Xi apresenta China como líder da nova ordem global em IA, desafiando domínio dos EUA
Em discurso na ONU, Xi Jinping propõe que a China lidere a nova ordem global de inteligência artificial, desafiando o domínio dos EUA. O plano inclui padrões técnicos próprios e cooperação com países emergentes, como o Brasil.
O presidente chinês Xi Jinping usou a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas para apresentar a China como a nova líder da ordem global de inteligência artificial. Em um discurso que durou cerca de 30 minutos, ele defendeu que Pequim deve ditar as regras da governança de IA no mundo, desafiando diretamente o domínio dos Estados Unidos no setor. A proposta inclui a criação de padrões técnicos próprios e uma rede de cooperação com países emergentes, como o Brasil e os da África. Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que o movimento busca reposicionar a China como potência tecnológica central, em meio à guerra comercial e tecnológica com Washington.
Xi apresentou um plano de cinco pontos para a 'nova ordem global de IA', que inclui: 1) Criação de padrões técnicos abertos e interoperáveis, 2) Estabelecimento de um fundo multilateral para pesquisa em IA em países em desenvolvimento, 3) Código de conduta para uso militar de IA, 4) Compartilhamento de dados de treinamento de modelos com países do Sul Global, 5) Criação de um conselho consultivo na ONU com sede em Xangai. O discurso foi feito em um momento em que a China já lidera em número de patentes de IA e em produção de artigos científicos sobre o tema.
O discurso de Xi na ONU e a proposta de governança global
O discurso de Xi na ONU não foi um evento isolado. Ele ocorre em um contexto de acirramento da disputa tecnológica entre China e EUA, que inclui sanções e restrições a chips e softwares de IA. A proposta chinesa é oferecer uma alternativa ao modelo americano, que é visto por Pequim como hegemônico e excludente. Xi defendeu que a IA deve ser 'benéfica para toda a humanidade' e que 'nenhum país deve ter o monopólio de seu desenvolvimento'.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, a proposta de Xi já foi apresentada informalmente a 30 países, incluindo Brasil, Rússia e Índia. O governo brasileiro, por meio do Itamaraty, afirmou que 'estuda a proposta com interesse', mas não se comprometeu publicamente. A chancelaria chinesa informou que o fundo multilateral teria aporte inicial de US$ 1 bilhão, com contribuições voluntárias de países membros.
Como a China desafia os EUA na corrida da IA
A China já ultrapassou os EUA em número de patentes de inteligência artificial registradas por ano, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). Em 2025, foram 42 mil patentes chinesas contra 28 mil americanas. Além disso, o país asiático concentra 40% dos artigos científicos publicados sobre IA no mundo, de acordo com a Elsevier.
O domínio chinês não se limita à pesquisa. Empresas como Baidu, Alibaba e Tencent já têm modelos de linguagem de grande porte (LLMs) que competem com os americanos. O modelo Ernie 4.0, da Baidu, superou o GPT-4 em testes de raciocínio lógico em mandarim, segundo a própria empresa. Já o Qwen, da Alibaba, é usado por governos de países africanos para serviços públicos.
Impactos para o Brasil e a América Latina
O Brasil é um dos países que a China corteja para sua nova ordem global de IA. Em setembro de 2026, o Ministério da Ciência e Tecnologia brasileiro assinou um memorando de entendimento com a Academia Chinesa de Ciências para cooperação em IA. O acordo prevê intercâmbio de pesquisadores e acesso a dados de treinamento de modelos chineses.
Para o governo brasileiro, a proposta chinesa representa uma alternativa à dependência de big techs americanas, como Google e Microsoft. No entanto, especialistas alertam para riscos de segurança nacional e de dependência tecnológica. A professora de relações internacionais da USP, Maria Silva, avalia que 'o Brasil precisa equilibrar a cooperação com a China com a manutenção de sua autonomia tecnológica'. brasil-china-ia-riscos
Os padrões técnicos propostos pela China
A China propõe padrões técnicos para IA que diferem dos americanos em três pontos principais: 1) Uso de algoritmos de código aberto (open source) em vez de proprietários, 2) Prioridade para dados de treinamento em idiomas não-ingleses, 3) Exigência de que modelos de IA sejam auditados por comitês nacionais, e não por empresas privadas. Esses padrões foram detalhados em um documento de 120 páginas divulgado pelo Ministério da Indústria chinês.
Na prática, se adotados globalmente, esses padrões forçariam empresas americanas como OpenAI e Google a abrir seus modelos e a treiná-los em mais idiomas. A proposta é vista como uma forma de quebrar o monopólio americano, mas também como uma tentativa de exportar o modelo de vigilância estatal chinês para o resto do mundo. Críticos apontam que os padrões chineses permitiriam que o governo acesse dados de usuários de outros países.
Reações dos EUA e de outros países
Os EUA reagiram com ceticismo à proposta de Xi. O secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que 'a China quer usar a IA para expandir seu controle autoritário, não para beneficiar a humanidade'. A União Europeia, por sua vez, adotou uma postura cautelosa, afirmando que 'avaliará a proposta com base em critérios de transparência e direitos humanos'.
Países como Índia e Indonésia demonstraram interesse na proposta chinesa, especialmente no fundo multilateral. Já o Japão e a Coreia do Sul, aliados dos EUA, rejeitaram abertamente a iniciativa. A Rússia, por sua vez, apoiou a proposta, mas condicionou sua adesão a garantias de que não haverá interferência em seus sistemas de IA domésticos.
O que esperar da nova ordem global de IA
A proposta chinesa ainda está em fase inicial. Para ser implementada, precisaria de aprovação na Assembleia Geral da ONU, o que é improvável sem o apoio dos EUA e da UE. No entanto, analistas apontam que a China já está criando fatos consumados: acordos bilaterais com dezenas de países, investimentos em infraestrutura de IA no Sul Global e a criação de um conselho consultivo paralelo à ONU. china-ia-sul-global
O futuro da governança global de IA, portanto, dependerá de negociações entre as duas potências. Enquanto isso, países como o Brasil precisam decidir de que lado ficarão, ou se conseguirão construir um caminho próprio. A decisão não é apenas técnica, mas geopolítica, e terá impactos na economia, na segurança e na soberania digital de cada nação.
Perguntas Frequentes
O que Xi Jinping propôs na ONU sobre IA?
Xi propôs que a China lidere a governança global de IA, com padrões técnicos próprios e um fundo multilateral para países em desenvolvimento.
Como a China desafia os EUA na inteligência artificial?
A China lidera em número de patentes e artigos científicos sobre IA, além de ter modelos de linguagem que competem com os americanos.
O Brasil vai aderir à proposta chinesa?
O Brasil assinou um memorando de cooperação, mas ainda não aderiu formalmente à proposta. O governo estuda o tema com cautela.
Quais os riscos dos padrões chineses de IA?
Críticos apontam que os padrões chineses podem permitir vigilância estatal e acesso a dados de usuários de outros países.
A proposta chinesa tem chance de ser aprovada na ONU?
É improvável sem o apoio dos EUA e da UE. Mas a China já avança com acordos bilaterais e investimentos paralelos.
Qual o impacto para o usuário comum de IA?
A depender do resultado, o usuário pode ter acesso a modelos mais diversos e baratos, mas também a menos privacidade e mais controle estatal.