Economia

Juros longos dos EUA atingem máxima em 18 anos após Fed manter juros pela 5ª vez

ResumoOs rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA de 30 anos atingiram 5,244%, maior nível desde julho de 2007, após o Federal Reserve manter os juros na faixa de 3,50% a 3,75% pela quinta vez consecutiva. A ponta curta recuou e o dólar perdeu força, refletindo incertezas sobre o controle da inflação.

Os rendimentos do Treasury de 30 anos atingiram 5,244%, maior nível desde julho de 2007, após o Fed manter os juros na faixa de 3,50% a 3,75% pela quinta vez consecutiva. A ponta curta recuou e o dólar perdeu força, refletindo incertezas sobre o controle da inflação.

Lia Hartmann
Lia Hartmann Especialista em renda fixa · 29 de julho de 2026
Juros longos dos EUA atingem máxima em 18 anos após Fed manter juros pela 5ª vez

Juros longos dos EUA atingem máxima em 18 anos após Fed manter juros pela 5ª vez consecutiva

Os rendimentos do título do Tesouro dos Estados Unidos - o Treasury - de 30 anos atingiram o maior nível desde julho de 2007 nesta quarta-feira (29), a 5,244%, após a decisão do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) de manter os juros inalterados na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano pela quinta vez consecutiva. Enquanto a ponta longa disparou, os rendimentos dos Treasuries de 2 anos, de curto prazo, recuaram levemente e o dólar perdeu força, refletindo as incertezas dos investidores sobre a capacidade do Fed de manter a inflação sob controle.

Por que os juros longos dos EUA subiram tanto?

A inclinação da curva de juros americana refletiu a falta de clareza sobre o próximo movimento do Fed. "A reação da curva foi condizente com a falta de clareza sobre o que o Fed está esperando para apertar a política monetária: forte steepening, com a ponta curta (2 anos) fechando cerca de 10 pontos-base e a ponta longa (30 anos) abrindo outros 10 pontos-base, em direções opostas - resultando em um movimento, puxado pela combinação entre uma ponta curva ainda ancorada e uma ponta longa exigindo mais prêmio por risco de inflação e de credibilidade", afirmou Marcos Mollica, gestor da SPX Capital, em nota.

Na prática, um ponto-base equivale a 0,01% do rendimento do título. Quando a ponta curta cai e a longa sobe, a curva se "inclina" - sinal de que investidores exigem mais retorno para carregar dívida de longo prazo, temendo que a inflação não ceda.

Decisão do Fed: manutenção, mas com dissenso

A decisão, já esperada pelo mercado, não foi unânime. Beth Hammack (Fed de Cleveland), Neel Kashkari (Fed de Minneapolis) e Lorrie Logan (Fed de Dallas) defenderam uma alta de 25 pontos-base, marcando o maior dissenso desde setembro de 2016. Os três dirigentes já haviam defendido, na reunião de abril, a retirada do viés de flexibilização monetária do comunicado do BC.

O comunicado não trouxe novidades: reconheceu que a atividade econômica segue "sólida", a inflação permanece "elevada" e reiterou o compromisso da autoridade monetária com a estabilidade de preços. "Tivemos uma comunicação muito simples e enxuta, sem dar um forward guidance sobre possíveis movimentos em setembro", avaliou William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities.

Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que conseguiu a "boa discussão familiar" na reunião, mas ressaltou que o Comitê optou pela estabilidade por uma "ampla maioria". Warsh também destacou os níveis mais elevados dos juros nominais e reais dos títulos públicos, sugerindo que parte do aperto das condições financeiras já foi promovida pelo próprio mercado. Ainda assim, reforçou que, caso a inflação não desacelere, o Fed poderá voltar a elevar os juros: "Não hesitaremos em agir", disse ele.

O que esperar da próxima reunião do Fed?

Antes da decisão, o mercado precificava cerca de 35% de probabilidade de alta de 25 pontos-base, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group. Após o fechamento dos mercados regulares, a ferramenta apontava 63,4% de chance de o Fed elevar os juros em 0,25 ponto percentual na próxima reunião. No dia anterior (28), a chance era de 76% - sendo 55,8% de alta de 0,25 ponto e 20,2% de aumento de 0,50 ponto percentual.

Para o banco ING, os argumentos para uma alta eram claros: o Fed não atinge sua meta de inflação há cinco anos e, embora tenha havido progresso, os preços do petróleo continuam elevados em um mercado de trabalho ainda apertado. "Uma alta também serviria para reforçar o compromisso do novo presidente do Fed com o combate à inflação e ajudaria a ancorar os juros dos Treasuries de longo prazo", avaliaram o economista-chefe internacional, James Knightley, e o líder global de Mercados, Chris Turner, do ING.

Para o banco holandês, o Fomc deve manter os juros estáveis em setembro, mais uma vez, e considera que a próxima decisão será "apertada". "Se o cenário se confirmar, inflação mais fraca e mercado de trabalho menos aquecido, a precificação de novas altas de juros deve diminuir. Nesse caso, o Fed poderá manter os juros estáveis por um período prolongado, em vez de elevar uma vez e começar a cortá-los em 2027, como atualmente indica seu cenário-base", acrescentaram os especialistas do ING.

Já o economista sênior do Inter, André Valério, pondera: "Hoje, o mercado precifica uma alta em setembro, mas a dinâmica inflacionária até lá será determinante para o próximo passo do Fed. Com a incerteza do conflito no Oriente Médio e o preço do petróleo rondando os US$ 100 por barril, podemos ver a inflação não ceder o suficiente, o que poderia levar mais membros do Fomc a votar por uma alta na próxima reunião".

Para Mollica, da SPX, a ausência de sinalização mais clara na comunicação não reduziu as incertezas sobre a postura do Fed contra a inflação, e, por outro lado, reforçou a leitura de que a decisão de setembro será "um verdadeiro teste".

O que são os Treasuries e por que eles importam?

Os Treasuries são os títulos da dívida do governo norte-americano. Eles são considerados o ativo mais seguro do mundo porque os EUA são o emissor da moeda de transação universal - o dólar - e o governo nunca deu calote na história. Ao comprar Treasuries, o investidor empresta dinheiro para o governo dos Estados Unidos, com a perspectiva de receber retorno financeiro no período do título, dada uma taxa negociada diariamente.

Assim como os títulos do Tesouro brasileiro, os Treasuries possuem diferentes vencimentos. Os mais relevantes são:

  • 2 anos: mais sensível à política monetária
  • 10 anos: referência para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito
  • 30 anos: referência para hipotecas de longo prazo

As taxas, também chamadas de yields (rendimentos), variam de acordo com a perspectiva dos investidores para a trajetória da taxa de juros dos EUA. Os rendimentos e os preços movem-se em direções opostas. Além disso, os títulos ajudam a estabelecer o valor do dólar no mercado internacional.

Perguntas Frequentes

O que significa a alta dos juros longos dos EUA?

A alta do Treasury de 30 anos a 5,244% indica que investidores exigem maior retorno para manter títulos de longo prazo, refletindo preocupações com a inflação e dúvidas sobre a política monetária do Fed.

O Fed vai subir os juros em setembro?

Após a decisão, o mercado precificava 63,4% de chance de alta de 0,25 ponto percentual em setembro, segundo o FedWatch do CME Group. A dinâmica inflacionária e o cenário geopolítico serão determinantes.

O que é o dissenso no Fed?

Três dirigentes - Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorrie Logan - votaram por uma alta de 25 pontos-base, marcando o maior dissenso desde setembro de 2016. Eles já haviam defendido, em abril, a retirada do viés de flexibilização monetária.

Como os Treasuries afetam o investidor brasileiro?

Os rendimentos dos Treasuries influenciam o dólar e os fluxos globais de capital. Quando os juros americanos sobem, ativos de risco, como ações e títulos de emergentes, tendem a perder atratividade.

O que é steepening da curva de juros?

É quando a diferença entre os rendimentos de curto e longo prazo aumenta. No caso, a ponta curta (2 anos) caiu e a longa (30 anos) subiu, indicando incerteza sobre inflação e credibilidade do Fed.

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