# Tesouro Selic pode ser próximo a pagar taxa mais alta; entenda

> O Tesouro Selic (LFT) pode pagar taxa mais alta, com projeção de rendimento entre 102% e 103% do CDI. A piora da percepção fiscal alterou o financiamento da dívida pública, onde metade do estoque está atrelada à Selic. O Tesouro pode ter que pagar mais caro pelas LFTs.

*Mercado Valor · Investimentos · 22 de julho de 2026 · Bianca Solano*

A piora da percepção fiscal mudou o financiamento da dívida pública. Metade do estoque está atrelada à Selic. Agora, o Tesouro pode ter que pagar mais caro pelas LFTs, com projeção de rendimento entre 102% e 103% do CDI.

## Após IPCA+, Tesouro Selic pode ser próximo a pagar taxa mais alta; entenda

Com a piora da percepção fiscal, o Tesouro Nacional já mudou a forma como financia a dívida pública. Metade do estoque em mercado (50,1%) está hoje atrelada à taxa Selic, ante cerca de 41% três anos atrás. O movimento troca papéis longos e prefixados por títulos pós-fixados atrelados à Selic. E o desdobramento prático para o investidor recai sobre o próximo passo do Tesouro.

Para atrair compradores, o governo deve ser empurrado a pagar mais caro pelas LFTs, os títulos do Tesouro Selic, na avaliação de Ricardo Gallo, sócio da Ethica Serviços Financeiros. Ele projeta que os papéis terão de render entre 102% e 103% do CDI, acima dos cerca de 0,10% ao ano que hoje pagam sobre a Selic. "Eu não estou falando de 110% do CDI, mas estou falando de 102% ou 103%", diz, em entrevista ao InfoMoney.

## O sinal mais visível: cancelamentos de leilões

O sinal mais visível dessa virada foram os cancelamentos recentes de leilões, pouco frequentes, mas suficientes para chamar atenção. Para o UBS, esses episódios acontecem porque as taxas exigidas pelo mercado se afastam da estratégia do Tesouro, e o governo se vê obrigado a reduzir a oferta e recorrer ao colchão de liquidez. Não há dificuldade imediata de rolagem, mas as condições de financiamento pioraram de forma gradual, reforça o time de macroeconomia do UBS Wealth Management liderado por Solange Srour, em relatório recente.

## Prazo médio da dívida: estabilidade enganosa

Segundo dados do Tesouro levantados pelo JPMorgan, em maio, o prazo médio da dívida estava em 47,5 meses, praticamente estável ante os 48,9 meses de um ano antes. O número parou de pé, porém, graças às novas emissões de LFT, cujo prazo médio subiu de 68,5 para 73,6 meses no período. Nas ofertas de prefixados, o prazo encurtou de 43,3 para 31,8 meses, e nas de NTN-B recuou de 98,5 para 87,8 meses. O Tesouro continua alongando vencimentos, mas quase só por meio de papéis que não travam o custo da dívida.

## Risco de repactuação no maior nível da série

Já o risco de repactuação, a parcela da dívida cujo custo é redefinido em até doze meses, seja por vencer, seja por acompanhar a Selic, chegou a cerca de 63% em maio, o maior nível da série histórica, ante 58,5% em 2024, calcula o UBS. Somando os títulos indexados à Selic e as operações compromissadas do Banco Central, a exposição total à taxa curta alcança R$ 5,27 trilhões, ou 52,6% da dívida. Quanto maior essa fatia, menor a capacidade do Tesouro de atravessar ciclos prolongados de juros altos sem que o custo da dívida seja pressionado.

## Demanda por NTN-B secou; estrangeiro foge

Do outro lado do balcão, a demanda pelo papel que o Tesouro mais gostaria de vender secou. A NTN-B (Tesouro IPCA+) paga a inflação mais uma taxa fixa, hoje em até 8% ao ano, e seu comprador natural sempre foi o dinheiro de aposentadoria, explica Gallo: fundos de pensão e de previdência, que têm compromissos de décadas e casam com um título corrigido pelo IPCA. Ele estima esse bolso em cerca de R$ 3 trilhões. Nos últimos dois anos, avalia, esses fundos praticamente pararam de crescer, em parte por causa da mudança na tributação dos planos de previdência.

Por outro lado, o estrangeiro concentra-se nos papéis prefixados e tem pouco interesse em títulos longos indexados à inflação brasileira. Segundo o JPMorgan, estrangeiros detêm cerca de 10% da dívida pública, mas respondem por 42% do estoque de NTN-Fs e 28% das LTNs, ante cerca de 3% nas NTN-Bs. Em maio, o banco registrou saída de estrangeiros justamente das NTN-Bs, o mesmo papel que o Tesouro tenta emitir em prazos longos.

## Pessoas físicas e fundos: bolsos pequenos demais

Sobram as pessoas físicas e fundos dedicados, bolsos pequenos demais diante do volume que o Tesouro precisa colocar. Só em NTN-Bs, a emissão líquida somou R$ 417 bilhões em 2025 e deve chegar a R$ 590 bilhões em 2026, segundo projeção do JPMorgan. Para Gallo, o problema não é desconfiança sobre a solvência do governo. "O pessoal não está falando 'estou com medo de emprestar para o governo, porque o governo não vai quebrar'. O pessoal simplesmente não tem capacidade de absorver esse risco", afirma.

## O ciclo perverso da marcação a mercado

Quando a demanda seca e o Tesouro insiste em vender, as taxas sobem, e o estrago para quem já tem o papel é grande. Gallo faz a conta: em um título com duration (prazo médio) de 8 anos, a alta do juro real de 6% para 8% observada nos últimos anos significou perda de principal da ordem de 16%, considerando a marcação a mercado. "É uma perda que o investidor de renda fixa não está preparado para absorver", diz. O resultado é o que ele chama de "ciclo perverso": quanto mais o Tesouro emite, mais a taxa sobe, mais perde quem financia a dívida e menos compradores aparecem.

## LFTs como caminho natural, mas sem incentivo

Se as NTN-Bs bateram no teto, o caminho passa pelas LFTs, defende Gallo. Os dados de emissão mostram esse deslocamento já em curso: as LFTs devem responder pela maior fatia da captação líquida do Tesouro em 2026, com emissão líquida projetada em R$ 1,07 trilhão, ante R$ 786 bilhões em 2025, segundo o JPMorgan.

O obstáculo é que, hoje, não há incentivo para comprá-las. O prêmio pago pelo papel está em cerca de 0,10% ao ano acima da Selic, e há um problema institucional: o Banco Central toma dinheiro diariamente nas operações compromissadas, empréstimos de um dia lastreados em títulos, pagando praticamente a mesma taxa de um título público de cinco anos. "Se eu tenho liquidez diária aplicando a 100% da Selic, por que vou comprar um papel de cinco anos que paga 0,10 ponto percentual a mais?", questiona.

Em qualquer país, argumenta, títulos públicos pagam um prêmio de liquidez, uma compensação pelo risco de o investidor precisar vender o papel antes do vencimento sem encontrar comprador a bom preço. A LFT, portanto, deveria pagar um prêmio de pelo menos 0,30 ponto, na conta de Gallo. Subir esse prêmio ainda ajudaria a criar um mercado secundário para um papel que, hoje, é comprado majoritariamente por bancos e é "praticamente inegociável".

## O debate sobre a causa do problema

Governo e parte do mercado divergem sobre a causa do problema. O secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, tem atribuído parte da dificuldade à concorrência dos títulos privados isentos de Imposto de Renda, como LCIs, LCAs e debêntures incentivadas, e defende que a distorção "terá que ser enfrentada". Para o UBS, a concorrência dos isentos está entre os fatores que elevam o retorno exigido para manter os títulos públicos competitivos.

Gallo discorda: "quem está atrapalhando as emissões privadas é o Tesouro", diz, citando o conceito de "crowding out", quando a dívida pública, ao pagar juros altos, desloca o financiamento do setor privado. Para ele, o risco de um diagnóstico equivocado é gerar pressão indevida sobre o Banco Central para acelerar o corte de juros, na esperança de reduzir o custo da dívida.

## Perguntas Frequentes

### O que é o Tesouro Selic (LFT)?

É um título público pós-fixado que acompanha a taxa Selic, considerado de baixo risco e com liquidez diária. Atualmente, paga cerca de 0,10% ao ano acima da Selic.

### Por que o Tesouro pode ter que pagar mais caro pelas LFTs?

Com a piora fiscal e a queda na demanda por NTN-B, o governo precisa atrair compradores. Ricardo Gallo projeta que as LFTs terão de render entre 102% e 103% do CDI.

### O que é o risco de repactuação da dívida?

É a parcela da dívida cujo custo é redefinido em até doze meses. Em maio, chegou a cerca de 63%, o maior nível da série histórica, segundo o UBS.

### Como a marcação a mercado afeta o investidor?

Quando os juros sobem, o valor de mercado dos títulos cai. Gallo calcula perda de até 16% em papéis com duration de 8 anos, com alta do juro real de 6% para 8%.

### Quem são os principais compradores de NTN-B?

Fundos de pensão e de previdência, que têm compromissos de décadas. Gallo estima esse bolso em cerca de R$ 3 trilhões, mas ele parou de crescer.

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Fonte (canonical): https://mercadovalor.com.br/investimentos/apos-ipca-tesouro-selic-pode-ser-proximo-pagar-taxa-mais-alta-entenda/
