# Nova China do agro: FAO vê 2 caminhos sem Pequim

> A nova China do agro, segundo a FAO, não terá substituta única para a demanda brasileira. O futuro do setor depende de dois caminhos: expansão para mercados emergentes na África e Oriente Médio, e desenvolvimento da bioeconomia. A autossuficiência alimentar chinesa reduz o motor de exportação, exigindo diversificação estratégica do agronegócio nacional.

*Mercado Valor · Economia · 05 de agosto de 2026 · Rubens Athayde*

A China busca autossuficiência alimentar e o agro brasileiro perde o principal motor de demanda. Para a FAO, não existe uma substituta única: o futuro passa por África, Oriente Médio e bioeconomia. Entenda os dois caminhos.

## Quem será a 'nova China' do agro brasileiro? Para a FAO, há dois caminhos

A busca da China por maior autossuficiência alimentar levanta uma questão que já ronda produtores e investidores: quem será o próximo grande motor de demanda para o agronegócio brasileiro? A resposta, segundo a FAO, não é um único país, mas duas frentes complementares.

## Sem substituta à altura: o diagnóstico da FAO

David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), foi direto: não existe uma 'nova China' capaz de substituir, sozinha, o papel que o país asiático exerceu nas últimas décadas. A declaração foi feita em painel do Brazil Climate Solutions, nesta terça-feira (4), promovido pelo Itaú BBA, em conversa mediada por Marcos Jank, coordenador do Insper Agro.

Segundo Jank, a expansão do agro brasileiro desde os anos 1970 foi puxada por produtividade, ocupação do Cerrado e sistemas integrados. Mas esse crescimento sempre dependeu da demanda internacional, e até agora ela teve nome: China. O gigante asiático impulsionou exportações de proteínas animal e vegetal, açúcar, cereais, café, algodão e outras commodities.

## Por que o apetite chinês está mudando

O cenário começa a mudar por três frentes: menor ritmo de crescimento econômico, redução da população e, principalmente, a estratégia chinesa de reforçar sua segurança alimentar, reduzindo dependência de importações, sobretudo de soja. Isso está indicado no 15º Plano Quinquenal (2026-2030).

Laborde avalia que o mercado chinês ainda oferece oportunidades, mas atingiu um estágio maduro. 'O potencial de crescimento ainda existe, mas grande parte dele já foi capturada', afirmou. O Brasil até se beneficiou das tensões entre EUA e China, ganhando participação nas importações chinesas, mas esse movimento dificilmente seguirá na mesma intensidade.

## E a Índia? Não conta com ela

Embora o Sul da Ásia deva ganhar importância, Laborde descartou a Índia como substituta. O país tem setor agrícola robusto e protege seus produtores: mais de 500 milhões de indianos dependem da agricultura, o que limita a abertura comercial. Além disso, a Índia já exporta carne bovina, apesar de a maioria da população não consumir a proteína. Pode ampliar importações de oleaginosas, mas dificilmente alcançará a escala chinesa.

## Os dois caminhos: África, Oriente Médio e bioeconomia

Para Laborde, os maiores vetores de crescimento estarão no Oriente Médio e, principalmente, na África. O desafio é a capacidade financeira desses países. 'A questão para a África é se haverá dinheiro suficiente para pagar por essas compras', explicou. Ainda assim, defendeu o comércio como relação de ganhos mútuos: 'Quando um país cresce, seus parceiros comerciais também crescem'.

O segundo caminho é a bioeconomia. Se o mundo avançar na substituição dos combustíveis fósseis, a produção global de biomassa precisaria ser multiplicada entre três e quatro vezes. Isso criaria demanda por madeira, produtos agrícolas e renováveis, abrindo novos mercados para o Brasil. 'A próxima grande transformação global será como vamos usar a biomassa', disse Laborde, destacando que a produção precisa ser sustentável.

Tecnologias como bioinsumos terão papel central. 'Criar essa bioeconomia do futuro será um esforço global, que criará um mercado para produtos e produtores brasileiros', completou.

## O que isso significa para o produtor brasileiro

Para quem investe no agro, o recado é de diversificação. Depender de um único comprador, como a China, torna o setor vulnerável a mudanças de política externa. A aposta em mercados emergentes e em bioeconomia exige planejamento e produtividade. O ciclo sempre vira, mas quem se prepara para múltiplas fontes de demanda tende a sofrer menos.

## Perguntas Frequentes

### A China vai deixar de comprar do agro brasileiro?

Não. O mercado chinês ainda oferece oportunidades, mas o potencial de crescimento já foi majoritariamente capturado, segundo a FAO.

### Qual país pode substituir a China?

Nenhum sozinho. A FAO aponta África e Oriente Médio como vetores de demanda, além da bioeconomia como segundo pilar.

### O que é bioeconomia no agro?

É o uso de biomassa para produzir energia, combustíveis e materiais, substituindo fósseis. A produção global precisaria crescer de 3 a 4 vezes.

### A Índia pode ser a nova China?

Dificilmente. O país protege seus produtores e já é exportador, o que limita o potencial de importação em escala chinesa.

---

Fonte (canonical): https://mercadovalor.com.br/economia/quem-sera-8216nova-china8217-agro-brasileiro-quando-apetite-pequim-acabar-fao-ha/
