Acessos portuários pressionam custos do agronegócio
No pico da colheita de soja em fevereiro de 2026, filas de 40 km na BR-163 para o Porto de Miritituba (PA) expõem gargalos que pressionam custos e minam a competitividade do agronegócio brasileiro.
Acessos portuários pressionam custos e minam a competitividade do agronegócio
Em fevereiro de 2026, no pico da colheita de soja, a fila de caminhões para acessar o Porto de Miritituba (PA) chegou a 40 quilômetros na BR-163, principal corredor de escoamento do Centro-Oeste para o Arco Norte. Transportadoras e produtores relataram aumento de custos e incerteza para cumprir janelas de entrega no porto.
O que são os acessos portuários e por que eles travam?
Acessos portuários são as vias, rodovias, ferrovias e hidrovias que conectam a produção ao terminal. Quando o volume de caminhões, em poucas horas, supera a capacidade de recebimento dos terminais e dos pontos de controle, formam-se filas. No pico da safra, o fluxo se concentra em janelas curtas. Chuva e trechos com baixa trafegabilidade reduzem a velocidade; acidentes ou fiscalizações interrompem a fluidez; o acesso final aos pátios opera no limite.
Os caminhões acabam parados no acostamento e em vias locais. Quanto mais demora para descarregar, mais veículos se acumulam na entrada e maior fica o congestionamento no entorno.
Como as filas afetam o custo do frete e da carga?
O gargalo gera custos que vão além do frete rodoviário e chegam ao transporte marítimo, segundo Jesualdo Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP). Nas contas da associação, o demurrage, taxa cobrada pelo dono de um navio ou contêiner quando o importador atrasa a retirada da mercadoria, custa cerca de US$ 40 mil por dia, valor repassado à carga.
"A carga é a grande prejudicada. Quem paga os caminhões, quem paga o frete, quem paga a operação portuária, quem paga a dragagem, quem paga tudo é a carga. O preço todo vai apertando a margem", afirma Silva.
O que dizem os especialistas sobre a solução?
Para a Confederação Nacional do Transporte (CNT), as filas não são episódicas, mas um desafio habitual que exige planejamento de longo prazo e investimentos em infraestrutura e gestão. O presidente da CNT, Vander Costa, diz que o País ainda não integrou de forma efetiva os modais. Ele defende pátios de triagem, sistemas de agendamento e condomínios logísticos próximos aos terminais.
"A solução passa pela integração efetiva dos modais de transporte. Rodovias, ferrovias e hidrovias devem atuar de forma complementar, ampliando a capacidade de escoamento da produção. É urgente a elaboração de um plano para hidrovias, com foco em dragagem e manutenção, além de novos mecanismos de financiamento e concessões", diz Costa.
Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, reforça: "O Brasil é um país muito rodoviarista, mas não se pode esquecer das obras férreas e de projetos em hidrovias. São obras caras, mas necessárias. Se levar dez anos para ficar pronta, tem que começar logo."
O que a Pesquisa CNT de Rodovias 2025 revela?
A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 aponta que, dos 13,9 mil km avaliados na região Norte, 81,3% foram classificados como regulares, ruins ou péssimos. A condição do pavimento, da sinalização e da geometria das vias afeta corredores que conectam a produção aos portos do Arco Norte, pressionando custos e elevando o risco de acidentes.
Como isso impacta o produtor rural?
Lucas Beber, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT), diz que o escoamento é um dos principais entraves à competitividade. Ele afirma que nenhum dos candidatos à disputa pelo Planalto em 2026 apresentou propostas detalhadas para os gargalos. "Os candidatos até reconhecem a importância, mas não têm respostas e propostas completas. Eles discutem só com grandes financiadores de campanha e não com quem realmente tem propostas e demandas", afirma.
Perguntas Frequentes
O que é demurrage?
É a taxa cobrada pelo dono de um navio ou contêiner quando o importador demora mais do que o combinado para retirar a mercadoria e devolver o equipamento. Custa cerca de US$ 40 mil por dia, valor repassado à carga.
Por que as filas se formam nos portos?
Quando o volume de caminhões supera a capacidade de recebimento dos terminais, em janelas curtas de safra, formam-se filas que se retroalimentam: quanto mais demora para descarregar, mais veículos se acumulam.
O que pode reduzir os congestionamentos?
Segundo a CNT, pátios de triagem, sistemas de agendamento de cargas e condomínios logísticos próximos aos terminais podem reduzir filas nos períodos de pico.
Como a infraestrutura do Norte está avaliada?
Dos 13,9 mil km avaliados na região Norte, 81,3% foram classificados como regulares, ruins ou péssimos, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2025.
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