JD Vance busca avaliações sem filtros sobre guerra com Irã
Nos bastidores, JD Vance telefonou diretamente a comandantes americanos para ouvir avaliações sem filtros sobre a guerra com o Irã. As conversas revelaram preocupação com estoques de interceptadores Patriot e mísseis estratégicos em níveis baixos.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, adotou uma medida incomum durante a primavera e o verão no Hemisfério Norte: ligou diretamente para comandantes militares americanos no Oriente Médio, Europa e Ásia para obter avaliações sem filtros sobre a guerra com o Irã, segundo autoridades atuais e ex-integrantes do governo. Vance, que se opôs ao conflito desde o início e recebeu do presidente Donald Trump a missão de ajudar a encerrá-lo, queria ouvir a avaliação individual de cada comandante antes que essas análises fossem consolidadas em uma posição oficial do Pentágono.
As conversas abordaram objetivos da guerra, táticas, estimativas de baixas, possíveis ações do Irã no Estreito de Ormuz, a capacidade de adaptação das forças iranianas e quanto desgaste o governo de Teerã suportaria. Vance também pediu um levantamento dos estoques militares e de como o envio de armas ao Oriente Médio poderia comprometer a capacidade dos EUA de dissuadir China, Rússia e Coreia do Norte. Segundo os comandantes, os níveis de armamentos estratégicos eram os mais baixos já registrados.
O que mudou na leitura de Washington
O relato, baseado em entrevistas com mais de meia dúzia de autoridades atuais e ex-integrantes do governo que receberam anonimato, mostra que Vance saiu de algumas reuniões preocupado com a estratégia geral da guerra e com as chances de sucesso da campanha. As avaliações deixaram claro o sofrimento que o governo iraniano estava disposto a suportar para sobreviver, além da limitada capacidade americana de se defender de ataques retaliatórios do Irã ou responder a ameaças em outras partes do mundo.
O vice-presidente levou essas preocupações a conversas privadas com Trump. Ao mesmo tempo, o presidente ouvia cada vez mais, em reuniões de inteligência, os alertas do general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, sobre a pressão sobre os estoques militares e a resiliência das forças iranianas, algo que inicialmente teve dificuldade em acreditar. Havia, porém, diferença entre as avaliações privadas e o discurso público da Casa Branca: Trump continuou afirmando que os EUA venceram a guerra, enquanto Vance chegou a minimizar a ideia de envolvimento efetivo em um conflito.
Sigilo, negociações e o prazo que expirou
As ligações de Vance foram feitas com o conhecimento de Trump; do secretário de Defesa, Pete Hegseth; do general Caine; do secretário de Estado Marco Rubio, que acumula a função de conselheiro de Segurança Nacional; e da chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles. Antes do início da guerra, em 28 de fevereiro, Hegseth e Caine haviam restringido o planejamento militar a um grupo pequeno de oficiais do Pentágono e do Comando Central dos EUA. Muitos comandantes só descobriram os preparativos cerca de uma semana antes do início dos bombardeios.
Vance também se tornou o principal rosto dos esforços diplomáticos, liderando negociações que resultaram em um memorando de entendimento em junho. O prazo de 60 dias expirou em agosto sem acordo definitivo, e os dois lados pareciam mais distantes do entendimento do que quando as negociações começaram. Enquanto isso, os combates ultrapassaram com folga as cerca de seis semanas originalmente previstas pelos planejadores do Pentágono.
Em abril, Trump percebeu que o conflito não seguia o rumo esperado e autorizou sua equipe, incluindo Vance, o genro Jared Kushner e o enviado especial Steve Witkoff, a buscar uma fórmula para negociar o fim da guerra com o Irã.