# Caixa de Pandora: a esperança que sobra no país

> A análise sobre o Brasil, inspirada no mito da Caixa de Pandora, revela que a esperança permanece como último recurso após a abertura da caixa. Desvios sem custo institucionalizaram-se como método, enquanto a concentração de poder opera sem freios efetivos. O país enfrenta um cenário de erosão ética e desequilíbrio institucional, com a esperança como único ativo restante para reverter o quadro.

*Mercado Valor · Economia · 03 de setembro de 2026 · Bianca Solano*

Assim como no mito da Caixa de Pandora, a última coisa que resta é a esperança. Mas antes dela, o país abriu a caixa: desvios sem custo viraram método, e a concentração de poder segue sem freio. Leia a análise.

A referência ao mito da Caixa de Pandora não é casual. No Brasil, a caixa foi aberta, e o que restou é a esperança. A análise parte de um ponto: o ato de abertura tem data, e não é recente.

Em agosto de 2016, o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi presidido por um ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e a votação foi fatiada: a presidente perdeu o cargo, mas manteve os direitos políticos, contrariando o artigo 52 da Constituição, que diz que uma coisa acompanha a outra. O Supremo nunca validou o fatiamento como tese jurídica. Foi uma manobra negociada, à vista de todos, e ficou por isso mesmo.

Esse episódio é apontado como o primeiro desvio sem custo. E quando o desvio não tem custo, transforma-se em método. A partir daí, a análise lista uma série de situações: inquéritos abertos de ofício, decisões monocráticas movimentando bilhões e definindo eleições, um ministro que suspendeu a campanha de um candidato a presidente num sábado e devolveu tudo na segunda, e penas de 14 e 16 anos para réus do 8 de janeiro sem arma e sem função de comando. Há ainda o caso de um ex-presidente, sem cargo, julgado direto no Supremo, sem primeira instância, e condenado a 27 anos.

A pergunta central é: qual é o freio? Quem fiscaliza? A resposta honesta é: ninguém. E a captura desce a escada. Em 2023, a lista tríplice para a Procuradoria-Geral da República foi ignorada: o presidente não recebeu os três nomes indicados pelos procuradores, e quem foi recebido foram candidatos de fora da lista, como Paulo Gonet, que virou procurador-geral e foi reconduzido em 2025, com a maior rejeição no Senado em décadas.

O relatório da Polícia Federal sobre o Banco Master, com 218 páginas e sigilo derrubado pelo relator do caso no Supremo, ministro André Mendonça, expõe técnicas de dinheiro que não quer ser visto: pagamento sem dinheiro (dação em pagamento de cotas de empresa dona de jato e helicóptero), a boneca russa (bens em nome de empresa, não de pessoas), a escolha do trilho (nunca pagar por PIX), o papel depois do dinheiro (pagamento antes da nota fiscal) e a porta de saída de um real (possível cláusula de recompra simbólica, ainda não confirmada).

O ministro nega ter recebido as mensagens e chama o conjunto de "ilação". O escritório diz que os serviços foram prestados. Tudo registrado. A análise não afirma que é crime, mas lê as páginas e aponta o padrão. Resta a esperança de que o plenário responda à pergunta: por que esse dinheiro precisou de tanto esforço para não ser visto? análise política poder judiciário

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Fonte (canonical): https://mercadovalor.com.br/economia/opiniao-assim-como-mito-caixa-pandora-ultima-coisa-resta-esperanca/
