgária pode ser recorde, segundo a corretora Agricore.
Ainda assim, a qualidade do trigo não é tão boa, com grande parte do grão apresentando menor teor de proteína. Os níveis de proteína do trigo são vistos, em geral, mais baixos porque muitos agricultores reduziram o uso de fertilizantes nitrogenados, segundo o Fórum de Agricultores e Processadores Profissionais.
O que isso significa para o mercado global?
Os problemas dos agricultores europeus devem repercutir nos mercados globais de grãos, justamente no momento em que a oferta se aperta nos Estados Unidos e na Austrália, enquanto a escalada das tensões no Mar Negro pressiona as exportações da Rússia e da Ucrânia.
"Haverá pressão sobre a balança comercial", disse Charles Hart, analista sênior de commodities do Rabobank. "Haverá mais importações e menos exportações."
Isso abre oportunidades para exportadores como o Brasil, que caminha para uma safra recorde de milho. A Ucrânia também é uma importante fornecedora de milho para a Europa, embora os ataques russos à sua infraestrutura estejam ameaçando as exportações. O Departamento de Agricultura dos EUA prevê o maior volume de importações da UE em quatro anos.
O depoimento de quem vive a crise no campo
"Tudo isso vai se somando", disse José Serrano, agricultor de grãos de 72 anos de Almería, no sul da Espanha. "Este ano foi particularmente duro para o setor agrícola. As pessoas e os políticos esquecem que é preciso trigo para fazer pão, e é preciso pecuária para produzir leite."
Perguntas Frequentes
Qual é a estimativa de queda na produção de grãos da Europa em 2024?
A produção total de grãos da União Europeia pode encolher mais de 9% neste ano, segundo o grupo setorial Coceral. Seria a maior queda anual em mais de duas décadas.
Quais culturas foram mais afetadas pelo calor?
O trigo e o milho foram as culturas mais impactadas. A safra de milho deve cair ao menor nível em 19 anos, enquanto a produção de trigo na França, Alemanha e Polônia sofreu reduções significativas.
Como a guerra no Oriente Médio afeta a agricultura europeia?
O conflito elevou os custos de combustível e fertilizantes, reduzindo o plantio em todo o continente. A retomada das hostilidades no Golfo Pérsico pode manter os custos de insumos agrícolas elevados por mais tempo.
O Brasil pode se beneficiar dessa quebra de safra?
Sim. O Brasil caminha para uma safra recorde de milho e pode aumentar as exportações para a Europa, que precisará importar mais grãos para alimentar seu setor pecuário.
Quais países europeus tiveram as piores perdas?
França, Alemanha e Polônia estão entre os mais afetados. A França sofreu três ondas de calor desde maio, com perdas de até um terço na safra de milho. Na Alemanha, o trigo de inverno caiu 12%. Na Polônia, os rendimentos do trigo caíram até um quinto.
Há alguma região que escapou da crise?
Sim. A Romênia e a Bulgária, nas margens do Mar Negro, tiveram boas safras graças às chuvas dos últimos três meses. A Romênia pode ter o "melhor ano da história" para trigo, cevada e colza.