El Niño e seguro de vida: por que o clima entra na conta das seguradoras
O El Niño altera padrões de chuva e temperatura, afetando a saúde e o mercado de seguros. No seguro de vida, o impacto é indireto, mas pode elevar indenizações. Especialistas explicam como o clima influencia a precificação e os contratos.
O El Niño, fenômeno climático que altera padrões de chuva, temperatura e seca, também afeta o mercado de seguros. No seguro de vida, o impacto é indireto, mas relevante: ondas de calor, enchentes, tempestades e secas podem aumentar riscos à saúde e elevar a ocorrência de acidentes. A Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) publicou um relatório sobre os possíveis efeitos do El Niño na saúde da população das Américas ao longo de 2026 e no início de 2027, destacando riscos que repercutem nas seguradoras.
O El Niño impacta o seguro de vida de forma indireta, ao aumentar riscos à saúde e acidentes por eventos climáticos extremos, como ondas de calor, enchentes e secas. Isso pode elevar a sinistralidade e o volume de indenizações pagas pelas seguradoras, embora a precificação não mude de imediato.
Como o El Niño afeta a saúde e a sinistralidade
Segundo Rodrigo Cunha, gerente de Produtos e Inteligência de Mercado da MAG Seguros, eventos climáticos extremos como o El Niño podem "aumentar o número de mortes acidentais ou agravar condições de saúde preexistentes, influenciando a sinistralidade [relação percentual entre os custos da seguradora ao pagar indenizações e o valor total arrecadado com os clientes] e o volume de indenizações pagas pelas seguradoras".
O relatório da Opas aponta que os efeitos do El Niño dependem das condições climáticas de cada região, da vulnerabilidade da população e da capacidade de resposta dos países. Entre os principais riscos estão secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais.
Riscos diretos à saúde
A mudança no regime de chuvas e nas temperaturas pode favorecer a disseminação de doenças transmitidas pela água e alterar a circulação de vetores responsáveis por enfermidades como dengue, zika, chikungunya, malária, febre amarela e oropouche.
As ondas de calor podem provocar estresse térmico, desidratação e exaustão, além de agravar doenças cardiovasculares e respiratórias. Já a fumaça de incêndios e queimadas pode piorar a qualidade do ar e aumentar os casos de asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e outras doenças respiratórias.
O documento também aponta possíveis impactos sobre a saúde mental, relacionados a perdas econômicas, deslocamentos populacionais, interrupção de serviços e incertezas provocadas por eventos extremos. Secas e enchentes podem ainda comprometer a produção de alimentos, o abastecimento de água e o acesso a serviços de saúde.
Impacto regional no Brasil
"No Brasil, os efeitos costumam ser regionais. Há maior risco de seca no Norte e em parte do Nordeste e maior propensão a chuvas volumosas no Sul do país, embora cada episódio tenha características próprias", explica Pedro Luiz Valls, pesquisador do Centro de Estudos em Riscos Climáticos e Resiliência da FGV.
A Opas avaliou também a vulnerabilidade de 756 hospitais de emergência localizados em áreas potencialmente expostas a inundações costeiras por eventual elevação do nível do mar.
De acordo com o relatório, além dos danos físicos, eventos extremos podem interromper o fornecimento de medicamentos, insumos e outros recursos necessários ao atendimento.
Precificação e adaptação do seguro de vida
Segundo Valls, para medir o impacto sobre o setor, seria necessário cruzar dados meteorológicos, informações de mortalidade e bases de sinistros (ocorrência do risco previsto no contrato de seguro) das seguradoras.
A previsão de um El Niño mais intenso, por si só, não costuma provocar uma alteração imediata no preço de um seguro de vida. Segundo Cunha, a precificação é baseada em um acompanhamento contínuo de fatores demográficos, epidemiológicos, econômicos e ambientais, além da experiência histórica da carteira.
No longo prazo, porém, a evolução dos riscos climáticos pode estimular adaptações graduais nas soluções oferecidas pelas seguradoras e até o desenvolvimento de novos produtos.
"Esse cenário pode contribuir para discussões sobre novos produtos e soluções de proteção, mas isso ocorre dentro de um processo de desenvolvimento baseado em estudos técnicos, comportamento do mercado e necessidades dos clientes", diz Cunha.
Diferença para seguros patrimoniais
No seguro de vida, essa adaptação tende a ser mais lenta do que em modalidades diretamente expostas a danos físicos, como seguros residencial, automóvel e rural.
"No seguro de vida, as mudanças no contrato tendem a ser mais graduais. Já em seguros patrimoniais, como residencial, automóvel e rural, os ajustes costumam ser mais visíveis, porque os danos físicos associados a enchentes, vendavais, granizo e deslizamentos aparecem de forma mais direta na sinistralidade", conclui o pesquisador.
Perguntas Frequentes
O El Niño aumenta o preço do seguro de vida?
Não de imediato. A precificação é baseada em fatores demográficos, epidemiológicos, econômicos e ambientais, além da experiência histórica. No longo prazo, os riscos climáticos podem estimular adaptações graduais.
Como o El Niño afeta a saúde?
Pode favorecer doenças transmitidas pela água (dengue, zika, malária), agravar problemas cardiovasculares e respiratórios por ondas de calor e fumaça, e impactar a saúde mental devido a perdas e deslocamentos.
Quais regiões do Brasil são mais afetadas?
Segundo especialistas, há maior risco de seca no Norte e em parte do Nordeste, e maior propensão a chuvas volumosas no Sul, embora cada episódio tenha características próprias.
O que é sinistralidade?
É a relação percentual entre os custos da seguradora ao pagar indenizações e o valor total arrecadado com os clientes. Eventos climáticos podem elevar a sinistralidade.
Seguro de vida muda mais rápido que seguro residencial?
Não. As mudanças no seguro de vida são mais graduais, enquanto seguros patrimoniais (residencial, automóvel, rural) ajustam-se mais rapidamente devido aos danos físicos diretos.