Brasil corre risco de ficar para trás na IA, alerta ex-Microsoft
O Brasil corre risco de ampliar a distância tecnológica para potências se não acelerar investimentos em energia e infraestrutura para IA, alerta ex-Microsoft. Entenda o cenário.
O Brasil corre o risco de ampliar a distância tecnológica em relação às grandes potências se não acelerar investimentos em energia e infraestrutura para inteligência artificial (IA). O alerta é de Mat Velloso, ex-executivo da Microsoft, Google DeepMind e Meta, durante o Macro Day 2026, evento do BTG Pactual realizado nesta segunda-feira (31).
A comparação com a China expõe um abismo. O país asiático adiciona cerca de 540 gigawatts (GW) de capacidade elétrica por ano, enquanto toda a capacidade instalada do Brasil é de aproximadamente 260 GW. Por aqui, o acréscimo anual fica em torno de 9 GW. Velloso classificou a diferença como um "massacre".
A energia é estratégica porque data centers que treinam e operam sistemas de IA consomem grandes volumes de eletricidade. Segundo o executivo, entre 30% e 35% dos chips disponíveis no mundo no próximo ano não terão infraestrutura suficiente para entrar em operação. O problema envolve energia, refrigeração, cabeamento e demais estruturas.
Para Velloso, isso representa uma oportunidade para o Brasil, que possui fontes renováveis. O desafio é transformar essa vantagem em infraestrutura disponível. Ele relatou que operadores de data centers já consideram instalar unidades no Paraguai, próximo a Foz do Iguaçu, por causa dos custos. "Estamos nos afastando desse progresso em vez de nos aproximar", afirmou.
O alerta vai além da tecnologia. Velloso citou o AlphaFold, sistema do Google DeepMind que prevê a estrutura tridimensional de proteínas. Enquanto um pesquisador com PhD poderia levar até quatro anos para prever uma estrutura, a IA chegou a aproximadamente 200 milhões de estruturas previstas em um ano. "Se países como o Brasil não participarem dela, o gap científico vai ser tão grande quanto na época da colonização", disse.
A corrida pela IA está concentrada entre Estados Unidos e China, com o mundo entrando em uma nova Guerra Fria tecnológica. Velloso afirma que a percepção de que os modelos chineses estão anos atrás dos americanos não corresponde mais à realidade. "Tem casos em que os modelos da China batem os modelos americanos. Você não faz isso destilando, copiando. Você faz isso inovando", afirmou.
No mercado de trabalho, ferramentas de IA já produzem códigos e textos, mas exigem supervisão humana. O próximo estágio será quando a IA também fizer essa revisão. Para o executivo, tentar preservar empregos por meio de proibições não seria sustentável.
Apesar do alerta, Velloso vê espaço para o Brasil usar a IA em problemas como segurança pública e fiscalização tributária. Ele levou a preocupação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a integrantes do governo, defendendo foco em energia, infraestrutura computacional e data centers. "Eu não quero ver a gente perder essa chance porque acho que não vai ter outra", concluiu.