Agro lidera recuperações judiciais no 1º semestre; veja
O agronegócio liderou as recuperações judiciais no primeiro semestre, com 1.263 CNPJs em dificuldades. A crise não é de safra, mas financeira. Veja o impacto.
O agro quebra mais que qualquer outro setor, e não é por causa da safra
O agronegócio brasileiro vive uma crise que não vem do campo, mas do bolso. O setor liderou as recuperações judiciais no primeiro semestre, com 1.263 CNPJs em dificuldades, segundo o Monitor RGF-Bizdoc. A safra segue robusta, mas a combinação de juros altos, crédito restrito e oscilações de preços derrubou a capacidade de pagamento de muitos produtores.
Por que o agro quebra mais que outros setores
A resposta está no capital de giro. O agro é intensivo em capital de giro, e com juros elevados, o custo financeiro pesa mais. A crise não é de produção, mas financeira. O relatório da consultoria ressalta que a safra segue boa, mas a capacidade de honrar compromissos caiu, mesmo com boas colheitas.
Segundo o Monitor RGF-Bizdoc, o agro registrou 111 novas entradas em recuperação judicial só no segundo trimestre, 9,6% a mais que o anterior. Nos primeiros seis meses, o crescimento foi de 21,4%, somando 66% de alta em 12 meses. É o pior desempenho relativo e absoluto do período.
Números que mostram a dimensão da crise
O país encerrou o primeiro semestre com 6.341 empresas em recuperação judicial no recorte restrito da pesquisa, que considera as empresas de maior relevância econômica. O estoque é o maior da série histórica, com crescimento de 6,2% em relação ao fim de 2025 e alta de 21,2% em 12 meses.
Junho trouxe um sinal de alívio: a primeira redução mensal relevante desde o início da série, com queda líquida de 172 empresas. Mas a consultoria alerta para cautela. Um único mês não caracteriza mudança estrutural, e o ambiente segue hostil, com crédito restritivo e empresas pagando mais juros do que geram de caixa.
Quem mais está quebrando: comércio e indústria
Embora o agro tenha a pior evolução relativa, o comércio concentra o maior número absoluto: 1.649 empresas em recuperação judicial, alta de 22% em 12 meses. A indústria de transformação vem em seguida, com 1.455 empresas, e a construção soma 1.102 processos.
O transporte e logística também chama atenção, com crescimento de 24% em 12 meses, refletindo o aumento do custo financeiro, a pressão sobre combustíveis e a desaceleração econômica. Na indústria de transformação, margens mais estreitas e financiamento caro seguem como principais fatores, especialmente em confecções, usinas de açúcar e fabricantes de embalagens.
Grandes empresas são as mais vulneráveis
O perfil das empresas em dificuldade mudou. Grandes grupos recorrem mais a recuperações extrajudiciais, enquanto micro e pequenas empresas usam cada vez mais a recuperação judicial, impulsionadas pelo encarecimento do crédito e pela compressão das margens.
Mesmo assim, proporcionalmente, as grandes são as mais vulneráveis. A incidência chega a 17,4 empresas por mil entre companhias de muito grande porte, contra apenas 0,07 por mil entre microempresas. A diferença ocorre porque pequenas empresas costumam encerrar as atividades sem processo judicial, enquanto grandes corporações usam a recuperação para reorganizar dívidas complexas.
Juros altos: o vilão por trás da crise
Para os responsáveis pelo estudo, o custo do dinheiro é a principal explicação. Embora o Banco Central tenha iniciado o ciclo de redução da Selic, o juro real permanece próximo de 9% ao ano, um dos mais altos do mundo. Empresas fortemente endividadas seguem comprometendo parcela significativa do caixa apenas com despesas financeiras.
Os efeitos positivos da queda dos juros costumam demorar entre 12 e 18 meses para aparecer nas estatísticas de insolvência. Por isso, a expectativa é que o número de recuperações continue elevado no restante de 2026, ainda que o ritmo de crescimento seja menor.
Falências voltam a subir
Depois de praticamente estável ao longo de 2025, o estoque de empresas falidas voltou a subir, chegando a 2.798 casos ao final de junho, aumento de 66 ocorrências no ano, sendo 38 apenas no segundo trimestre.
Esse movimento ocorre em paralelo a uma mudança na jurisprudência. Em fevereiro, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a possibilidade de a Fazenda Pública requerer a falência de empresas quando a execução fiscal se mostrar ineficaz, ampliando os instrumentos de cobrança de grandes devedores tributários.
O que isso significa para você
A crise do agro não fica restrita ao campo. Ela afeta preços de alimentos, empregos e a saúde financeira de bancos e cooperativas de crédito. Se você é produtor, pequeno empresário ou consumidor, o cenário de juros altos e crédito restrito tende a pressionar seu bolso.
Para quem tem dívidas, a lição é clara: em ambiente de juros altos, priorize quitar passivos caros e evite novos financiamentos sem planejamento. Acompanhe as decisões do Banco Central e os indicadores de insolvência para antecipar movimentos do mercado.
Perguntas Frequentes
O agro está quebrando por causa da safra?
Não. A safra segue robusta, mas a crise é financeira, causada por juros altos e crédito restrito, que reduzem a capacidade de pagamento dos produtores.
Qual setor tem mais recuperações judiciais?
O comércio tem o maior número absoluto, com 1.649 empresas, seguido pela indústria de transformação, com 1.455, e construção, com 1.102.
Quando os efeitos da queda de juros aparecem?
Os efeitos positivos da queda da Selic costumam demorar entre 12 e 18 meses para aparecer nas estatísticas de insolvência.
Grandes empresas são mais vulneráveis?
Sim, proporcionalmente. A incidência é de 17,4 empresas por mil entre as de muito grande porte, contra 0,07 por mil entre microempresas.
O que explica o aumento das falências?
O aumento das falências está ligado à mudança na jurisprudência, que permitiu à Fazenda Pública requerer falência quando a execução fiscal é ineficaz, além do cenário de juros altos.