# Tarifaço deve ter efeito limitado na balança comercial brasileira, avaliam especialistas

> O tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve ter efeito limitado na balança comercial do Brasil, conforme avaliam especialistas. As medidas afetam apenas 18% das exportações nacionais para o mercado americano, mas setores como máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis sentirão impacto negativo.

*Mercado Valor · Economia · 20 de julho de 2026 · Caetano Vidal*

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve ter efeito limitado na balança comercial do Brasil, mas setores como máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis sentirão o impacto. As medidas afetam apenas 18% das exportações nacionais para o mercado am

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar efeitos limitados sobre a balança comercial do Brasil, mas setores da indústria sentirão o impacto. As medidas do governo Donald Trump afetam apenas 18% das exportações nacionais para o mercado estadunidense, segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

O tarifaço imposto pelos EUA sobre produtos brasileiros deve ter efeito limitado na balança comercial do Brasil, avaliam especialistas. As medidas afetam apenas 18% das exportações nacionais para o mercado americano, com setores como máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis sendo os mais impactados. Commodities como soja, suco de laranja e carnes foram poupadas.

## Impacto limitado na balança comercial

Segundo a pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls, o tarifaço dificilmente alterará o desempenho agregado da balança comercial brasileira. Isso porque os Estados Unidos respondem hoje por uma parcela menor das exportações nacionais.

"Alterar o saldo da balança, em termos macroeconômicos, é pouco provável. O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%", afirma.

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também descarta um efeito relevante sobre o superávit comercial brasileiro.

"O superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities [bens primários com cotação internacional]. O tarifaço poupou justamente commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes", explica.

## Setores mais afetados pelo tarifaço

Entre os setores que sofrerão mais com perdas de competitividade estão máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis. Esses segmentos exportam bastante aos Estados Unidos e têm dificuldades para remanejar mercados.

"Você pode ter efeitos mais microeconômicos sobre empresas, principalmente dos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados", enumera Lia Valls.

As tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento utilizado pelos Estados Unidos para aplicar medidas comerciais unilaterais. Embora a alíquota-padrão seja 25%, em 24% dos produtos atingidos a tarifa chega a 50%, pois somou-se a tarifas impostas anteriormente.

## Desempenho do comércio bilateral

As trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos somaram US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões.

Com isso, o Brasil encerrou o período com déficit comercial de US$ 1,5 bilhão, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). O déficit do Brasil e superávit para os Estados Unidos mantém-se, apesar do encolhimento do comércio bilateral desde o ano passado.

Em junho, as exportações cresceram 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, mas o resultado foi sustentado pela alta de 11% nos preços médios. O volume embarcado caiu 6,6%.

## Indústria nacional como maior prejudicada

Para José Augusto de Castro, o maior prejuízo será para a indústria nacional, responsável pela produção de bens de maior valor agregado.

"Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil", afirma.

Castro alerta que as novas barreiras tendem a favorecer concorrentes internacionais.

"Como a sobretaxa atingiu diretamente os produtos manufaturados, abre mercados para outros países que antes não exportavam esses produtos e agora passam a ocupar esse espaço."

## Argumentos políticos por trás das tarifas

Na avaliação de Lia Valls, a escalada das tarifas deixou de seguir critérios econômicos e passou a incorporar argumentos políticos. Principalmente porque, diferentemente da maioria dos países, o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos.

"Quando ele [Trump] aumentou para 40%, os argumentos realmente eram muito mais de caráter político. Não tinha muito argumento econômico nessa história", diz.

Segundo a economista, temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais passaram a ser utilizados como justificativas para ampliar as sanções comerciais.

## Retaliação: riscos e limites

O governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder ao tarifaço americano. Os especialistas, porém, veem poucos benefícios em uma retaliação.

Lia Valls avalia que o Brasil não dispõe de capacidade para impor perdas relevantes aos Estados Unidos.

"O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você. O ganho seria pequeno. O caminho é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio", sugere.

José Augusto de Castro também considera que uma resposta tarifária tende a ser ineficaz.

"Não acredito em retaliação. O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la", adverte.

## Produtos poupados pelo tarifaço

Aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas. Esses itens representam justamente as commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos no mercado global.

## Perguntas Frequentes

### Quais setores são mais afetados pelo tarifaço?

Os setores mais afetados são máquinas, aço, alumínio, calçados, automóveis, equipamentos e produtos de madeira.

### Por que o impacto na balança comercial é limitado?

Porque as medidas afetam apenas 18% das exportações brasileiras para os EUA, e a participação dos Estados Unidos nas exportações nacionais caiu para cerca de 9,4%.

### O Brasil tem capacidade de retaliar os Estados Unidos?

Segundo especialistas, o Brasil não dispõe de capacidade para impor perdas relevantes aos EUA, e uma retaliação poderia ser prejudicial ao próprio país.

### Quais produtos foram poupados pelo tarifaço?

Aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas.

### Qual a alíquota média das tarifas impostas?

A alíquota-padrão é 25%, mas em 24% dos produtos atingidos chega a 50%, somando-se a tarifas anteriores.

### O que dizem os especialistas sobre a retaliação?

Lia Valls sugere denunciar a medida na Organização Mundial do Comércio, enquanto José Augusto de Castro defende negociações, não retaliações.

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Fonte (canonical): https://mercadovalor.com.br/economia/tarifaco-deve-ter-efeito-limitado-balanca-comercial-brasileira/
