Economia

13 trilhões por cento de inflação: Milei critica BC argentino e pede reforma

ResumoJavier Milei, presidente argentino, publicou artigo no Clarín defendendo a reforma ou extinção do Banco Central da República Argentina. Milei citou inflação acumulada de 12.819.532.788.614.400.000% desde 1935, ano de criação da instituição. A crítica visa eliminar o BC para conter a hiperinflação histórica do país.

O presidente Javier Milei publicou artigo no Clarín defendendo a reforma ou extinção do Banco Central da República Argentina, citando inflação acumulada de 12.819.532.788.614.400.000% desde 1935, quando a instituição foi criada.

Lia Hartmann
Lia Hartmann Especialista em renda fixa · 26 de julho de 2026
13 trilhões por cento de inflação: Milei critica BC argentino e pede reforma

13 trilhões por cento de inflação: Milei critica BC argentino e pede reforma

O presidente Javier Milei publicou neste domingo no jornal Clarín um artigo em que defende a reforma ou mesmo a extinção do Banco Central da República Argentina (BCRA). O argumento central é o número de 12.819.532.788.614.400.000%, que representa 13 trilhões por cento de inflação acumulada desde 1935, ano de criação da autoridade monetária.

"Este número representa a inflação acumulada desde o ano de 1935 (inclusive), ou seja, desde que foi criado o Banco Central da República Argentina, que supostamente tinha como missão fundamental preservar o valor da moeda", escreve Milei. Para o presidente, "a obscenidade do registro torna inevitável o debate sobre se deveria ou não existir um Banco Central e, caso se decida por sua existência, sob quais regras deveria operar".

A inflação acumulada desde a criação do BCRA

Milei inicia a argumentação com um histórico sobre a origem do dinheiro, criado para resolver o problema da dupla coincidência e da indivisibilidade dos bens. A necessidade de um bem que não perdesse valor ao longo do tempo levou ao uso de metais preciosos, que por sua vez geraram problemas de portabilidade e risco de transporte, resultando no papel-moeda conversível.

"A oferta monetária nada mais é do que a prestação de um serviço de liquidez que permite realizar transações", afirma Milei. "E está claro que a prestação estatal desse serviço tem sido deplorável."

O presidente critica a esquerda e os "nacionalistas de quinta categoria", que defendem que a provisão de dinheiro deve estar nas mãos do Estado. Para ele, o curso forçado da moeda oferece ao Estado "uma fonte de arrecadação tributária sem a necessidade de legislar impostos explícitos".

A diferença entre imposto inflacionário e senhoriagem

Milei distingue dois conceitos: o imposto inflacionário (taxa de inflação multiplicada pela demanda por moeda) e a senhoriagem (emissão sem lastro). "O roubo não é dado pelo imposto inflacionário, mas sim pela senhoriagem", escreve.

Ele explica que, se uma economia cresce, a demanda por moeda também cresce. Se a oferta monetária permanece constante, há deflação e os indivíduos aumentam sua riqueza real. Mas se a oferta de moeda cresce de modo que a inflação seja nula, o imposto inflacionário é zero, mas o Estado conta com mais recursos, o setor privado perde.

"Há expropriação", conclui Milei. "A forma como o Estado introduz o dinheiro afeta a distribuição de renda e os preços relativos, portanto, afetará a poupança, o investimento e a taxa de juros. Ou seja, haverá danos no presente e no futuro."

Antes e depois do BCRA: a trajetória da inflação argentina

Milei apresenta dados comparativos para sustentar sua tese. Antes da criação do BCRA, a taxa de inflação anual era de 1,03% ao ano. Nos dez anos posteriores à criação, saltou para 6,05% ao ano. Após a estatização durante o governo do General Juan Domingo Perón, a inflação até 2025 teve média de 63,2% ao ano.

O presidente detalha a evolução por períodos:

  • 1946-1974: taxa de 29,7% ao ano
  • 1974-1991: subiu para 312,8% ao ano, levando à Lei de Conversibilidade
  • Durante a conversibilidade (dez anos): redução para 8,2% ao ano

A ideia de restringir o uso fiscal da emissão de dinheiro, permitindo que a posição em títulos públicos do Estado não ultrapassasse um terço da base monetária, não agradava a classe política. Em 2002, a conversibilidade foi encerrada "sob a premissa de que desta vez seria diferente e que a política monetária seria conduzida racionalmente".

"Além da fraude que implicou retirar o lastro dos pesos, que em dólares de hoje equivale a cerca de US$ 30 bilhões, a racionalidade progressista nos trouxe uma inflação de 168.580,3%, ou seja, uma inflação anual de 36,3%", escreve Milei.

O papel dos governos sucessivos

Milei afirma que Néstor Kirchner deixou a mesma inflação que recebeu, apesar da tendência decrescente herdada, enquanto Cristina Fernández de Kirchner, Mauricio Macri e Alberto Fernández deixaram a seus sucessores uma inflação maior do que a herdada.

"Para alcançar tamanho desastre, foi necessário um BCRA à altura das necessidades da casta política", diz. Ele critica as mudanças na Carta Orgânica de 2002 e, especialmente, a modificação de 2012, que "levou os níveis da brutalidade política ao paroxismo". A nova Carta Orgânica, segundo ele, foi delineada para justificar o saque de US$ 10 bilhões para o Fundo do Bicentenário de 2010, que permitiu a reeleição de Cristina Kirchner.

Os cinco objetivos que Milei quer eliminar

Milei critica a atribuição de cinco objetivos ao BCRA pela Carta Orgânica de 2012: (i) estabilidade monetária; (ii) estabilidade financeira; (iii) emprego; (iv) desenvolvimento econômico; e (v) equidade social. "Era preciso entrar no BCRA com capacete para não morrer de uma pancada na cabeça enquanto os maços de dinheiro voavam em direção à Casa Rosada", ironiza.

As cinco linhas analíticas da reforma proposta

Diante da "paixão expropriatória da alta política", Milei diz ter decidido reformular a Carta Orgânica do BCRA com base em cinco linhas:

1. Objetivo único: Acabar com a "bestialidade de cinco objetivos para um instrumento". A missão fundamental volta a ser preservar o valor da moeda. "A nova Carta reconhece a natureza monetária da inflação, já que esta é, sempre e em todo lugar, um fenômeno monetário gerado por um excesso de oferta."

2. Proibição de financiamento do Estado: Vale para o Tesouro Nacional, Estados Provinciais e Municípios. Fica proibida toda compra de títulos públicos do Estado Nacional no mercado primário.

3. Blindagem da diretoria: A remoção do presidente do BCRA e da diretoria será mais exigente, requerendo dois terços não apenas da Câmara de Senadores, mas também da Câmara de Deputados.

4. Restrição ao pagamento de dividendos: Os ativos até 31/12/2026 serão assimilados em unidades físicas. Os resultados de posse associados a mudanças nos preços desses ativos serão imputados a uma reserva técnica não distribuível. Os resultados da gestão de carteira só poderão ser repassados ao Tesouro para liquidação de dívidas.

5. Eliminação de mudanças de 2012: Serão eliminadas "de forma radical" outras mudanças introduzidas pela Carta Orgânica de 2012, incluindo "a fraude das Letras Intransferíveis".

O contexto macroeconômico

Enquanto a Argentina enfrenta esse debate, o Brasil registra inflação controlada. Segundo o Banco Central do Brasil, a variação mensal do IPCA em junho de 2026 foi 0,16%, e em maio de 2026 foi 0,58%. O IBGE registrou variação de 0,162 em junho de 2026 e de 0,582 em maio de 2026, mostrando um cenário de estabilidade relativa se comparado à trajetória argentina.

O que a reforma pode significar

Para Milei, a reforma da Carta Orgânica do BCRA, junto com as novas regras fiscais (déficit zero e shutdown), a nova lei de Mercado de Capitais e a desregulamentação do Mercado de Seguros, "colocará fim a 91 anos de saque, expropriação, impunidade e decadência, o que nos permitirá tornar a Argentina grande novamente".

A proposta representa uma visão radical de independência do banco central, com restrições severas à capacidade de financiamento do Estado e foco exclusivo no combate à inflação. Resta saber se o Congresso argentino, com sua composição fragmentada, aprovará as mudanças.

Perguntas Frequentes

Qual foi a inflação acumulada na Argentina desde 1935?

Milei cita o número de 12.819.532.788.614.400.000%, que representa 13 trilhões por cento de inflação acumulada desde a criação do BCRA.

O que Milei propõe para o Banco Central argentino?

O presidente defende a reforma da Carta Orgânica com cinco mudanças: objetivo único de preservar o valor da moeda, proibição de financiamento do Estado, blindagem da diretoria, restrição ao pagamento de dividendos e eliminação de mudanças de 2012.

Qual era a inflação antes do BCRA?

Antes da criação do BCRA em 1935, a taxa de inflação anual era de 1,03% ao ano.

O que é senhoriagem segundo Milei?

Milei define senhoriagem como a emissão de moeda sem lastro, distinguindo-a do imposto inflacionário. Para ele, o "roubo" está na senhoriagem, não no imposto.

Quais governos Milei critica no artigo?

Milei critica os governos de Néstor Kirchner, Cristina Fernández de Kirchner, Mauricio Macri e Alberto Fernández, afirmando que todos deixaram inflação maior do que herdaram.

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