Tesouro IPCA+: ainda dá tempo de lucrar com o título?
O Tesouro IPCA+ 2032 cedeu meio ponto em 30 dias e ainda há espaço para ganhos, segundo a Ghia Multi Family Office. O family office vê assimetria favorável, mas evita prazos muito longos por cautela eleitoral.
Quem apostou nos títulos públicos atrelados à inflação começou a colher resultado. Em 30 dias, o Tesouro IPCA+ 2032 recuou cerca de meio ponto percentual, de 8,15% para perto de 7,65% ao ano até a quarta-feira (16). O papel com vencimento em 2040 fez caminho parecido, de 7,63% para 7,31%. A pergunta que fica: ainda dá tempo de entrar?
Sim, segundo a Ghia Multi Family Office, que analisou a renda fixa atrelada à inflação e enxerga espaço para o movimento continuar. A casa sustenta que a maior parte do fechamento das taxas ainda não aconteceu. Para dimensionar o potencial, montou uma matriz que simula o retorno de cada vencimento em 12 meses.
Na NTN-B 2032, simulada a 8,36%, o retorno seria de 14% com juros estáveis, 19,5% com queda de 1 ponto percentual e 8,8% com alta da mesma magnitude. Nos prazos longos, a distância entre cenários se amplia: a NTN-B 2040, simulada a 7,74%, iria de 13,3% com taxas estáveis para 28% num fechamento de 1 ponto. Numa alta equivalente, ficaria praticamente zerada, com 0,4%. Em todos os casos, o ganho com a queda supera a perda com a alta de mesmo tamanho. "Se der errado, é pouco. E, se der certo, você tem muito para capturar", resume Bruno de Paula, diretor da Ghia.
O que explica a tese
Boa parte da resposta passa pela eleição presidencial. No estudo, o family office argumenta que as pressões sobre os juros reais estão ligadas à percepção dos investidores sobre a política fiscal, e que em ano eleitoral essa percepção passa pela orientação econômica dos candidatos. O modelo da casa mostra que o juro real de 10 anos reage de forma robusta à inflação acumulada em 12 meses e ao CDS de 5 anos, termômetro do risco-país. Já a resposta ao resultado primário é modesta: um aumento de 0,44 ponto percentual na diferença entre receitas e despesas do governo aparece associado a uma queda de apenas 0,0895 ponto percentual nas taxas em três meses.
A outra frente do estudo observa Chile, Colômbia e Peru, que elegeram recentemente governos percebidos como pró-mercado e mais austeros. Nos três casos, os juros de 10 anos caíram antes da confirmação do resultado. O estudo pondera que a análise é qualitativa, feita com juros nominais, e que parte da queda reflete o alívio global com a dissipação do conflito no Oriente Médio. Para o Brasil, De Paula avalia que o efeito pode ser ainda mais forte, porque a dívida é maior.
Onde mora o risco
Gabriel Gonçalves, analista de alocação da Ghia, é cauteloso: vê o acirramento das pesquisas eleitorais desde o fim de julho como "uma evidência muito primária, muito preliminar". De Paula reconhece que existe limite para a queda dos juros, já que o Banco Central precisa manter a política monetária restritiva enquanto a inflação segue distante da meta. "Mas a gente acha que esse limite ainda está longe", diz, especialmente nos prazos de quatro a cinco anos.
Mesmo com a leitura construtiva, a casa evita vencimentos muito longos e procura ficar perto da duration do IMA-B, em torno de seis anos. "Se a gente tivesse toda a convicção do mundo, com certeza estaria na maior duration possível, mas não é o caso", afirma, lembrando o risco de um segundo turno em que um dos lados radicalize.
Para a pessoa física, De Paula vê nos ETFs que replicam o IMA-B uma forma de acompanhar a tese sem depender de um título específico, já que esses fundos mantêm o prazo médio ao longo do tempo. A lógica da casa privilegia o rendimento contratado, não a aposta em valorização pela marcação a mercado. Para capturar uma queda mais forte dos juros, a Ghia tem preferido fundos imobiliários de tijolo e ações como posições táticas. Os prefixados seguem de fora.