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Copom decide juros sob inflação e desconfiança do mercado

A primeira decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) após as eleições presidenciais ocorre em um contexto de pressão inflacionária, tensões externas e desconfiança generalizada do mercado quanto à capacidade do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva em conduzir uma política fiscal de ajuste das contas públicas. Esse cenário impacta diretamente a trajetória dos preços.

Até recentemente, a maioria das projeções indicava um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic. No entanto, o resultado das urnas alterou essa perspectiva, com grande parte do mercado agora projetando a manutenção dos juros no patamar atual de 13,75% até o fim do ano. Algumas casas de análise, como a XP, apostam em uma pausa mais prolongada, estendendo-a até o fim de 2027.

"Até a semana passada, o mercado trabalhava com mais um corte de 0,25. A eleição mudou esse quadro em um dia: o dólar subiu cerca de 8%, a inflação implícita nos títulos públicos avançou mais de um ponto e as curvas indicam alta chance de pausa", avalia Guilherme Ghidetti, sócio e CIO da Jera Capital. Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos da AW Capital, corrobora essa visão, indicando que a expectativa de corte se perdeu após o "caos do dia 26 de outubro".

O debate sobre o ritmo de afrouxamento monetário deu lugar a questionamentos sobre o espaço para novos cortes. O dólar, que estava em R$ 4,96 antes do segundo turno, atingiu cerca de R$ 5,40. A inflação oficial (IPCA) acumula alta de 4,58% em doze meses, superando o teto da meta. Economistas apontam que esses dados reduzem a margem de manobra da autoridade monetária. Ghidetti adverte que "a desvalorização do real ainda vai passar para os preços nos próximos meses, e as expectativas, que já estavam acima da meta, devem subir".

A inflação de serviços, que tem se mostrado persistente, adiciona uma barreira adicional à decisão de reduzir os juros. Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, observa que os serviços intensivos em trabalho já apresentam alta superior a 7%, o que reforça a necessidade de juros restritivos por mais tempo para conter os preços.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, projeta a manutenção da Selic em 13,75% até o fim de 2026, com recuo para 12% ao final de 2027. Ele cita como limitadores para a flexibilização a pressão do El Niño sobre alimentos, o preço do petróleo elevado e os custos trabalhistas. Carlos Lopes, economista do BV, antecipa estabilidade da taxa até, pelo menos, o segundo trimestre do próximo ano.

Por outro lado, uma parcela de analistas, como Leandro Padulla (ASA) e Rafaela Vitoria (Inter), ainda vê espaço para um corte de 0,25 ponto percentual. Padulla argumenta que a perda de ritmo da atividade econômica e a projeção de inflação no horizonte relevante sustentariam esse movimento, apesar da depreciação do real. Rafaela Vitoria ressalta que a Selic a 13,5% continuaria restritiva, mas condiciona a retomada dos cortes à implementação de medidas fiscais estruturantes.

Roberto Simioni, da Blue3 Investimentos, alerta para o risco de "repressão financeira" caso o Banco Central adote uma flexibilização prematura, o que poderia encarecer o crédito e a rolagem da dívida pública.

No cenário global, a manutenção dos juros pelo Federal Reserve (Fed) entre 3,75% e 4% nos Estados Unidos reduz o diferencial de taxas com o Brasil, pressionando o real. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, destaca que esse movimento limita a disposição do Copom em tratar a desvalorização cambial como um choque passageiro.

A postura do presidente do Banco Central é vista como um escudo. Guilherme Ghidetti, da Jera Capital, relembra que os receios iniciais sobre a independência da instituição sob o comando de Gabriel Galípolo não se concretizaram. A independência do Banco Central é vista como "a principal proteção contra uma maior deterioração dos ativos domésticos".

As revisões das estimativas do Boletim Focus refletem o cenário. André Matos, CEO da MA7 Capital, aponta que as projeções para a Selic no fim de 2027 subiram de 11,75% para 12,50%, e a inflação esperada saltou de 4,34% para 4,76%. Matos alerta que cada ponto percentual a mais na taxa básica representa um custo anual de cerca de R$ 50 bilhões em juros para o governo. Sidney Lima (Ouro Preto Investimentos) e Gustavo Assis (Asset) afirmam que a viabilidade de uma Selic menor até 2028 depende do controle rígido sobre despesas obrigatórias.

Lia Hartmann
Especialista em renda fixa
Especialista em renda fixa.
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