# Química do sangue humano está mudando e a culpa é do clima: estudo

> Estudo australiano com 20 anos de dados revela que a piora da qualidade do ar, impulsionada pelas mudanças climáticas, está alterando a química do sangue humano. Foram identificadas modificações nos níveis de bicarbonato sérico, cálcio e fósforo. Essas alterações podem impactar a saúde, exigindo monitoramento dos efeitos fisiológicos da poluição atmosférica.

*Mercado Valor · Economia · 20 de julho de 2026 · Bianca Solano*

A piora do ar que respiramos pode estar gradualmente modificando o sangue humano. Pesquisadores da Austrália analisaram 20 anos de dados e encontraram alterações no bicarbonato sérico, cálcio e fósforo. Entenda o que isso significa para a saúde.

## Química do sangue humano está mudando e a culpa é do clima: o que diz a ciência

Sim, a química do sangue humano está mudando, segundo um estudo de pesquisadores do The Kids Research Institute Australia, da Curtin University e da Australian National University (ANU), na Austrália. Eles analisaram 20 anos de dados da população dos Estados Unidos e encontraram alterações graduais no bicarbonato sérico, um marcador sanguíneo relacionado ao dióxido de carbono (CO₂). Se as tendências atuais persistirem, esse indicador poderá se aproximar do limite superior da faixa considerada saudável nas próximas décadas.

## O que a pesquisa descobriu sobre a química do sangue

Publicado na revista _Air Quality, Atmosphere and Health_, o estudo utilizou dados da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição dos Estados Unidos (NHANES). A equipe analisou resultados de exames de sangue de cerca de 7 mil pessoas, coletados a cada dois anos entre 1999 e 2020.

Desde 1999, os níveis médios de bicarbonato sérico aumentaram cerca de 7% nos indivíduos analisados. Essa substância está diretamente relacionada à quantidade de dióxido de carbono transportada pelo organismo. No mesmo período, as concentrações médias de cálcio e fósforo apresentaram queda.

## A relação entre CO₂ atmosférico e alterações no sangue

Essas mudanças ocorreram enquanto a concentração de CO₂ na atmosfera aumentou de aproximadamente 369 partes por milhão (ppm), em 2000, para mais de 420 ppm atualmente. O monitoramento mostrou que as alterações nos parâmetros da química do sangue sofreram alterações ao longo do tempo em um padrão que acompanhou de perto o aumento da concentração de CO₂ na atmosfera.

"O que estamos observando é uma mudança gradual na química do sangue que acompanha o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, principal responsável pelas mudanças climáticas", afirmou Alexander Larcombe, um dos autores do estudo, ao SciTechDaily.

## Como o bicarbonato sérico afeta o equilíbrio do corpo

O bicarbonato ajuda o organismo a manter o equilíbrio entre acidez e alcalinidade. À medida que a concentração de CO₂ aumenta, o corpo pode reter mais bicarbonato para preservar o pH do sangue dentro da faixa normal. No entanto, manter esse ajuste por longos períodos pode produzir efeitos fisiológicos.

"Se a tendência atual continuar, nossos modelos indicam que os níveis médios de bicarbonato poderão se aproximar do limite superior da faixa considerada saudável dentro de cerca de 50 anos", disse Larcombe. "Os níveis de cálcio e fósforo também poderão atingir o limite inferior de suas faixas de normalidade ainda neste século."

## Crianças e adolescentes: os mais vulneráveis

Crianças e adolescentes podem ser particularmente vulneráveis, já que seus organismos em desenvolvimento estarão expostos por mais tempo ao aumento da concentração de CO₂ na atmosfera. A pesquisa não demonstra uma relação direta de causa e efeito, mas a consistência das alterações observadas em toda a população merece atenção, segundo Phil Bierwirth, coautor do estudo e geocientista ambiental aposentado vinculado à Faculdade Emérita da ANU.

"Parece que evoluímos para viver em uma faixa de concentração de CO₂ atmosférico que agora pode ter sido ultrapassada", afirmou Bierwirth. "Essa faixa mantém um equilíbrio delicado entre a quantidade de CO₂ no ar, o pH do sangue, a frequência respiratória e os níveis de bicarbonato. Como a concentração de CO₂ na atmosfera hoje é maior do que em qualquer outro momento da história da espécie humana, esse gás aparentemente está se acumulando em nosso organismo."

## Implicações para a saúde pública e o clima

Para Larcombe, a concentração de CO₂ atmosférico precisa ser considerada não apenas um indicador ambiental, mas também uma variável de saúde pública. "Não estamos dizendo que as pessoas passarão a adoecer de repente quando determinado limite for ultrapassado", afirmou. "Mas os resultados sugerem que podem estar ocorrendo mudanças fisiológicas graduais em escala populacional, e isso é algo que deveria ser monitorado como parte das futuras políticas relacionadas às mudanças climáticas."

O estudo reforça a necessidade de limitar os níveis de CO₂ na atmosfera, já que "talvez nunca consigamos nos adaptar plenamente", como destacou Bierwirth. As alterações na química do sangue humano servem como um alerta silencioso de que as mudanças climáticas já estão afetando nosso corpo, mesmo que de forma gradual.

## Perguntas Frequentes

### O que é bicarbonato sérico?

É uma substância no sangue que ajuda a manter o equilíbrio entre acidez e alcalinidade, regulando o pH. Ele está diretamente relacionado à quantidade de CO₂ transportada pelo organismo.

### Quanto o bicarbonato sérico aumentou desde 1999?

Os níveis médios de bicarbonato sérico aumentaram cerca de 7% nos indivíduos analisados entre 1999 e 2020.

### Crianças são mais afetadas pelas mudanças na química do sangue?

Sim, crianças e adolescentes podem ser particularmente vulneráveis, pois seus organismos em desenvolvimento estarão expostos por mais tempo ao aumento da concentração de CO₂ na atmosfera.

### O que significa o aumento de CO₂ no sangue?

À medida que a concentração de CO₂ aumenta, o corpo pode reter mais bicarbonato para preservar o pH do sangue. Manter esse ajuste por longos períodos pode produzir efeitos fisiológicos.

### A pesquisa prova que o clima causa essas mudanças?

Não. Phil Bierwirth, coautor do estudo, ressalta que a pesquisa não demonstra uma relação direta de causa e efeito, mas a consistência das alterações observadas em toda a população merece atenção.

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Fonte (canonical): https://mercadovalor.com.br/economia/quimica-sangue-humano-esta-mudando-culpa-clima/
